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ENFOQUE-Produtores dos EUA afastam guerra comercial e visam lucrar com crise suína da China

Economia|Do R7

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Por Tom Polansek e Nigel Hunt

WALCOTT, Iowa/LONDRES (Reuters) - Este pode parecer um momento pouco provável para que agricultores dos Estados Unidos se voltem à China para mais negócios, mas o impacto devastador da peste suína africana sobre a indústria de suínos chinesa está se sobrepondo às preocupações a respeito das disputas comerciais e tarifas.

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Especialistas estimam que a doença vá afetar cerca de um terço da produção de suínos da China neste ano, ou 18 milhões de toneladas, o que representa duas vezes a quantidade de carne suína exportada mundialmente a cada ano, além de ser o suficiente para alimentar os consumidores dos EUA por quase dois anos.

A guerra comercial norte-americana com a China inicialmente forçou os exportadores de suínos dos EUA a vasculhar o mundo por novos mercados, mas à medida que a crise da peste suína se aprofunda, eles se preparam para novas oportunidades de fornecer ao mercado chinês ainda neste ano e no próximo.

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A grande questão para os criadores de porcos norte-americanos está no fato de que, se quiserem se aproveitar do avanço na demanda chinesa pelo produto, não podem alimentar seus animais com a substância usada para crescimento ractopamina, amplamente adotada nos EUA, mas proibida na China.

Nos últimos anos, a União Europeia forneceu quase dois terços das importações de suínos pela China, com os maiores vendedores sendo Alemanha, Espanha, Holanda e Dinamarca, segundo dados alfandegários chineses.

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A demanda potencial é tão grande, entretanto, que a UE sozinha não pode supri-la. Assim, os produtores norte-americanos de porcos livres de ractopamina podem se beneficiar, seja fornecendo à China, seja compensando déficits em outras regiões que miram no mercado chinês.

O criador de porcos Mike Paustian, do Estado norte-americano de Iowa, certamente se beneficiaria por produzir porcos livres de ractopamina, ainda que o produto ajude os animais a criar músculos rapidamente em vez de gordura.

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Paustian afirmou que seu comprador na Tyson Foods, maior processadora de carnes dos EUA, considerava pagar um prêmio pelo porco livre de ractopamina, que também é banido na União Europeia, e que isso poderia levar alguns produtores a pararem de utilizá-la.

"Isso pode ser sedutor o suficiente", disse Pastian em sua fazenda em Walcott, Iowa, que vende cerca de 28 mil porcos por ano.

Citando razões competitivas, a Tyson recusou-se a comentar se paga mais a produtores que criam porcos sem o aditivo alimentar ou se estava oferecendo prêmios. A empresa disse à Reuters que busca diversificar seu fornecimento de suínos para incluir criações livres de ractopamina à medida que a demanda se expande.

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"UM SALVA-VIDAS"

A Smithfield Foods, rival na produção de suínos nos EUA e pertencente ao chinês WH Group, já cria sem a droga todos os porcos em suas fazendas e em estabelecimentos contratados.

Operadores e analistas disseram que a Smithfield está reconfigurando suas operações de processamento nos EUA para direcionar carne à China, que produzia metade da carne suína mundial antes da peste africana dizimar a indústria.

Diana Souder, porta-voz da Smithfield, se recusou a comentar sobre mudanças específicas, mas disse que a empresa atualizou uma fábrica em Smithfield, Virgínia, como "parte de uma ampla iniciativa para melhor organizar nossa produção e corresponder à demanda por carne".

"Não apenas a Smithfield, mas todas as processadoras de suínos dos EUA embarcarão mais produtos à China, com expectativas de que a demanda seja forte, certamente em 2020", disse o CEO da Smithfield, Ken Sullivan, em telefonema com analistas.

A guerra comercial em andamento entre Pequim e Washington afetou as exportações de suínos dos EUA à China no ano passado, quanto a fatia de mercado recuou para 7%, ante 14% no ano anterior, segundo dados alfandegários do país asiático.

Conforme a peste suína africana se espalhava pela China durante o segundo semestre de 2018, porém, as expectativas por uma aceleração na demanda voltaram a crescer --ainda que as taxas sobre os suínos norte-americanos exportados à China tenham sido elevadas de 12% para 62% no ano passado, como parte das sanções comerciais retaliatórias.

De acordo com dados da Federação Norte-Americana de Exportação de Carne, os embarques de suínos dos EUA para China e Hong Kong cresceram 33% em maio ante um ano antes, para 45.442 toneladas --embora as exportações para os primeiros cinco meses do ano acumulem baixa de 7% em relação a 2018.

David Williams, chefe de abastecimento estratégico e controle de riscos em commodities da empresa norte-americana CTI Foods, afirmou que os produtores de porcos dos EUA já se beneficiaram indiretamente da peste suína, uma vez que o surto da doença na Ásia levou os preços dos suínos, em geral, a subirem.

Os avanços nos preços eram extremamente necessários, pois muitos produtores norte-americanos haviam expandido produção para fornecimento a uma série de novas unidades processadoras nos EUA, justamente no momento em que disputas dos EUA com México e China atingiram os volumes de comércio.

"Eles receberam um bote salva-vidas", disse Williams, acrescentando que a crescente demanda na China pode ser um bônus.

"Eles precisarão buscar esses suínos em algum lugar", disse Williams, que já comandou vendas de exportação e operações de futuros para a unidade de carnes da Cargill. "Os EUA vão se beneficiar, assim como Brasil e Europa."

Ele afirmou que as exportações mensais de suínos dos EUA para a China podem triplicar até o final de 2019, considerando que os dois países cheguem a um acordo comercial.

(Reportagem adicional de Michael Hogan em Hamburgo, Ana Mano em São Paulo, Jacob Gronholt-Pedersen em Copenhague, Rod Nickel em Calgary e Dominique Patton em Pequim)

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