Governança da IA defendida por Lula enfrenta desafio prático no Brasil, avaliam especialistas
Na Índia, presidente defende a soberania digital, mas analistas pontuam desafios de infraestrutura, investimento e implementação
Brasília|Luiza Marinho*, do R7, em Brasília
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

A disputa global pelo controle da IA (inteligência artificial) ganhou um novo capítulo nesta última quinta-feira (19) com o discurso do presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) na Cúpula de Impacto de Inteligência Artificial, na Índia.
Em meio ao avanço acelerado da tecnologia e à rivalidade entre Estados Unidos e China, Lula defendeu uma governança multilateral para a IA e associou o tema à soberania digital e à proteção de direitos dos usuários.
Para ele, o debate não se resume à inovação tecnológica, mas à distribuição de poder e aos impactos econômicos e democráticos da nova ferramenta.
“Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação. A regulamentação das big techs está ligada ao imperativo de salvaguardar os direitos humanos na esfera digital, promover a integridade da informação e proteger as indústrias criativas de nossos países”, afirmou.
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Lula também citou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial como estratégia para impulsionar o desenvolvimento econômico e modernizar o Estado.
Nesta sexta-feira (20), o governo promove o evento paralelo “IA para o bem de todos”, com a participação de ministros das áreas de Ciência, Tecnologia e Informação; Gestão e Inovação; Educação; Saúde; e Comunicações, para detalhar as perspectivas brasileiras para o setor.
Especialistas ouvidos pelo R7 afirmam que o posicionamento tem relevância política e simbólica, mas alertam que o protagonismo internacional dependerá da capacidade de o Brasil transformar discurso em política pública consistente, investimento em infraestrutura e adoção estratégica da IA no país.
Disputa por espaço
Para Rodrigo Espínola, CEO e pesquisador em tecnologia e dados, o discurso posiciona o Brasil em uma arena decisiva.
“O tema da inteligência artificial hoje é dominado por dois polos (EUA e China) e a maioria dos países está sendo espectadora. Quando o Brasil se posiciona por uma governança multilateral, está essencialmente disputando um assento numa mesa onde as regras do jogo estão sendo escritas agora. Isso tem peso”, avalia.
No entanto, ele afirma que a credibilidade internacional se constrói principalmente com demonstração de capacidade interna.
“Países que falam de governança global de IA, mas não conseguem governar a própria adoção, perdem relevância rápido. O que vai determinar se o Brasil entra ou fica no corredor é a capacidade de transformar intenção em execução.”
Em seu discurso na Índia, Lula ponderou sobre os efeitos positivos da tecnologia, principalmente na produtividade industrial, nos serviços públicos, na medicina e na segurança alimentar. “Conteúdos falsos manipulados por inteligência artificial distorcem processos eleitorais e põem em risco a democracia”, alertou.
Neste ponto, Espínola aponta um descompasso entre a ambição política e a realidade das empresas brasileiras. “A maioria das organizações está implementando IA de forma fragmentada, sem repensar processos e sem preparar as pessoas. Soberania digital não se constrói só com política pública, mas quando o tecido produtivo incorpora IA com estratégia”, analisa.
Desafios na prática
Para Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e ex-diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal, o impacto internacional do discurso tende a ser mais simbólico do que prático.
“Para o Sul Global, essa postura pode soar como uma liderança necessária, mas, para as potências que detêm os semicondutores e os modelos de fronteira, o Brasil corre o risco de ser visto como um país que quer regular o que não produz e governar o que não controla”, acredita.
Coimbra salienta que a soberania digital é impossível sem o controle da camada física da tecnologia.
Segundo o especialista, em uma base técnica sólida e um mercado de capitais que sustente o crescimento de startups nacionais frente à predação das gigantes globais, o Brasil continuará sendo um “grande regulador de tecnologias alheias”.
“Isso exigiria uma política industrial agressiva para atrair fábricas de componentes e garantir que o custo da energia para processamento de dados não inviabilize a inovação local. O discurso de Lula na Índia, embora louvável do ponto de vista ético, ignora que, em 2026, a Inteligência Artificial não é apenas uma ferramenta de serviço, mas a nova fronteira da corrida armamentista e econômica global”, finaliza.
*Estagiária do R7, sob supervisão de Letícia de Souza, editora de texto.
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