Brasília Enteados lutam para salvar da própria mãe padrasto esfaqueado

Enteados lutam para salvar da própria mãe padrasto esfaqueado

Os irmãos decidiram tirar a vítima de casa por conta dos maus-tratos. Servidor do Bacen, ele estaria sofrendo castração química

  • Brasília | Luiz Calcagno, do R7, em Brasília

Marca de ferimento que enteados e uma ex-funcionária dizem ser uma facada no braço do servidor

Marca de ferimento que enteados e uma ex-funcionária dizem ser uma facada no braço do servidor

Acervo familiar/divulgação

Três enteados lutam para tirar o padrasto de 49 anos dos cuidados da esposa, mãe dos denunciantes. A história virou caso de polícia depois que os irmãos tiveram que pedir ajuda ao proprietário do apartamento alugado por Maruzia das Graças Brum Rodrigues, 53 anos, em Águas Claras, para saber o estado de saúde do homem. Ao tomar conhecimento das suspeitas de maus-tratos, o proprietário do imóvel chamou a Polícia Militar. Os policiais, por sua vez, ao desconfiarem que a vítima estaria sob efeitos de uma superdosagem de medicamentos, chamaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Dentre as drogas ministradas, estariam remédios de castração química. O caso é investigado pela 21ª Delegacia de Polícia (Taguatinga Sul).

O casal morava em Portugal, mas veio para o Brasil em julho, para fazer a prova de vida do aposentado junto ao Banco Central. A mulher teria aproveitado a estadia no Brasil para fazer uma cirurgia plástica. Segundo um dos enteados, essa foi a oportunidade que viram para tentar denunciar a violência contra o padrasto mais uma vez, já que não tiveram sucesso em tentativas anteriores. Os irmãos também entraram com um processo na Justiça para retirar a vítima da mesma casa da companheira. O juiz de direito Gilmar Rodrigues da Silva pediu provas que justifiquem a interdição do analista aposentado, mas ordenou que a Polícia Federal seja oficiada para recolher o passaporte do homem e impedir que ele seja levado de volta para a Europa.

“Ante o exposto, alinhado ao parecer do Ministério Público, oficie-se, com urgência, à Polícia Federal para que impeça a saída do requerido do Brasil até a conclusão da demanda. Determino, ainda, que se oficie ao Banco Central, setor de pessoal/médico para que encaminhe a este Juízo eventuais relatórios médicos que atestem a incapacidade do requerido (...) e termo de nomeação de curador constantes em seus registros funcionais”, determinou o magistrado.

Estoque de remédios encontrado pelos enteados da vítima

Estoque de remédios encontrado pelos enteados da vítima

Acervo familiar/divulgação

A visita
Os irmãos foram à residência da mãe na última quarta (8/9), aproveitando-se do fato de que a mulher estava fazendo uma cirurgia plástica. Lá, conversaram com o padrasto, que se recusou a deixar o local. Ele estava ferido no braço. O trio e uma cuidadora afirmam que a companheira teria esfaqueado o homem. O servidor do Banco Central, que se aposentou por problemas psiquiátricos, vive com a mulher há cerca de 21 anos. De acordo com os enteados, o casal começou a se relacionar pouco depois de ele ter passado no concurso para o Banco Central. À época, era uma pessoa ativa, inteligente, com uma vida social normal, mas que demonstrava ter transtorno obsessivo compulsivo (TOC), segundo relato de uma testemunha que preferiu não se identificar.

“Ele era ativo, praticava espeortes, gostava muito de academia, e era fanático por futebol. Gosta de futebol até hoje. Uma pessoa metódica. Ele foi a vítima perfeita. Não tinha família (em Brasília), recém-concursado, analista do Banco Central, aí ela fez o que sempre fez. Arrumou um filho para segurar o cara. Começou a afastar ele da família. Foram mais de 20 anos (de abusos) e demorou muito para chegar ao nível que está hoje”, relatou uma parente que pediu para não ser identificada.

De acordo com ela, a mulher teria trabalhado para que a vítima cortasse totalmente os vínculos com familiares no Rio de Janeiro. Posteriormente, teria começado a ministrar dosagens excessivas de medicamento psiquiátrico para manter o companheiro sob seu poder. Com isso, ela administraria o salário e, posteriormente, a aposentadoria da vítima, de cerca de R$ 23 mil. 

Castração química
Os irmãos que denunciaram o caso fizeram fotos e gravaram vídeos e áudios de conversas com o padrasto no momento da visita, em 8 de setembro. Em um dos áudios, falam da preocupação de uma ex-funcionárioa da casa com os maus-tratos. Na gravação, ele admite que a mulher dá remédios de castração química para ele. “Você chegou a tomar as medicações de castração química?”, uma das enteadas pergunta. “Tomo”, ele responde. Os irmãos pretendem mandá-lo para viver com a família no Rio.

Estoque de remédios encontrado pelos enteados da vítima

Estoque de remédios encontrado pelos enteados da vítima

Acervo familiar/divulgação

Segundo a familiar que conversou com a reportagem, Maruzia das Graças é uma pessoa envolvente e ambiciosa, que veria no companheiro a chance de ter uma pensão para o resto da vida. Ele teria pago várias viagens da mulher a Portugal enquanto ainda trabalhava, antes de o casal se mudar para a Europa. Nessa época, a suspeita já teria controle financeiro da vida da vítima. “Ela começou a entrar em aplicativos de relacionamento e gastava o dinheiro dele com os homens que ela saía. Gastava o dinheiro dele. Eu via ela falando. Ela não estava satisfeita. Ela queria viver de forma mais chique”, disse.

“Ela alugou uma quitinete na 402 Sul para ele ir ao trabalho, e ela se mantendo em Portugal em Euros e mandando mesada semanal para ele. Chegou ao ponto de telefonarem do banco para minha irmã, porque ele estava pedindo R$ 10 para comer. As pessoas achavam que ele era louco. Hoje, estão vendo que ele tem problemas psiquiátricos, mas é inteligente, e estava realmente passando fome”, contou.

Facada
Em um termo de declaração registrado na 5ª Delegacia de Polícia (área central de Brasília), de 26 de agosto, uma ex-cuidadora da vítima contou ter presenciado agressões da mulher contra o companheiro. Em uma delas, o casal visitava uma das enteadas e ele se recusou a ir embora e, por isso, ela teria apertado o pescoço dele e o obrigado a entrar no carro. Relatou, também, que a suposta agressora xingaria a vítima sistematicamente, além de restringir a alimentação dele e colocá-lo de castigo.

Teria, inclusive, presenciado o homem comer escondido da mulher. No fim do depoimento, a ex-cuidadora relatou que, em 19 de agosto último, chegou ao trabalho e viu respingos de sangue no banheiro. Depois, na hora da refeição, por meio de mímica, o homem contou à funcionária que teria sido esfaqueado no braço, mas não teria tido coragem de verbalizar o ato sofrido.

A ex-funcionária disse, ainda, que o homem era obrigado a tomar banho apenas com sabão, e que teria feito uma “lista de desejos”, onde pedia cortador de unha, caneta de quatro cores e, até, uma consulta oftalmológica. Além da facada, a depoente disse à polícia que já se deparou com outros hematomas no corpo da vítima, que teria sofrido tapas, beliscões e outras agressões. A reportagem não conseguiu contato com Maruzia.

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