Brasília Campanha de vacinação contra a Covid-19 completa 1 ano no DF 

Campanha de vacinação contra a Covid-19 completa 1 ano no DF 

Primeira vacinada foi Lídia Rodrigues, 31 anos, enfermeira do HRAN, em 19 de janeiro de 2021

  • Brasília | Jéssica Moura, do R7, em Brasília

Enfermeira Lídia Rodrigues, primeira vacinada no Distrito Federal

Enfermeira Lídia Rodrigues, primeira vacinada no Distrito Federal

Geovana Albuquerque/Agência Saúde DF

Os primeiros 5 mL de uma vacina contra a Covid-19 foram aplicados no braço da enfermeira Lídia Rodrigues, 31 anos, em 19 de janeiro de 2021, o que inaugurou a campanha de vacinação no Distrito Federal. Nesta quarta-feira (19), completa-se um ano da data. Naquele dia, ela estava a caminho do plantão no pronto-socorro, que então atendia apenas infectados, quando uma notificação no celular trouxe a notícia pela qual a enfermeira tanto ansiava.

"Só fiquei sabendo no dia. Minha coordenadora me mandou uma mensagem no WhatsApp. Foi ótimo, estava aliviada de finalmente me vacinar. Foi um alívio", lembra Lídia. Um mês antes, ela tinha contraído Covid-19, mas com sintomas leves. Além de alterar a rotina de trabalho, a doença também mudou o cotidiano em casa.

"Eu trabalho na emergência, onde ficam os casos mais graves. A rotina mudou totalmente. Eu não via minha família, estava isolada mesmo. Morava com minha mãe e tive que sair de casa. Agora que ela também já tomou as três doses, a gente se encontra, tomando todos os cuidados", relata. 

A servidora do HRAN (Hospital Regional da Asa Norte), que à época era a unidade de referência para atendimento dos casos de Covid-19, foi escolhida por estar no grupo prioritário de vacinação: os trabalhadores da saúde da linha de frente de combate à pandemia, assim como idosos e pessoas com deficiência em instituições de longa permanência e indígenas. As primeiras remessas foram de doses da Coronavac e de Oxford/AstraZeneca.

Arte/R7

Há um ano, quando ninguém estava imunizado, a capital federal acumulava 265.886 contágios e 4.436 óbitos. Nos hospitais públicos, a ocupação dos quase 160 leitos de UTI para tratar dos casos mais graves da doença era de cerca de 85% e o número de diagnósticos estava em alta. Em fevereiro, o DF chegaria a uma condição crítica, quando restou apenas um leito livre. Com isso, o governador Ibaneis Rocha (MDB) decretou toque de recolher, proibiu eventos e restringiu o funcionamento do comércio. 

Desde então, os números demonstram que a situação mudou: mais de 5 milhões de doses foram aplicadas na capital federal ao longo da campanha, derrubando a demanda por internações. Com isso, leitos de UTI foram desmobilizados, e até dezembro de 2021, 59% das 55 vagas em UTIs estavam ocupadas. As medidas de restrição foram relaxadas, o comércio voltou a funcionar sem horário limite e até as máscaras foram dispensadas ao ar livre.

"Para a gente mudou muito, porque a emergência estava fechada só para Covid. Agora, já está aberta para clínica médica geral, mesmo com a circulação da nova variante. Antes, tinham pacientes que chegavam bem e de repente pioravam muito, ou pacientes que já chegavam muito graves. A emergência virou uma UTI gigante. Percebemos também essa mudança no perfil. Na época da vacinação dos idosos, teve uma redução na idade dos contaminados que ficavam internados. Depois de tanto tempo de vacina muitos que internavam eram os que recusaram a vacina", explica a enfermeira.

Arte/R7

Em janeiro de 2022, entretanto, os números voltaram a crescer com o espalhamento da variante Ômicron, levando o índice de ocupação de UTIs para tratar dos casos mais graves a 74%. De acordo com o governo, cerca de 90% dos pacientes hospitalizados não estão vacinados, e portanto, mais vulneráveis ao contágio pelo coronavírus. Atualmente, 75,83% da população do DF está imunizada com uma dose, e 72,12% completou o ciclo vacinal com duas doses ou a dose única. Mais 18,51% tomaram a dose de reforço e 0,34% a dose adicional.

Nova fase

No entanto, apesar dos avanços, ainda há gargalos a serem solucionados para fazer a vacinação deslanchar. No domingo (16), quase um ano depois do início da campanha, e um depois da autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), as crianças passaram a ser vacinadas. O DF recebeu 16,3 mil doses do Ministério da Saúde e priorizou os pré-adolescentes de 11 anos e as pessoas com deficiência e com comorbidades.

"Infelizmente, a mesma situação do início da pandemia vai acontecer com a vacinação infantil", prevê a epidemiologista, Carla Domingues. "As vacinas vão chegar a conta-gotas, lentamente, vamos ver a dificuldade de vacinar, assim como na primeira fase de vacinação da população adulta, um espaçamento muito grande de um grupo para o outro. O processo de operacionalização ainda vai ser dificultado com poucos postos disponíveis", acrescentou.

A preocupação é que o público nessa faixa etária fosse vacinado antes da volta às aulas 100% presenciais. O ano letivo começa em 14 de fevereiro. “O Ministério da Saúde deveria se antever à demanda, e não ter esperado a demanda para então buscar vacinas. O ideal é que entrasse o ano letivo com todas as crianças vacinadas com pelo menos uma dose, agora a gente vai entrar com 10% ou 15%, é muito pouco”, lamentou Domingues.

