Cônsul da Finlândia defende investimento público em tecnologia
País nórdico aplica 3,5% do PIB em pesquisa e desenvolvimento
Economia|Fernando Mellis, do R7

O Brasil "entende" que o investimento em tecnologia é fundamental para o crescimento, mas "não aplica" essa solução. A opinão é do cônsul-geral honorário da Finlândia em São Paulo, Jan Jarne.
Em entrevista exclusiva ao R7, o diplomata defendeu maiores investimentos públicos em pesquisa e desenvolvimento, aliado a gastos em educação, como saída para o crescimento sustentável.
A Finlândia é um dos países que mais investe em pesquisa e criação de tecnologia, aplicando cerca de 3,5% de todas as suas riquezas — no Brasil esse índice não chega a 1%, segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
Não à toa a Finlândia é uma das nações com os melhores índices de desenvolvimento humano do planeta, com educação e saúde de ponta e alta expectativa de vida.
Jarne participa nesta quarta-feira (18) do fórum Scale-up, na Universidade de São Paulo, que debate o crescimento de startups brasileiras. Em novembro, uma delegação do Brasil vai participar do Slush, maior evento do mundo de startups, em Helsinque, capital finlandesa.
Leia a seguir a íntegra da entrevista:
R7 — Como Brasil e Finlândia podem se ajudar no ponto de vista das startups?
Jan Jarne — O brasileiro é muito empreendedor e isso é uma coisa extraordinária sobre este país. Os finlandeses têm, por outro lado, muito investimento e esforço dedicados à inovação. Eu acho que essa é uma boa combinação. As parcerias sempre podem ser criadas.
O mundo da inovação e startups dentro de um mundo globalizado leva à internacionalização das pessoas e das empresas. Tudo se envolve em torno de um ecossistema que já é universal e, por isso, eu acho que o empreendedor brasileiro e um par dele finlandês, ao se encontrarem, certamente podem ser criativos e desenvolver oportunidades.
A Finlândia investe cerca de 3,5% do PIB em pesquisa e desenvolvimento. Esse é o segredo para ser um país do futuro, investir em pesquisa, desenvolvimento e em educação?
Sim. É um binômio, educação e P&D [pesquisa e desenvolvimento]. A Finlândia é um país pequeno, com uma população envelhecendo rapidamente. Quando eu digo que é um país pequeno é porque tem um mercado [interno] pequeno. Então, tem que ser muito competitivo para continuar existindo, vamos dizer assim, no mundo. Isso só é possível investindo, de um lado em capital humano, que aí entra a educação, e o capital efetivo em tecnologia, combinando as duas coisas.
Estamos em um momento no Brasil em que parte da sociedade defende cada vez mais o Estado mínimo. A Finlândia tem um papel estatal muito forte, inclusive com uma estatal de pesquisa e desenvolvimento. Qual seria o modelo ideal para desenvolver tecnologia no Brasil?
Primeiro, o Estado tem que reconhecer que isso [tecnologia] é essencial para o crescimento sustentável. O Brasil entende, mas não aplica. A VTT [estatal finlandesa focada em pesquisa e crianção] é uma entidade governamental onde você combina a iniciativa privada com laboratórios, com incentivo voltado à pesquisa e desenvolvimento, com recursos que fluem nesse mesmo sentido.
Há uma convergência, portanto, entre o Estado, que entende estrategicamente a importância de ser competitivo, ter produtividade. Na Finlândia, não se fala da indústria [de tecnologia]. Lá, toda a indústria é indústria de tecnologia, isso é um estado mental. Isso ainda não aconteceu aqui e não é culpa do Brasil. É que o Brasil é muito grande, leva mais tempo.
Cada vez mais eu leio, eu ouço discurso dos governos falando da importância de investir em inovação. A questão é como canalizar as energias e os esforços de tal sorte que os outros players, que são os centros de P&D, o mundo acadêmico, as corporações e os empreendedores se reúnam.
Não é que não exista no Brasil um fomentador. A questão é como reunir tudo isso e dizer: a minha prioridade é educação e inovação.
O Brasil tem hoje uma economia ainda baseada na agricultura, com boa parte do PIB vindo desse setor. É possível ser um país tecnologicamente avançado conciliando esse setor tão importante?
A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), que é uma empresa do governo, é um exemplo mundial de eficiência e políticas voltadas à agricultura, à melhoria da produtividade agrícola. Hoje, percebe-se que há muitas startups e até grandes corporações multinacionais estabelecidas aqui que já estão investindo nessas startups do agronegócio, as ‘agrotechs’. O Brasil eu acho que já está na frente.
O Brasil já é competitivo na produção. Com a introdução de tecnologia, vai ter ganhos maiores ainda. Uma vez que você cria um ecossistema voltado à tecnologia na agricultura, esse mesmo conceito vai se multiplicar para outras áreas.















