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Reajuste do Bolsa Família protege a renda, mas vira ativo político, dizem analistas

Governo anuncia aumento de 15,04% no benefício a 17 dias do primeiro turno; novo valor começa a ser pago já em outubro

Brasília|Mariana Saraiva, do R7, em Brasília

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O governo federal anunciou um reajuste de 15,04% no Bolsa Família, elevando o benefício mínimo para R$ 691.
  • O novo valor será pago a partir de 19 de outubro, entre o primeiro e o segundo turno das eleições.
  • O anúncio do reajuste próximo às eleições levanta debates sobre possíveis intenções eleitorais.
  • O cientista político Gabriel Amaral destaca a complexidade de separar os efeitos administrativos e políticos da medida.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Presidente Lula faz anúncio de reajuste no Bolsa Família Ricardo Stuckert/Campanha - 17.09.26

O reajuste de 15,04% do Bolsa Família, anunciado pelo governo federal a poucos dias do primeiro turno da eleição, terá o primeiro pagamento em 19 de outubro, antes de uma eventual segunda rodada presidencial.

Para especialistas, a proximidade com a votação não permite afirmar que a medida tenha sido desenhada com finalidade eleitoral, mas cria um efeito político que será difícil de dissociar da campanha.

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“Uma medida pode ser tecnicamente justificável e, ao mesmo tempo, produzir efeitos políticos”, afirma o cientista político Gabriel Amaral. Na avaliação de André César, também cientista político, o problema está menos na necessidade da recomposição e mais no momento escolhido para anunciá-la.

“É socialmente justo você compor [o benefício]. O problema é o momento e o quadro eleitoral. O fato do anúncio já mexe com o ambiente”, afirma César.

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O governo anunciou na quinta-feira (17) que o benefício mínimo passará de R$ 600 para R$ 691.

Segundo o Executivo, a correção recompõe a inflação acumulada pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) entre março de 2023 e agosto de 2026 e busca preservar o poder de compra das famílias beneficiárias. O decreto entra em vigor na data da publicação, mas os efeitos financeiros começam em outubro.

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O calendário faz com que o reajuste tenha dois momentos durante a campanha. Antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, o governo poderá comunicar a correção e a expectativa pelo aumento. Já a partir de 19 de outubro, os beneficiários começam a receber o novo valor, poucos dias antes de um eventual segundo turno da eleição presidencial, previsto para 25 de outubro.

Para Gabriel Amaral, a justificativa administrativa para o reajuste e seus efeitos políticos podem coexistir. Segundo ele, existe uma razão objetiva para a correção, já que o benefício não era atualizado pela inflação desde 2023.

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“É possível separar as duas coisas do ponto de vista analítico, mas é difícil ignorar que elas acontecem simultaneamente. Existe uma justificativa objetiva para a recomposição: o governo está corrigindo em 15,04% a inflação acumulada desde 2023, depois de mais de três anos sem reajuste. Isso preserva o poder de compra do benefício. Mas uma medida pode ser tecnicamente justificável e, ao mesmo tempo, produzir efeitos políticos”, afirma.

O especialista ressalta que não há elementos para afirmar que o calendário tenha sido definido com finalidade eleitoral.

Efeito político

O deputado federal Zé Trovão (PL-SC) chegou a recorrer à Justiça Eleitoral para tentar suspender o reajuste. O pedido foi analisado pelo ministro André Mendonça, do TSE, que rejeitou a ação sem entrar no mérito, por entender que o parlamentar não tinha legitimidade para apresentar o pedido naquela circunstância.

Em decisão divulgada nesta sexta-feira (18), o ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), afirmou que o reajuste de 15,04% no Bolsa Família é legal e não viola as leis eleitorais.

Para Amaral, independentemente da intenção original, o reajuste se transforma em um ativo de comunicação durante a campanha. “O governo tem agora uma política concreta para comunicar: pode falar em recomposição da inflação, preservação do poder de compra e proteção das famílias de menor renda. A oposição, por sua vez, tende a explorar exatamente o calendário do anúncio”, diz.

O benefício médio deverá passar de R$ 675 para R$ 777. O impacto adicional estimado pelo governo é de R$ 5,8 bilhões em 2026 e de cerca de R$ 22 bilhões em 2027.

Paralelo com 2022

O episódio também remete às medidas adotadas em 2022, durante o governo Jair Bolsonaro. Naquele ano, a Emenda Constitucional 123 autorizou um acréscimo extraordinário de R$ 200 no Auxílio Brasil, elevando o benefício para R$ 600 entre agosto e dezembro. A mesma emenda estabeleceu outras medidas de transferência de renda e benefícios em meio ao período eleitoral.

Para André César, há um padrão recorrente de governos utilizarem políticas públicas com impacto direto na renda durante períodos eleitorais. “Isso é natural. São as armas que os governos têm. A questão é: o que é legal e o que é moral? Pode ser legal, mas pode não ser moral. Isso é comum nos governos, seja de esquerda, de centro ou de direita”, afirma.

O cientista político ressalta, porém, que o contexto de 2022 e o atual possuem diferenças. Naquele ano, o aumento foi extraordinário e esteve inserido em um pacote de medidas autorizado pela Emenda Constitucional 123. Agora, o governo apresenta o reajuste como recomposição inflacionária de um programa já existente.

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