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Juristas veem possível conflito de interesses em offshore de Guedes

Especialistas ouvidos pelo R7 afirmam que o ministro da Economia terá de comprovar que movimentações são lícitas

Brasília|Alexandre de Paula e Lucas Nanini, do R7, em Brasília

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Ministro manteve movimentações em offshore em paraíso fiscal mesmo depois de assumir o cargo
Ministro manteve movimentações em offshore em paraíso fiscal mesmo depois de assumir o cargo

Especialistas ouvidos pelo R7 afirmam que existe um possível conflito de interesses no caso que envolve o ministro da Economia, Paulo Guedes, e a manutenção de uma offshore em um paraíso fiscal nas Ilhas Virgens Britânicas. Os juristas dizem que Guedes deve comprovar que as movimentações feitas por ele após assumir o cargo no governo são lícitas.

O especialista em direito constitucional Acacio Miranda afirma que o simples fato de a empresa estar declarada não é garantia de que os negócios estão dentro da lei.

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“Ele não apresenta as movimentações. Ele já indicou que existem, sim, movimentações na offshore, mas ele não indica quais são. E como regra, para que nós evitemos tanto uma sonegação fiscal como, no caso mais extremo, uma lavagem de dinheiro, é necessário que ele comprove tudo isso. A partir do momento em que não há comprovação, há a possibilidade do cometimento desses crimes e, consequentemente, há até, diante de todo o contexto, um conflito de interesses.”

Segundo Miranda, caso seja comprovado que há conflito de interesses, Guedes está sujeito à destituição do cargo, “uma vez que não é razoável nós pensarmos em um ministro que cometa crimes de sonegação fiscal”. Ele também poderá responder por crime de responsabilidade, como prevê a lei.

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O especialista diz que o caso do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, é diferente, apesar da identificação de offshores. “No caso dele, está declarado no Imposto de Renda, e ele comprova que a offshore não teve movimentação nenhuma. Então não há conflito de interesses”, diz Miranda.

PL do Imposto de Renda

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Outro aspecto que pode caracterizar conflito de interesses é o fato que, no comando do Ministério da Economia, Guedes defendeu em julho retirar do PL do Imposto de Renda a regra que tributaria recursos em paraísos fiscais. A proposta encaminhada por ele ao Congresso propondo isenção de impostos sobre os rendimentos de empresas no exterior o beneficia diretamente. Ele também teria atuado para ampliar o limite de depósitos no exterior que não precisam ser declarados.

O advogado e cientista político Nauê de Azevedo classifica as informações sobre a offshore de Guedes em paraíso fiscal como graves. Ele avalia que as revelações podem prejudicar a aprovação da reforma tributária, uma vez que se abrem precedentes para questionar decisões do ministro.

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“É muito grave ter uma situação de um possível conflito de interesses do ministro da Economia. Sem querer dizer se ele teve ou não benefício, a própria sombra de legitimidade que recai numa situação dessas pode prejudicar qualquer reforma nesse sentido”, explica o jurista, sócio do escritório Pinheiro de Azevedo.

Ele acredita também que a suspeita contra Guedes possa impactar a economia brasileira como um todo. “É aquele ditado: ‘À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta’. Fica uma situação complicada. Aumenta a questão do risco político brasileiro. Reduzindo a confiabilidade dos fiadores, você traz riscos que acabam sendo desnecessários”, explica.

Investigação

A "Pandora Papers", investigação sobre offshores abertas em paraísos fiscais, como as Ilhas Virgens Britânicas, no Caribe, aponta que o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, possuem empresas e mantiveram seus negócios nesses locais mesmo depois de fazerem parte do governo federal, em 2019.

Guedes e Campos Neto disseram que os empreendimentos estão declarados na Receita Federal e negam irregularidades. A apuração teve a participação de 615 jornalistas de 149 veículos em 117 países. Entre as empresas envolvidas na apuração estão o jornal The Washington Post, a rede britânica BBC, a Radio France, o jornal alemão Die Zeit e a TV japonesa NHK.

A Pandora Papers mostra que Campos Neto respeitou as normas vigentes ao não fazer investimentos depois de assumir o cargo no Banco Central. Guedes mantém a empresa aberta e não respondeu se fez alguma movimentação ou a natureza de uma possível operação do tipo.

A lei permite que brasileiros mantenham empresas offshore, contanto que elas sejam declaradas à Receita Federal e ao Banco Central. Guedes e Campos Neto atuaram de forma decisiva para modificar as regras para os donos de offshore em julho de 2020. Entre as medidas, houve a elevação no limite de depósito de valores no exterior que precisa ser declarado.

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