“Não tenho mais medo da morte”, diz pai de vítima de tragédia em Santa Maria
Para Léo Becker, jovens da cidade envelheceram dez anos após incêndio em boate
Cidades|Ana Ignacio, do R7

Um mês após o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), Léo Becker, pai de uma das vítimas, diz que não foi só o clima da cidade que mudou. O luto realmente tomou conta da população e é muito difícil encontrar gente pelas ruas que não conhecesse alguém que estava na festa na madrugada do dia 27. Mas não foi só isso.
— Os jovens estão diferentes. Todo mudo levou um chacoalhão. Os jovens de 20 anos viraram de 30. Isso fez todos repensarem tudo na vida.
Veja a cobertura completa da tragédia
Maioria das vítimas era de estudantes. Veja o perfil
Léo é pai de Erika Sarturi Becker, 22 anos. A jovem estudava agronomia e era a única filha de Léo e sua mulher. Após o incêndio, ele conta que também reprogramou parte da sua vida.
— Quando você tem um filho, tudo é em cima dele. Investimentos, programa de vida. Agora, uma das coisas que perdeu o valor é acumular e ganhar dinheiro. Estou mais voltado para o lado espiritual. Além disso, tinha um temor da morte... Hoje não tenho mais medo da morte.
Polícia de Santa Maria irá concluir investigação sobre incêndio na boate Kiss até o fim de semana
Um mês após tragédia de Santa Maria, familiares realizam homenagens às vítimas do incêndio
Ele tem trabalhado normalmente como consultor de vendas e está envolvido na AVTSM (Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria).
—Muitos amigos me consolaram no trabalho e essa atividade [na associação] está me ajudando bastante.
Um mês de tragédia
A tragédia vai completar um mês nesta quarta-feira (27). O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, a 290 km de Porto Alegre, aconteceu na madrugada do dia 27 de janeiro e deixou 239 mortos e mais de cem feridos. O fogo teria começado quando a banda Gurizada Fandangueira se apresentava. Segundo testemunhas, durante o show foi utilizado um sinalizador — uma espécie de fogo de artifício chamado "sputnik" — que, ao ser lançado, atingiu a espuma do isolamento acústico, no teto da boate. As chamas se alastraram em poucos minutos.
A casa noturna estava superlotada na noite da tragédia, segundo o Corpo de Bombeiros. O incêndio provocou pânico e muitos não conseguiram acessar a única saída da boate. Os proprietários do estabelecimento não tinham autorização dos bombeiros para organizar um show pirotécnico na casa noturna. O alvará da casa estava vencido desde agosto de 2012.
Polícia faz busca na casa dos músicos da banda Gurizada Fandangueira no RS
Dono de boate passa primeira noite em penitenciária e pede transferência
Esta é considerada a segunda maior tragédia do País depois do incêndio do Grande Circo Americano, em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro. Em 17 de dezembro de 1961, o circo pegou fogo durante uma apresentação e deixou 503 mortos.















