Economia Alta no preço das passagens aéreas faz procura por ônibus crescer 15%

Alta no preço das passagens aéreas faz procura por ônibus crescer 15%

Paulistanos que antes usavam transporte aéreo nas férias, este ano vão de rodoviário. Empresas apostam em novos serviços para fidelizar

Fluxo de pessoas subiu  principalmente em destinos que eram feitos pela Avianca

Fluxo de pessoas subiu principalmente em destinos que eram feitos pela Avianca

Mônica Bento/26.6.10/ Estadão Conteúdo


Christiane Lima Almeida, 33 anos, e seus filhos, João Vitor Tavares, 7 anos, e Enzo Tavares, 4 anos, vão a Uberaba (MG) passar as férias na casa da avó paterna, Eunice, pela primeira vez de ônibus. O motivo? A passagem aérea para o destino estava custando R$ 650 por pessoa, enquanto o banco leito do ônibus saiu por R$ 140 para cada um.

Christiane viajará de ônibus

Christiane viajará de ônibus

Patrícia Teixeira/arquivo pessoal

“Sempre fomos de avião por ser mais rápido e mais tranquilo. Às vezes, quando meu marido vai junto, também vamos de carro, mas não quis me arriscar a fazer uma viagem tão longa dirigindo sozinha com duas crianças. Além disso, minha sogra sempre vem nos visitar de ônibus e disse que o trajeto é bem tranquilo. ”

A família viajará à noite por não ter parada e ser o horário de as crianças dormirem. "Assim elas dormem a viagem toda e não ficam ansiosas", comenta. Ao todo são 8 horas de estrada.

Outra família que fez as contas e decidiu encarar as rodovias para viajar nas férias foi a da funcionária pública Elcimara da Silva, 42 anos. Ela, o filho Gustavo, de 8 anos, uma tia, duas irmãs e duas sobrinhas vão para Aparecida do Taboado (MS) visitar os pais e outra irmã de ônibus.

Elcimara diz que não tem aeroporto na cidade e que iria precisar descer em um município próximo e pegar um ônibus para continuar a viagem, o que encareceria ainda mais o passeio. Além disso, os voos para o destino saem de Viracopos (Campinas), o que não facilitaria muito a logística.

Ao todo, ela conta que cada um gastaria R$ 1.000 somente de ida. “Consegui uma passagem promocional de ônibus e paguei apenas R$ 120 por pessoa. Não sei se teremos a mesma sorte na volta, mas a média de preço da passagem para lá é de R$ 180”, comenta.

Ela e a família estão preparadas para encarar quase 9 horas de viagem. Vão levar cobertor, descanso de pescoço e lanchinhos.

As famílias de Christiane e de Elcimara não são um caso isolado. A alta nos preços das passagens aéreas, geradas pela crise na Avianca, fez o preço das passagens aéreas subir até 140%, e vem refletindo no aumento do fluxo de pessoas nas rodoviárias.

Entre janeiro e junho, houve uma elevação de 12% a 15% no volume de passageiros de ônibus, na comparação com igual período no ano passado, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati). A previsão é de que neste feriado – 9 de Julho – o aumento seja de 5%, por ser um feriado apenas em São Paulo.

Estefano Boiko Junior, vice-presidente do Grupo Garcia-Brasil Sul, também confirma o aumento da demanda na ordem de 10% no segundo trimestre do ano, na comparação com igual período no ano passado.

“Acredito que pode ser sim um reflexo da alta das passagens aéreas, mesmo não operando em linhas que eram atendidas pela Avianca. O que sei é que as empresas que atuam diretamente nessas linhas, sentiram um aumento considerável no volume de passageiros. ”

A viação faz viagens do interior do Paraná para São Paulo e de Campinas para Florianópolis. A Avianca parou de operar nos aeroportos do Galeão (RJ), Petrolina (PE) e Belém (PA) e cancelou 21 rotas (veja abaixo):

Aracaju-Salvador; Belém-Guarulhos; Fortaleza-Bogotá; Salvador-Bogotá; Brasília-Cuiabá; Brasília-Fortaleza; Brasília- Galeão; Brasília-Maceió; Brasília-Salvador; Florianópolis-Galeão; Fortaleza-Galeão; Guarulhos-Galeão; Galeão-Foz do Iguaçu; Galeão-João Pessoa; Galeão-Natal; Galeão-Porto Alegre; Galeão-Salvador; Maceió-Salvador; Petrolina-Recife; Petrolina-Salvador; e Recife- Salvador.

Ônibus oferecem bagagem gratuita e ‘espaço mulher’ 

Letícia Pineschi, conselheira da Abrati, acredita que esse crescimento de passageiros no transporte rodoviário veio para ficar. “As empresas estão fazendo de tudo para fidelizar o cliente e inovando bastante nos serviços de bordo”, diz.

Entre os serviços ofertados nos ônibus, estão: wifi, poltronas maiores com inclinação de 180 graus e mais espaço entre os bancos, cortinas para separar passageiros, monitor individual e espaço mulher (na hora da compra da passagem, a mulher pode escolher sentar na região destinada exclusivamente ao público feminino. Assim, terá uma mulher como companheira de viagem).

Outra vantagem que vem sendo sentida pelos passageiros: “Enquanto no transporte aéreo começaram o cobrar pela bagagem, no rodoviário, é possível levar uma mala de até 30 kg gratuitamente”, acrescenta Letícia.

Na Viação Garcia, Boiko Junior afirma que também são distribuídos travesseiros e mantas “no padrão de uma rede de hotéis cinco estrelas” e oferecido serviço de streaming que pode ser acessado pelo celular, além de espaço pet para o passageiro levar seu animal. “Claro que há regras para isso, mas é possível viajar com seu animal dentro do ônibus ”, conta.

Apesar de não divulgar números, o Grupo JCA, das Viações Cometa, 1001 e Catarinense, afirma que houve um ligeiro aumento na operação, mas "não pode atrelar os seus resultados ao momento vivido pelo transporte aéreo". A empresa atribui o crescimento à melhora na qualidade dos serviços prestados.

Entre eles, o serviço de embarque direto, no qual o cliente pode ir diretamente para a plataforma de embarque, sem passar no guichê, e a ligação entre os modais, que permite que os clientes cheguem a seus destinos finais de forma mais prática. Atualmente, existem linhas com destino ou origem dos aeroportos do Galeão (RJ), Guarulhos (SP), Congonhas (SP) e Afonso Pena (PR).

O aposentado Carlos Alberto Soares do Nascimento, 69 anos, usa o transporte rodoviários sempre que viaja do Rio de Janeiro para visitar o seu filho, Alexandre, em São Paulo.

“Escolho vir de ônibus pelo preço. Agora, mais do que nunca, pela bagagem gratuita também, além do fácil acesso que tenho ao metrô, já que os aeroportos de São Paulo ainda não passam por nenhuma linha. ”