Daniela Arbex: desativação do Hospital Colônia não encerra luta antimanicomial
Cenário dos abusos do ‘Holocausto Brasileiro’ teve últimos pacientes transferidos; ‘A gente precisa ficar em alerta permanente’, afirma autora
Cidades|Do R7, com RECORD NEWS
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Os últimos pacientes do Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, foram transferidos nesta segunda-feira (25). Mas este capítulo da luta antimanicomial no Brasil ainda não está encerrado, afirma a jornalista Daniela Arbex, que abordou o tema no livro Holocausto Brasileiro, de 2013. Em entrevista ao Link News, ela fala em avanços, mas destaca que ainda há muito a se compreender no país sobre o tratamento de pessoas com transtornos mentais.
“A gente precisa ficar em alerta permanente”, diz. “Houve avanços importantíssimos e fundamentais, uma conscientização muito importante, que sustenta um novo olhar para essa causa, mas há também visões muito contrárias a isso ainda, negacionistas, retrógradas, racistas, misóginas, que defendem a volta de um modelo em que essas pessoas sejam mantidas longe do convite social.”
Mais de uma década após as denúncias feitas pela jornalista, o Conselho Federal de Psicologia ainda identifica práticas abusivas contra pacientes das chamadas comunidades terapêuticas, instituições que oferecem acolhimento residencial para pessoas com dependência química. Como voz do movimento pela reforma psiquiátrica, Daniela defende a Rede de Atenção Psicossocial, que nos últimos anos vem substituindo o modelo hospitalar.
No entanto, ela pontua como os cortes de verbas da RAPS, composta por residências terapêuticas e pelos Caps (Centros de Atendimento Psicossocial), prejudicam a oferta de um tratamento digno, em detrimento de comunidades privadas de atendimento. “A gente tem visto um desmonte da rede de atenção psicossocial e a gente precisa ficar alerta, porque é exatamente isso que sustenta o discurso da necessidade de voltar a esse modelo”, afirma.
O interesse da escritora pelo tema surgiu do contato com fotografias de Luiz Alfredo, feitas no hospital em Barbacena. “Eu tive acesso a essas fotos 50 anos depois que elas foram tiradas. Eu fiquei muito impactada com essas imagens, porque em nenhuma delas eu consegui enxergar um hospital. Todas essas imagens me remetiam a um campo de concentração.” Daí nasceu o desejo de encontrar sobreviventes e contar a história deles na obra. Eram pessoas que nunca haviam sido sequer procuradas, diz Daniela, que, durante a investigação, encontrou 160 pacientes no hospital psiquiátrico.
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“Da mesma forma que os judeus foram encaminhados para os campos de concentração, esses candidatos a serem mandados para o Colônia também foram levados para lá em vagões de carga. Eles eram desumanizados, tinham a sua dignidade confiscada, os cabelos raspados, recebiam uniforme quando tinham roupa para vestir. E eles passavam por violências institucionais diárias”, conta.
O manicômio historicamente abrigou pessoas marginalizadas pela sociedade, consideradas “indesejadas” — entre elas, crianças com deficiência, gestantes solteiras e homens e mulheres em situação de rua. Mais de 60 mil morreram no local desde a sua fundação, em 1903. Os últimos 14 pacientes que deixaram o hospital têm mais de 70 anos. Eles chegaram ainda jovens e se tornaram vítimas de abusos e violência física. Hoje, eles dependem de cuidados médicos.
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