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Entenda como o comércio do alho colocou Brasil e Argentina em pé de guerra

Produtores brasileiros acusam vizinhos de concorrência desleal e criticam brechas que facilitam importações abaixo do preço de custo

Economia|Débora Sobreira, do R7, em Brasília*

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A disputa entre Brasil e Argentina no mercado de alho está gerando preocupação entre produtores brasileiros devido à concorrência desleal.
  • A Anapa denuncia um aumento significativo nas importações de alho argentino, que passou de 700 mil caixas para 10 milhões em 2024.
  • Práticas de dumping e subfaturamento estão sendo investigadas, com pedido para que o governo brasileiro tome medidas de defesa comercial.
  • Produtores brasileiros podem se sentir pressionados a migrar para outras culturas devido à concorrência, mas há sugestões de incentivos de crédito para manter a produção de alho no país.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Importações de alho da Argentina saltaram de 700 mil para 10 milhões de caixas em 2024 Fotográfo/Agência Brasil

Uma disputa antiga e discreta leva a rivalidade Brasil versus Argentina para fora dos campos de futebol e atinge o mercado de abastecimento: a venda do alho. O setor, que movimenta cerca de R$ 6 bilhões por ano no país, vive uma transformação que coloca os produtores nacionais sob forte pressão comercial.

A Anapa (Associação Nacional de Produtores de Alho) alerta para o aumento excessivo da mercadoria vinda do país vizinho e denuncia condições de “concorrência distorcida” no mercado interno.


Efeito Mercosul

A disputa com o país vizinho não é nova. Em 2008, produtores nacionais já alertavam para o descompasso comercial trazido pela venda de alhos da Argentina e da China no mercado brasileiro.

Em nota, a Anapa afirma acreditar que o cenário foi fortemente influenciado pela consolidação do Mercosul, em 1991, o que fortaleceu a venda da variação estrangeira no país.


Uma remessa argentina que, até então, era de 700 mil caixas por ano, saltou para 10 milhões em 2024. O panorama seguiu em alta em 2025, com quase 9 milhões de caixas importadas.

Rafael Corsino, presidente da Anapa, observa com cautela a possível escalada de estratégias consideradas desleais. “Em 36 anos de Mercosul, em apenas 6 anos o preço FOB [”Livre a Bordo”] declarado nas exportações argentinas ficou acima do custo estimado de produção em seu próprio país, o que reforça a preocupação com práticas como subfaturamento e concorrência desleal”, explica.


Risco de competição desigual

Dentre as principais preocupações está a prática de dumping, manobra em que produtos são exportados por um preço inferior ao seu custo de produção ou abaixo do valor padrão do mercado interno, o que gera uma concorrência desleal.

Dados levantados pela ANAPA apontam que, em sete dos últimos 10 anos, o alho argentino entrou no Brasil com valor inferior ao custo de produção no país de origem.


Caso comprovada a prática, Rafael Corsino defende a abertura de uma investigação de defesa comercial pelo governo brasileiro, ação que ficaria a cargo da Secex (Secretaria de Comércio Exterior).

O consultor e economista João Gabriel Araujo conta que o maior volume de remessas é uma consequência esperada dos acordos do Mercosul, mas que traz impacto direto na produção de alho no Brasil.

“Esses produtores não vão desaparecer, mas os que tiverem a possibilidade de migrar para outros produtos com maior vantagem comparativa podem fazê-lo. A tendência é que esses produtores migrem para outras áreas, como a soja, o milho e o café”, analisa.

O especialista acrescenta que medidas como o fomento ao crédito via bancos públicos ou privados podem equilibrar a competitividade para quem permanece no setor. “Isso vai incentivar a produção interna nacional. Vai ficar mais barato produzir esses bens com crédito mais acessível em comparação à soja, ao milho, entre outros”, observa.

Embates na Justiça

A base legal que rege o setor é a Resolução Gecex nº 797, que homologa compromissos de preços e consolida as diretrizes de fiscalização aduaneira. Ao final de 2025, no entanto, decisões de desembargadores federais ignoraram a medida e favoreceram a venda do alho chinês a preços reduzidos.

Em setembro do ano passado, o desembargador Nery Júnior, da 3ª Turma do TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região), isentou as empresas Temperalho Trading, Comércio, Importação e Exportação Eireli e Global Foods Importação e Exportação Ltda do pagamento da sobretaxa antidumping de US$ 0,78 por quilo de alho fresco chinês, estendendo o benefício a importações futuras.

Já em novembro, o magistrado Roberto Carvalho Veloso, do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região), também suspendeu a exigência do imposto para a Importadora Leobrasil Eireli ME.

As medidas desconsideram a portaria de 2025, que prevê a prorrogação do direito antidumping em definitivo por até cinco anos sobre o produto importado da China. Em contrapartida, as decisões mantêm a aplicação de uma portaria de 2019, já revogada e substituída pelo novo regulamento.

Na prática, a adoção de tais posturas permite a venda do alho chinês a preços inferiores ao custo de produção nacional, impactando a competitividade interna e abrindo precedentes para que o mesmo ocorra com importações de outros países.

Evolução produtiva

A popularização do alho argentino em terras brasileiras vem a partir do próprio modelo de plantio: nos anos 90, a maior parte da produção na Argentina era da variedade Colorado, considerada nobre e de sabor intenso, semelhante ao alho roxo nacional.

No final daquela década, ocorre uma mudança gradual com a introdução de materiais genéticos de origem chinesa. O novo cultivo trouxe maior produtividade e custos reduzidos.

*Estagiária do R7, sob supervisão de Leonardo Meireles.

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