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40 anos do Plano Cruzado: lições esquecidas ou superadas no combate à inflação

Anunciada em fevereiro de 1986, a iniciativa prometia algo quase inimaginável à época: zerar a inflação por decreto

Economia|Victória Olímpio, do R7, em Brasília

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Quarenta anos após o lançamento do Plano Cruzado, o Brasil ainda lida com suas consequências na economia.
  • O plano, que prometia zerar a inflação, resultou em desabastecimento e fechamento de mercados devido ao congelamento de preços.
  • A confiança da população no governo diminuiu com a ineficácia do plano, dificultando futuros esforços de estabilização econômica.
  • Hoje, especialistas comparam a situação passada com desafios fiscais atuais que podem afetar a estabilidade econômica.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Cédulas emitidas pelo Banco Central do Brasil Divulgação/Arquivo/Banco Central e Luce Costa/Arte R7

Quarenta anos após o pacote econômico lançado no governo de José Sarney, o Brasil ainda carrega as marcas de uma das experiências mais radicais de combate à inflação da sua história. O Plano Cruzado, anunciado em fevereiro de 1986, prometia algo quase inimaginável à época: zerar a inflação por decreto.

Com medidas opostas, como congelamento de preços e a criação de uma nova moeda, o plano transformou o cotidiano dos brasileiros, mobilizou a sociedade e entrou para a memória coletiva como símbolo de esperança e frustração.


Para José Luiz Pagnussat, professor de economia desde 1985 e membro do Conselho Federal de Economia, o Plano Cruzado foi o maior congelamento de preços da história brasileira e sem igual nas experiências internacionais. Segundo o especialista, os preços foram congelados nos níveis praticados no dia 28 de fevereiro, com a publicação no Diário Oficial da União pelo governo Sarney.

“A população se mobilizou com o Diário Oficial na mão para fiscalizar os mercados e ‘declarar’ fechados os mercados que ousassem praticar algum preço acima do tabelado. Os consumidores se denominavam ‘fiscais do Sarney’. A inflação caiu a zero, mas começaram a faltar produtos, com a maioria dos mercados com muitas prateleiras vazias”, relembrou.


Plano Cruzado tinha o objetivo de conter a hiperinflação acima de 200% ao ano Luce Costa/Arte R7

Entusiasmo e desabastecimento

Rosilene Vieira, assessora jurídica, conta que na época do lançamento do plano tinha 40 anos e que ficou na dúvida sobre como seriam as mudanças. Depois do anúncio do governo sobre o congelamento dos preços, as mudanças pareceram positivas, já que os preços continuavam os mesmos.

“A gente fazia compra do mês, e tudo continuava o mesmo preço. Era uma maravilha, todo mundo estava gostando. Mas chegou um ponto em que não tinha nada nas prateleiras.”


Segundo ela, comerciantes passaram a retirar determinados produtos das prateleiras para evitar prejuízos, diante da dificuldade de reposição e importação. Com o congelamento de preços, os estoques diminuíram, os supermercados ficaram desabastecidos, e muitos estabelecimentos acabaram fechando as portas por não conseguirem se manter sem reajustes.

Com as mudanças, um mercado paralelo se formou para ofertar alguns dos produtos que estavam em falta. Um exemplo foi a carne, que só aparecia nos açougues se o consumidor oferecesse um preço maior. O Plano Cruzado adotou o diagnóstico da “inflação inercial”, ou seja, a inflação passada se reproduzindo no presente.


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Reforma e nova moeda

No entanto, o Plano Cruzado não foi apenas congelamento de preços. Também houve a reforma monetária com o corte de três zeros e troca de moeda de Cruzeiros (CR$) para Cruzado (CZ$) sendo CZ$ 1,00 igual a CR$ 1.000.

Houve ainda uma política salarial que se preocupou em recuperar parte das perdas salariais dos pacotes econômicos do ministro Delfin Neto, na primeira metade da década de 1980.

Reforma monetária teve o corte de três zeros e troca de moeda de Cruzeiros para Cruzado Divulgação/Arquivo/Banco Central

O plano trouxe um congelamento dos salários pela média de seis meses, mais um abono de 8%, que representava um aumento real no poder de compra dos trabalhadores.

Também foi incluído o mecanismo do “gatilho salarial”, com o reajuste automático dos salários caso a inflação voltasse. O gatilho salarial seria disparado quando a inflação atingisse 20%.

A iniciativa passou da euforia ao descrédito alguns dias depois das eleições, quando o governo iniciou a correção de alguns preços para não agravar mais ainda o desabastecimento.

Um dos reajustes foi da cerveja, que no verão tem demanda aquecida, e os preços tendem naturalmente a ser maiores, além do reajuste de outros produtos.

“Fiscais do Sarney”

A jornalista Angela Schiller Cesarino, de 70 anos, relembra que atuou como “fiscal do Sarney”, denominação atribuída aos cidadãos que, durante o governo de José Sarney, acompanhavam os preços nos supermercados para denunciar aumentos considerados irregulares.

“Nos primeiros meses, a sensação foi ótima. Imagina sair de uma inflação de 200% ao ano. No começo, a maioria das pessoas fiscalizava os preços nos supermercados.”

Cédulas mudaram de Cruzeiros para Cruzados

Apesar da estabilidade inicial, a jornalista afirma que preferiu não se arriscar com compras grandes.

“A sensação de estabilidade é muito boa, mas, particularmente, não fiz nenhum financiamento ou compras de alto valor parceladas. Depois de um tempo, os produtos começaram a sumir, e foi dando tudo errado. A ideia era boa, mas não podia dar certo congelando os preços indefinidamente.”

Mudança de estratégia

Com a frustração popular diante do fracasso das medidas, a credibilidade do governo na condução da economia ficou abalada. A desconfiança comprometeu novas tentativas de estabilização e marcou o debate econômico nos anos seguintes.

A confiança só seria gradualmente reconstruída anos depois, com a implementação do Plano Real, que conseguiu controlar a inflação e restabelecer a previsibilidade na economia brasileira.

Segundo César Bergo, economista, sociólogo e conselheiro do Conselho de Economia da DF, é possível comparar a situação com os dias de hoje pela rigidez fiscal com crescimento automático de despesas obrigatórias.

“A gente observa isso hoje também, mas, em 1986, o Brasil vivia uma crise de regime monetário, e hoje temos uma crise potencial de sustentabilidade fiscal de médio prazo. Então, não está resolvida a questão fiscal”, aponta.

Segundo o especialista, dentro do atual regime monetário, marcado pela autonomia do Banco Central, pelo controle relativo da inflação e pelo monitoramento dos indicadores macroeconômicos, o principal desafio já não está na âncora monetária.

A preocupação, afirma, se concentra na preservação da âncora fiscal, para evitar que desequilíbrios nas contas públicas contaminem o ambiente monetário e comprometam a estabilidade econômica.

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