Mensagens e encontros: o que os ministros do STF devem analisar em julgamento de Moraes
Mensagens obtidas pela PF registram pedidos de Vorcaro, encontros com Moraes e negócios com escritório da mulher do ministro
Brasília|Giovana Cardoso e Mariana Saraiva, do R7, em Brasília
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

As mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, recuperadas pela Polícia Federal a partir do celular do ex-dono do Banco Master, estão entre os elementos que os ministros do STF terão em mãos para decidir se há indícios suficientes para aprofundar a apuração sobre o ministro. O material reúne relatos de pressões e possíveis interferências no Banco Central, mensagens temporárias e registros de encontros presenciais entre os dois.
Nesta terça-feira (15), está marcada a sessão plenária em que será analisada a atuação do ministro Alexandre de Moraes, devido à suposta proximidade dele com Vorcaro.
No documento, a PF explica que conseguiu recuperar mensagens apagadas a partir de vestígios deixados no iPhone de Vorcaro. O banqueiro escrevia o conteúdo no aplicativo Notas, fazia uma captura de tela e, em seguida, enviava a imagem pelo WhatsApp. O aparelho gerava automaticamente um PDF da captura, permitindo aos investigadores cruzar os horários das ações e identificar as mensagens.

Encontros e reuniões
A primeira troca de mensagens entre Vorcaro e Moraes foi feita em 2025. Entretanto, antes disso, os dois já haviam se encontrado pessoalmente em 2023, em uma reunião intermediada pelo ex-ministro das Comunicações do governo Bolsonaro, Fábio Faria, que também foi responsável por compartilhar o contato de Moraes ao ex-banqueiro.
Ainda em 2023, outros dois encontros foram feitos entre Moraes e Vorcaro, um deles em um hotel de luxo em Campos do Jordão.

