Entre o sonho e a realidade: por que a COP30 terminou com mais frustrações do que conquistas
Documento final excluiu compromisso global de abandonar petróleo, carvão e gás, enquanto o Brasil tremeu na imagem de liderança climática
Brasília|Giovana Cardoso, do R7, em Brasília e Ana Isabel Mansur e Lis Cappi, enviadas especiais a Belém
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A COP30, Cúpula Climática da ONU, em Belém, acabou com um resultado que colocou o Brasil no centro de um debate global: o texto aprovado pelos países não inclui o compromisso para iniciar a saída do petróleo, do gás e do carvão, apesar de essa ter sido a principal bandeira defendida pelo país durante as duas semanas de negociações.
A exclusão expôs atritos diplomáticos, expectativas frustradas de ambientalistas e, sobretudo, a contradição entre o discurso brasileiro de liderança climática e a decisão interna de ampliar a exploração petroleira na Foz do Amazonas.
📝A transição energética consiste na troca gradual dos combustíveis fósseis — como petróleo e carvão — por fontes renováveis, ou seja, mais limpas e sustentáveis, como as hidrelétricas. A mudança ainda é lenta, principalmente devido à dependência do Brasil de petróleo, e é um dos principais caminhos para reduzir a emissão de gases responsáveis pelo aquecimento global.
Desde o começo da conferência, o Brasil se apresentou como articulador de um grande pacto internacional para abandonar gradualmente os combustíveis fósseis.
O termo Mapa do Caminho virou símbolo dessa ambição, e o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva dedicou seu discurso de abertura ao tema, afirmando que a humanidade precisa de um planejamento coordenado para ultrapassar a fase do petróleo.
No entanto, a iniciativa enfrentou resistência intensa liderada pelo bloco árabe, especialmente pela Arábia Saudita, que recusou qualquer compromisso internacional com a redução ou eliminação dos combustíveis fósseis. Sem consenso, o trecho caiu da redação final.
Mesmo com a derrota, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, buscou manter o otimismo em seu pronunciamento de encerramento. Reconheceu que o tema não entrou no documento, mas anunciou que o trabalho continuará sob a presidência brasileira até a COP31.
“É meu dever reconhecer algumas discussões muito importantes que aconteceram aqui e que precisam continuar durante a presidência brasileira até a próxima COP, mesmo se não forem repetidas nesse texto que a gente acabou de aprovar.”
Corrêa do Lago lembrou a promessa feita por Lula na abertura do encontro e decidiu criar dois roteiros independentes, paralelos ao texto oficial: um com diretrizes para reverter o desmatamento e outro com orientações para transicionar fora dos combustíveis fósseis “de uma forma justa e igualitária”.
A reação política e científica à ausência do compromisso com os combustíveis fósseis foi imediata. Países altamente vulneráveis aos impactos climáticos, especialmente pequenas ilhas ameaçadas pelo aumento do nível do mar, classificaram o desfecho como um retrocesso.
Um grupo de 30 nações chegou a enviar carta oficial alertando que a COP30 correria risco de fracasso caso a iniciativa brasileira fosse abandonada. Cientistas e ambientalistas falaram em “traição à ciência”, destacando que limitar o aquecimento global a 1,5°C é incompatível com a expansão da indústria fóssil.
Transição energética
A crítica pública ganhou ainda mais força porque o Brasil, durante toda a conferência, argumentou que a transição energética depende do abandono gradual desses combustíveis — e, ao mesmo tempo, autorizou internamente a abertura de novas áreas para exploração, inclusive na Margem Equatorial.
Essa contradição foi citada repetidamente por organizações ambientais ao longo dos dias. A coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, afirmou que o país não conseguirá exercer liderança climática global ampliando a exploração de petróleo.
“O olhar hoje tem que ser é pela descarbonização. Então, se o Brasil quer atuar como um líder climático e está tentando fazer isso no âmbito da COP30, por coerência, ele deveria começar a ter um programa de redução e não de expansão da produção petroleira”, disse.
O gerente de projetos do Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente), David Tsai, reforçou que a ciência é categórica sobre a necessidade de bloquear novas fronteiras de petróleo.
“Está indo na contramão de uma ciência que concluiu que a gente precisa abrir mão dos combustíveis fósseis. A gente não pode abrir mais nenhuma reserva de exploração de combustível fóssil, de acordo com Agência Internacional de Energia”, apontou.
Exploração do petróleo na Amazônia
A discussão sobre a Foz do Amazonas dominou parte das conversas paralelas na conferência. A região é tratada dentro do governo como possível “novo pré-sal”, e a Petrobras argumenta que, sem a exploração, o país tende a voltar a depender de petróleo importado num horizonte de dez anos.
Mas para ambientalistas e negociadores estrangeiros, o custo climático dessa escolha é incompatível com o papel de liderança que o Brasil pretende exercer na transição energética.
Diante do impasse, o fechamento da COP30 deixou uma sensação dupla: de um lado, avanços pontuais no financiamento climático e no reconhecimento de indígenas e afrodescendentes como atores essenciais na adaptação ambiental; de outro, a derrota da iniciativa central que o país levou à conferência.
A presidência brasileira da COP agora tem a missão de manter vivo o debate até a apresentação dos roteiros climáticos anunciados por Corrêa do Lago, prevista até abril, e, principalmente, até a COP31, que será realizada em conjunto pela Turquia e Austrália.
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