Mesmo com os índices de vacinação elevados, a especialista reforça que o DF precisa expandir a imunização com o reforço diante do avanço das contaminações na capital federal. “Deveríamos estar com um número maior de pessoas vacinadas. Com a Ômicron, os serviços de saúde vão chegar ao esgotamento, de atendimentos não mais na UTI, mas ambulatorial. Enquanto não estivermos com índices elevados da dose de reforço, não temos cenário tranquilo para voltar ao normal, ainda podem vir outras variantes”, alerta a especialista.

Diante da escalada de novos casos da infecção na cidade, o governo cancelou festas, como o Carnaval, e também proibiu shows e eventos com venda de ingressos. Outra medida adotada pelo governo foi em dezembro do ano passado, quando antecipou a aplicação da dose de reforço de cinco para quatro meses para acelerar a vacinação. Outra estratégia é investir na busca ativa. Para atrair a comunidade, foi implementado o "Carro da Vacina", que circula pelo DF para convencer a população a se vacinar.

Agendamento

No início da imunização, o governo local implementou um sistema de cadastro e agendamento para a vacinação, em que eram disponibilizadas vagas para imunização, o que gerou uma onda de críticas. Os usuários reclamaram de dificuldade de acessar o sistema, que, sobrecarregado, saia do ar. Além disso, as vagas acabavam poucos minutos depois de disponibilizadas. Diante da escassez de vacinas no DF, houve moradores de Brasília que procuraram os postos na região do Entorno para se vacinar, pois, por lá, a campanha por idade andou mais depressa. O agendamento só foi abolido em julho.

O deputado distrital Fábio Felix (Psol) foi autor do requerimento que resultou na criação da Comissão Especial da Vacinação, na Câmara Legislativa, ainda em dezembro de 2020. O objetivo era fiscalizar a campanha no DF. “O governo cometeu muitos erros, e o primeiro foi criar esse filtro para a vacinação, uma barreira desigual”, destacou. “Nem todo mundo tinha acesso à internet, ou conhecimento para manejar o site. Isso gerou um grande atraso”.

Postos de saúde

Quando a campanha avançou por faixas etárias em fevereiro, a Secretaria de Saúde pediu "calma" à população. Tinha chegado a vez dos idosos a partir de 80 anos. Até então, apenas 36 salas de vacinas haviam sido mobilizadas. Com a demanda crescente pelos imunizantes, a quantidade de postos também teve que aumentar: hoje são pelo menos 73. Os locais de vacinação também passaram a funcionar aos finais de semana e alguns abriram durante a noite.

Os atendimentos nos postos começavam, em geral, às 8h, mas cenas de pessoas madrugando na entrada dos postos de saúde para garantir a injeção eram recorrentes pelo DF. Longas filas em diversos pontos marcaram a corrida pela vacina. Em outras ocasiões, após a entrega de remessas pelo Ministério da Saúde, o governador Ibaneis Rocha antecipava, em cima da hora, a vacinação do próximo grupo da lista, o que causava confusão nos postos de saúde.

"Foi uma campanha confusa e dispersa, mudando recomendações a cada momento, muitas vezes por pressão da sociedade", frisou a epidemiologista Carla Domingues. Em janeiro, houve finais de semana em que apenas um posto estava aberto para vacinação.

Categorias

Conforme novas remessas eram entregues, a vacinação prosseguiu entre os grupos prioritários, que passaram a incluir diversas categorias profissionais. Além da área da saúde, vigilantes, bancários e aeroviários, por exemplo foram abarcados. Agentes de segurança também puderam procurar os postos em abril. Naquele mês, o comandante-geral da Polícia Militar, Julian Rocha Pontes, furou a fila e foi exonerado do cargo. Em maio, as vacinas da Janssen foram reservadas aos professores para o retorno das atividades presenciais nas escolas em agosto.

Diante da escassez de dose, outras categorias vulneráveis à contaminação também fizeram pressão para serem vacinadas. Os rodoviários chegaram a fazer paralisações para pedir vacinas. Em julho do ano passado, Ibaneis aboliu a inclusão por categorias profissionais e ampliação passou a ser feita apenas por idade.

Avanço da campanha

Em maio, o governo precisou fazer uma campanha de conscientização para que as pessoas tomassem a vacina do fabricante que estivesse disponível no posto: na época, esse problema dificultava o avanço da vacinação. A guinada na cobertura vacinal só ocorreu em agosto, quando o DF registrou recorde na quantidade de vacinas aplicadas em um mês. Foi nessa época que a campanha incluiu adultos a partir de 25 anos. 

Arte/R7

Para acelerar a conclusão do ciclo vacinal, o governo passou a antecipar o hiato entre as doses. A previsão do governo do DF era que 100% da população apta a se vacinar tivesse pelo menos a D1 no braço até dezembro de 2021, mas a promessa não se confirmou. Até essa sexta-feira (14), a 89,78% da população vacinável havia tomado a 1ª dose de alguma das vacinas.

Efeitos da vacinação

Os efeitos da vacinação se refletiram nos dados de monitoramento da Covid-19. Entre agosto de 2021 e janeiro de 2022, a ocupação dos leitos de UTI (unidade de terapia intensiva) por pacientes graves caiu 76%, de acordo com o monitoramento da Fundação Oswaldo Cruz. Em novembro, o hospital de campanha do Gama (DF), com 100 leitos, foi desativado. Em outubro, a taxa de reprodução do vírus caiu a 0,73. 

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