Economia Dólar salta mais de 2% e fecha a quarta-feira próximo dos R$ 5,60

Dólar salta mais de 2% e fecha a quarta-feira próximo dos R$ 5,60

Quarta alta consecutiva levou a moeda norte-americana a R$ 5,59, maior patamar de fechamento desde 26 de agosto

Reuters
Dólar marcou R$ 5,595 na máxima da sessão

Dólar marcou R$ 5,595 na máxima da sessão

Rick Wilking/Reuters

O dólar disparou nesta quarta-feira (23), não apenas rompendo a resistência técnica de R$ 5,50 como passando a flertar com R$ 5,60, em um dia de fortalecimento generalizado do dólar em meio a temores sobre a economia global.

Na sessão, a moeda norte-americana saltou 2,18%, a R$ 5,5876 na venda, quarta alta consecutiva e maior patamar de fechamento desde 26 de agosto (R$ 5,6124). Na máxima, a cotação bateu R$ 5,595, alta de 2,32%.

O movimento no câmbio doméstico teve como pano de fundo preocupações com o cenário para o fluxo cambial, a despeito de números positivos das contas externas, e recorrentes receios sobre a trajetória fiscal do país — ambos num contexto de juro não atrativo.

O Banco Central não interveio no mercado com venda de dólares. A última vez que o BC atuou de maneira mais incisiva no câmbio foi na segunda quinzena de agosto, quando o dólar oscilava perto dos atuais patamares.

"O que tenho dificuldade de entender é a torcida do Banco Central para o câmbio se estabilizar ao invés de subir uma barreira em algum preço, uma vez que ele já está contaminando a inflação e isso pode tirar o carro dos trilhos", comentou Luiz Fernando Alves, sócio do Fundo Versa.

A quarta-feira foi marcada por ampla aversão a risco no mundo, depois de dados nos EUA e na Europa denunciarem desaceleração expressiva no crescimento da atividade empresarial, que vem num momento em que o salto em casos de Covid-19 em algumas importantes economias e a percepção de escassez de opções de ajuda por parte de bancos centrais nublam o cenário para a economia global.

O índice do dólar frente a uma cesta de moedas saltava 0,4% no fim da tarde, batendo máximas em dois meses, com ampla liquidação de divisas emergentes. O real teve o segundo pior desempenho mundial nesta sessão, com a lista de perdas encabeçada por peso mexicano, que sofria um tombo de 3%.

A onda de risco no exterior afeta o câmbio doméstico num momento de fragilidade no campo fiscal, e o cenário para o próximo trimestre deverá seguir sendo de alta volatilidade, avalia o Barclays, que vê o câmbio com desempenho inferior a seus pares até dezembro.

Mesmo depois de alguma trégua no começo de 2021, analistas do banco projetam que o real voltará a sofrer com as incertezas locais. "Esperamos que o otimismo do mercado então se esvaia até o fim do ano (de 2021), à medida que a agenda política se tornar mais influenciada pelas eleições de 2022 (no Brasil) e preocupações com sustentabilidade da dívida, limite de gastos, etc provavelmente ressurjam", disseram os analistas.

Alguns profissionais do mercado destacam ainda que o câmbio será pressionado até o fim deste ano também por compras de bilhões de dólares por parte de bancos para ajustes relacionados ao "overhedge", que passou a ser tributado pelo governo.

A disparada do dólar nesta sessão ocorreu a despeito de dados melhores das contas externas. O Brasil registrou superávit em transações correntes pelo quinto mês seguido em agosto, levando o déficit em 12 meses ao menor patamar desde junho de 2018.

Números melhores nas contas externas em tese significam fundamentos mais robustos e menor pressão do lado de oferta de moeda, mas o câmbio contratado segue exibindo fortes saídas de recursos, especialmente na conta financeira --por onde passam fluxos para portfólio, empréstimos, remessas, entre outros.

Apenas na semana passada, o país perdeu na conta financeira 2,880 bilhões de dólares, elevando o déficit em setembro para 3,066 bilhões de dólares. No ano, o rombo chega a impressionantes 50,714 bilhões de dólares.

"Uma performance melhor do real depende bastante da diminuição de saídas pelo segmento financeiro", disse Sergio Goldenstein, consultor independente e estrategista na Omninvest Independent Insights e ex-chefe do Departamento de Operações de Mercado Aberto do Banco Central.

Outros mercados brasileiros sentiram o baque da fuga de risco. As taxas de juros de longo prazo negociadas na B3 tiveram um rali de mais de 10 pontos-base, e o principal índice das ações brasileiras caiu 1,5%, indo abaixo de 96 mil pontos, segundo dados preliminares.

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