Infância offline: especialistas discutem movimento global para tirar crianças das redes sociais
Brasil segue tendência mundial ao propor limites à exposição de menores a conteúdos nocivos na internet
Brasília|Bruna Pauxis, do R7, em Brasília
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7
A restrição ao uso de redes sociais por menores de 16 anos tem ganhado força globalmente. Após a Austrália adotar a proibição em dezembro de 2025, a Espanha anunciou, na última terça-feira (3), planos para implementá-la. No mesmo sentido, Portugal manifestou interesse na iniciativa por meio de um projeto de lei apresentado ao parlamento há uma semana.
O movimento segue o adotado pelo Legislativo francês, que, também na semana passada, aprovou um texto limitando o acesso a maiores de 15 anos. Países como a Dinamarca, Grécia e Espanha, por sua vez, demonstraram interesse em expandir essa proibição a toda a União Europeia.
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No Brasil, o debate também ganha corpo. Entre 2024 e 2025, diversas normas sobre a presença digital de crianças e adolescentes foram sancionadas, elevando o tema à pauta pública.
Um episódio recente ilustra a complexidade do cenário: após a plataforma de jogos Roblox implementar um mecanismo de verificação de idade, crianças organizaram protestos em “praças públicas digitais”.
Para o doutor em educação e literacia científica Diogo Bacellar Sousa, o país acompanha uma tendência internacional de proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.
Entretanto, ele ressalta que é preciso atenção à aplicação das medidas no cenário brasileiro. Segundo Sousa, regras excessivamente rígidas ou punitivas podem se tornar inaplicáveis, resultando em judicialização e desigualdade de acesso.
“A realidade brasileira é diversa. Desigualdade social, lacunas na orientação familiar e escolar, e adolescentes com níveis distintos de maturidade digital tornam o simples bloqueio de acesso uma medida insuficiente ou até injusta”, avalia.
“O desafio, portanto, é criar uma legislação equilibrada e educativa, que responsabilize plataformas, eduque famílias e estudantes, e proteja os adolescentes sem transformar a lei em um instrumento de punição excessiva ou de controle absoluto. O Brasil pode aprender com Austrália e França, mas precisa ajustar as soluções à sua realidade social, educativa e tecnológica”, completa.

Educação dentro e fora de casa
Na visão do especialista, proibir o acesso de adolescentes às redes sociais não é uma medida trivial, e rotular a iniciativa apenas como “censura” simplifica excessivamente um debate profundo.
“De certa forma, qualquer restrição fere a liberdade de expressão, porque limita o acesso a espaços digitais onde adolescentes se informam e se comunicam. Por outro lado, essa limitação é justificável quando é proporcional, educativa e voltada à proteção integral, considerando os riscos reais do ambiente digital e a vulnerabilidade dos jovens”, analisa.
O doutor em educação ressalta que os avanços legislativos não anulam o papel dos pais, mas reconhecem que muitas famílias carecem de condições para monitorar e orientar os filhos no vasto ambiente digital.
“No Brasil, a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente oferecem à família a responsabilidade pela educação e proteção das crianças, mas também deixam claro que o Estado deve agir quando o ambiente apresenta riscos que os pais, sozinhos, não conseguem controlar”, ressalta.
Infância online e reflexos neurológicos
A psicóloga Andrezza Alves explica que a relação de crianças e adolescentes com as redes sociais difere radicalmente da estabelecida por adultos. Isso ocorre porque o sistema de recompensa cerebral, movido pela dopamina, é significativamente mais sensível nos primeiros anos de vida.
“A dopamina está relacionada à sensação de prazer, motivação e expectativa de recompensa, e responde de forma mais intensa a estímulos imediatos e imprevisíveis, como acontece nas redes sociais. Ao mesmo tempo, as áreas do cérebro responsáveis pelo controle de impulsos, pela avaliação de riscos e pela capacidade de interromper um comportamento ainda estão em desenvolvimento”, pontua Alves.
Dessa forma, ao serem expostas a padrões de beleza irreais ou comportamentos adultizados, as crianças tendem a antecipar preocupações que não condizem com sua fase de desenvolvimento.
“O resultado é uma adultização precoce, que pode aumentar ansiedade, insatisfação corporal e dificuldades emocionais, encurtando etapas importantes do desenvolvimento”, alerta a psicóloga.
Reaprendendo a brincar
Andrezza Alves salienta que ajudar uma criança a “reencontrar prazer em atividades analógicas” após a hiperestimulação digital é um desafio, sendo esperado um estresse inicial durante essa transição.
“Após um período de hiperestimulação digital, a criança pode demonstrar desinteresse ou irritação diante de atividades analógicas. Esse comportamento indica um processo de adaptação do cérebro”, esclarece.
Para mitigar esses efeitos, ela sugere o incentivo a atividades que envolvam movimento, criatividade e interação social. “Com rotina previsível, presença afetiva e incentivo gradual, a criança volta a experimentar prazer em atividades mais simples, fortalecendo a atenção, a imaginação e o vínculo com o ambiente real”, conclui.
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