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Cartão de crédito de Paraisópolis tem, em média, dois mil clientes

Clientes do cartão recebem descontos em compras no comércio local, o que motiva compras dentro da comunidade

Economia|Giuliana Saringer, do R7

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Gisele é uma das clientes do cartão Nova Paraisópolis
Gisele é uma das clientes do cartão Nova Paraisópolis

“Minha comunidade está ganhando o mundo”. Foi isto o que a publicitária Gisele Ferreira de Souza pensou ao usar o cartão de crédito de Paraisópolis pela primeira vez em um grande shopping de São Paulo (SP). Gisele tem o cartão há três anos e, meses depois de conseguir o crédito, fez uma compra em uma loja de calçados no estabelecimento. A publicitária faz parte das cerca de duas mil pessoas que usam ativamente o cartão Nova Paraisópolis, administrado pela Mais Fácil.

Com sorriso no rosto, Gisele conta que assim que tirou o cartão da carteira para pagar por um tênis, o vendedor da loja perguntou de onde era e, ao informar “Paraisópolis”, outros funcionários se reuniram para ver o cartão. Para ela, a compra foi uma quebra de paradigma.


“Um cartão de crédito com o nome da comunidade que eu moro, que eu nasci, passar em uma loja grande de um shopping grande, foi muito gratificante para mim”, afirma.

A gerente de sustentabilidade da Mais Fácil, Julia Drezza, afirma que a ideia surgiu de uma necessidade da empresa de gerar impacto social. A partir de discussões internas e pesquisas, decidiram implementar o cartão em Paraisópolis principalmente devido ao orgulho que os moradores sentem do local.


“Paraisópolis trouxe números altíssimos e bem importantes [sobre orgulho] para nossa tomada de decisão"

(Julia Drezza)

A promotora e assistente da Mais Fácil Ester dos Santos Coutinho faz a ponte entre a empresa e os clientes — para encontrá-la basta ir até a União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis. Segundo Ester, a maioria dos clientes a procura para emissão de boletos e renegociação de dívidas. 

Embora existam canais de atendimento remotos disponíveis, a maioria prefere resolver os problemas pessoalmente com Ester, “desde os mais idosos, aposentados e adolescentes”. 


Descontos no comércio local

O vendedor da Ótica Popular Rogério Alves dos Santos afirma que nunca tinha visto um cartão de comunidade antes. “Quando [o cliente] faz um óculos completo com a gente e apresenta esse cartão, a gente consegue um desconto”, explica.

Lojistas dão descontos para clientes do cartão
Lojistas dão descontos para clientes do cartão

A prática é comum em lojas da comunidade. Segundo Julia, há cerca de 30 comércios parceiros, que dão descontos extras aos consumidores que pagam com o cartão. Na drogaria Dubom, por exemplo, é possível economizar até 95% em produtos.


O gerente da drogaria, José Pereira, diz que cerca de 30% dos clientes usam o cartão e que há vantagens extras para estas pessoas. “Existe o desconto padrão [para todos]. Quando vem com esse cartão a gente dá um desconto maior, de 5%”, explica Pereira.

Ambos lojistas afirmam que cartão é a forma de pagamento preferida dos moradores de Paraisópolis, principalmente o crédito, seguido do débito. O pagamento em dinheiro é mais raro.

Gisele diz que os descontos são essenciais para os moradores e sempre aproveita as oportunidades para economizar.

Uma pesquisa da Outdoor Social aponta que o potencial de consumo de Paraisópolis é de R$ 705 milhões para 2019

O levantamento levou em consideração o cruzamento de informações sobre hábitos de consumo da Pesquisa de Orçamento Familiar, realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), com dados de endividamento das famílias da Serasa Experian e do Banco Central.

A pesquisa revela o potencial de consumo nas categorias alimentação no domicílio, artigos de limpeza, calçados, eletrodomésticos e equipamentos, medicamentos, higiene e cuidados pessoais, material de construção, matrículas e mensalidades e vestuário confeccionados.

Como funciona

Gisele disse acreditar que não conseguiria o cartão, já que tinha uma restrição no nome. Para sua surpresa, conseguiu o crédito e logo começou a usar dentro de Paraisópolis. “Eu tinha conta no banco, mas não conseguia [um cartão de crédito] de jeito nenhum. Quando veio o cartão, que eles conseguiram para mim, eu fiquei muito feliz”, disse Gisele.

Julia explica que o processo de obtenção do cartão passa por uma análise de crédito, assim como em bancos tradicionais. O consumidor baixa o aplicativo, por enquanto disponível apenas para Android, ou acessa o site, e faz a solicitação. 

Após a aprovação, o plástico é enviado pelos Correios para a casa do consumidor — um dos motivos para a escolha de Paraisópolis foi justamente o acesso às entregas na comunidade. O cliente paga taxa de manutenção nos meses que utilizar o cartão. Também é possível escolher a data de vencimento que prefere, dentro do calendário que varia de cinco em cinco dias.

O cartão é aceito em todos os estabelecimentos que possuem maquininhas da Cielo, Rede, Bin, Sipag, PagSeguro, Stone, Vero e Global Payments.

Educação financeira

Para Julia, o maior desafio da implementação do cartão de crédito foi conseguir a confiança da população e desmistificar a ideia de que a modalidade é “o demônio da sociedade”. “[O cartão] pode até trazer muitos malefícios para uma família se mal utilizado, mas se bem utilizado pode ser muito bacana”, afirma. Segundo Julia, as faturas dos clientes mostram que a maior parte das compras é feita em mercados, geralmente dentro da comunidade.

“Se a gente olha socialmente, este é um dado que pode até ser um pouco preocupante, que é uma família comprando comida no crédito, que é uma questão muito básica. A gente sabe que isso demanda um pouco de atenção. Mas se bem utilizado, esse produto pode trazer acesso a bens e serviços o mês todo, como por exemplo uma alimentação adequada para a família”, afirma Julia.

Para evitar que os consumidores tenham problemas e não consigam pagar a fatura do cartão, a empresa faz um trabalho de educação. Na última sexta-feira (20), foi ministrada uma oficina de educação financeira na União dos Moradores e Comércio de Paraisópolis. Segundo Julia, há um “diálogo próximo com o cliente, onde a educação financeira vem para gente mitigar esse tipo de impacto e até risco [de ficar inadimplente]”.

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