Contrato de R$ 131 milhões
Segundo documentos extraídos do celular de Vorcaro, Moraes teria acessado e sido o último a modificar uma minuta de contrato de prestação de serviços jurídicos firmada entre o Banco Master e o escritório de advocacia da mulher dele, Viviane Barci de Moraes. O acordo previa o montante de R$ 131 milhões em honorários.
Barci chegou a enviar o documento a Vorcaro por mensagem no dia 11 de janeiro de 2024 e, quatro dias depois, o ex-banqueiro devolveu o contrato com marcações feitas pelo seu advogado.
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Durante a interação entre a mulher de Moraes e Vorcaro, Fábio Faria confirma um jantar com o “careca” para o dia 2 de fevereiro de 2024. O contrato entre o escritório de Barci e o Master foi assinado 9 dias antes do encontro, em 23 de janeiro.
O jantar ocorreu na casa de Fabio Faria, no Lago Sul, em Brasília. O terreno, que ocupa a área de três casas vizinhas juntas, conta com duas quadras poliesportivas, uma piscina e um lago.
Mensagens temporárias
Em setembro de 2025, há o primeiro registro de mensagens trocadas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Segundo a PF, no período, eles passaram a adotar uma configuração padrão para mensagens temporárias em novas conversas, estabelecendo o prazo de 24 horas para a exclusão automática das comunicações.
Em outubro, o ministro do STF manda novas mensagens ao ex-banqueiro, mas elas aparecem como “apagadas pelo remetente”.
No mês seguinte, Vorcaro passa a usar o esquema de tirar print do aplicativo de notas do celular, enviar a foto e, em seguida, apagar. Nesse diálogo, Daniel fala sobre o vazamento de um tema que os dois conversaram, apontando um possível “gancho” para “entrar no circuito do processo”.
Mais tarde, ele pergunta ao ministro da Corte: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Moraes responde com duas mensagens, feitas no mesmo estilo.
“Confirma-se, assim, no caso concreto, o mecanismo descrito na seção de metodologia: ao ser capturada a tela do Bloco de Notas, o próprio sistema gera, de forma automática e simultânea, um arquivo PDF de conteúdo idêntico ao exibido”, diz o relatório da PF.
No total, 52 notas foram trocadas.
Conteúdo das mensagens
Entre as conversas, Vorcaro comenta com Moraes sobre informações sigilosas do Banco Central a que teve acesso, mencionando, ainda, a pressão dos diretores da autarquia sobre ele. A coação, segundo as mensagens, foi motivada por decisões da PF e Ministério Público.
“É importante reforçar com Andrei e Paulo para não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem, porque aí vai tudo pro saco. Estou disponível para tratar e explicar qualquer coisa, só não pode ter sacanagem. Vou te mandar os nomes que têm ido ao Bacen alegando que farão algo em breve”, disse ao ministro do STF.
Em outra mensagem, o ex-banqueiro diz que não é contra investigações feitas pelo Banco Central, mas, sim, contra pessoas que falam que o Bacen fará medidas contra ele.
Vorcaro chega a elogiar Moraes, destacando seu “legado” e “importância” ao país. No texto, o ex-banqueiro fala que, ao ter o ministro do seu lado, teria a “chance real de sair ainda mais forte”.
As mensagens mostram que o ex-banqueiro pediu a ajuda de Moraes para lidar com as investigações abertas pelo Banco Central contra o Banco Master.
Dias antes da primeira prisão
Menos de duas semanas antes da primeira prisão de Vorcaro, o ex-banqueiro parece responder a uma mensagem de Moraes sobre um inquérito envolvendo seu nome. Ele cita uma possível ligação em uma operação feita em São Paulo, mas aponta que checou e não estava entre os investigados.
Na conversa, Vorcaro pede orientação a Moraes se ele deve fazer uma petição para saber se existe um inquérito policial ou processo em seu nome.
Em 16 de novembro de 2025, Vorcaro questionou se seria possível “segurar” Andrei, em referência que a PF considera possível alusão a Andrei Rodrigues, então diretor-geral da Polícia Federal. Em outra nota, perguntou quem estaria pressionando o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para adotar medidas contra ele.
Vorcaro também disse que tentaria falar com Galípolo para apresentar uma proposta e afirmou que, se Andrei conseguisse adiar uma eventual medida contra o banco, seria possível evitar uma quebra. “Se o Andrei conseguisse atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra”, escreveu.
Na madrugada do dia 17, Vorcaro relatou que estava mobilizando investidores para tentar salvar o banco e demonstrou preocupação com o vazamento das conversas. Horas depois, afirmou que havia feito uma “correria” para viabilizar a operação e mencionou que começariam as “batidas do Esteves” no dia seguinte.
Segundo contrato com o escritório
A PF também encontrou um segundo contrato entre o escritório Barci de Moraes e a empresa Vikings Participações, datado de 12 de maio de 2025.
O acordo envolvia dois ativos vinculados a empresas relacionadas a Vorcaro: uma cota de um Legacy 650, avião de prefixo PP-NLR, e uma cota de um helicóptero EC 155 B1, da Airbus Helicopters.
Em maio, o advogado Leonardo Palhares discutiu com Vorcaro diferentes formas de estruturar a transferência dos ativos. Segundo a PF, uma das alternativas previa a entrega dos bens e a transferência das quotas, com possibilidade de recompra por R$ 1 caso o contrato de honorários não fosse cumprido. Vorcaro rejeitou essa opção.
Dias antes da elaboração do acordo, Vorcaro pediu a um sócio da Prime You informações sobre as duas aeronaves e determinou que uma brochura com os dados dos bens fosse enviada a Viviane de Moraes. Segundo o documento, a cota do Legacy 650 era avaliada em US$ 5,51 milhões, enquanto a do helicóptero custava US$ 1,33 milhão.
Em julho, as mensagens mostram discussões sobre o início do fluxo de pagamentos. Um funcionário informou que as aeronaves já haviam sido utilizadas e que o contrato estava passando por uma mudança de empresa. Em 24 de julho, uma funcionária financeira informou a Vorcaro que Palhares cobrava o pagamento de uma fatura do escritório no valor de R$ 22,8 milhões.
Outros encontros com Moraes
A PF identificou ainda registros de diversos encontros entre Vorcaro e Moraes. Em novembro de 2024, o banqueiro informou à filha que estava com o ministro. Em março de 2025, disse à namorada que estava com Moraes e, pouco depois, avisou a um diretor do Banco Central que estava “com Moraes aqui”. O encontro teria durado pelo menos quatro horas.
Também há registros de encontros em abril e maio de 2025 e uma mensagem de agosto em que Vorcaro diz que não poderia viajar porque estava com Alexandre.
Evento em Londres
Outro conjunto de mensagens trata da participação de Moraes em um evento em Londres, em 2024, organizado com participação de Vorcaro. O banqueiro chegou a dizer que estava preparando um “evento super exclusivo com Alexandre de Moraes em Londres”.
As mensagens indicam que Moraes participou de decisões sobre convidados e programação. Em uma delas, Vorcaro repassou a um contato do Brazil Journal um pedido atribuído ao ministro para que uma reportagem mencionasse um encontro privado de ministros do STF com o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.
Na preparação de uma nova edição do evento, prevista para 2025, funcionários de Vorcaro também trataram diretamente com Viviane de Moraes e o ministro sobre a programação. O evento acabou cancelado.
Gonet e Andrei
A PF não encontrou no celular de Vorcaro um contato salvo como “Andrei Rodrigues” ou simplesmente “Andrei”. Ainda assim, identificou mensagens que podem se referir ao diretor-geral da Polícia Federal.
Em abril de 2024, Fábio Faria encaminhou a Vorcaro uma conversa na qual um interlocutor perguntava se deveria convidar “o DPF Andrei” para um evento. Na sequência, foram discutidos contatos com o diretor-geral da PF e um convite formal.
Vorcaro então escreveu a um contato salvo como “Marcio Conjur” que o “Ministro fez convite ao Andrei PF”. Pouco depois, recebeu informações sobre o interesse do diretor-geral em participar do evento e sobre questões logísticas. Segundo a conversa, todas as despesas de hospedagem e passagem seriam bancadas pelos organizadores.
Em julho de 2025, já na preparação de uma nova edição do evento, uma funcionária informou a Vorcaro que “o Andrei PF precisa de um convite formal para aceitar Londres”.
Investigação em andamento
No fim do documento, a PF afirma que as investigações envolvem duas hipóteses criminosas distintas: o suposto pagamento de vantagens indevidas a servidores do Banco Central e a atuação do grupo denominado “Turma”.
Segundo os investigadores, as duas apurações estavam em estágio avançado, mas ainda dependiam de análises bancárias e do material apreendido. A PF também ressalva que o levantamento não foi exaustivo, devido ao prazo de 72 horas dado para a análise, e que outras referências ainda poderiam ser identificadas.
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