‘Entrega de graça’: economistas veem prejuízo ao Brasil em plano de Flávio Bolsonaro para o etanol
Em documento enviado ao governo americano, senador defende acordo de ‘tarifa zero’ para o álcool e o açúcar
Economia|Clarissa Lemgruber, do R7, em Brasília
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O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviou ao USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) uma proposta de acordo de reciprocidade total — o chamado “zero-a-zero” — para as tarifas de importação de etanol e açúcar entre os dois países. O documento, protocolado na última quarta-feira (1º), faz parte de uma manifestação oficial em uma investigação comercial aberta por Washington.
No trecho referente ao acesso ao mercado de etanol, o parlamentar reconhece a existência de uma “assimetria tarifária” nas taxas atuais: o Brasil aplica uma tarifa de 18% sobre o etanol americano, enquanto os Estados Unidos tributam o produto brasileiro em 2,5%.
Economistas ouvidos pelo R7 avaliam que a proposta, nos termos apresentados, coloca o produtor nacional em desvantagem competitiva. O doutor em economia Hugo Garbe afirma que o desenho do acordo sugerido pode resultar em perdas para o Brasil.
“A ideia de ‘zero a zero’ não é necessariamente ruim, mas, nas condições atuais, o Brasil corre o risco de conceder mais do que receber”, afirma.
O senador justifica a proposta citando a demanda da Califórnia pelo etanol de cana brasileiro, devido ao padrão de combustível de baixo carbono daquele estado (Low Carbon Fuel Standard). Garbe, no entanto, aponta limitações técnicas nesse argumento.
“O etanol de cana brasileiro já consegue acessar esse nicho, mesmo com a tarifa federal de 2,5%. A Califórnia representa apenas uma parte do mercado americano e não define a política energética de todo o país”, explica.
Riscos ao agronegócio
Segundo ele, sem a proteção tarifária de 18%, o mercado brasileiro ficaria exposto ao etanol de milho produzido nos EUA, que conta com subsídios governamentais. O economista César Bergo pontua que a medida envolve riscos como a perda de arrecadação e o aumento da concorrência para o produtor nacional.
“Tende a favorecer mais o lado que é mais forte nesse caso, que é o mercado americano. A cadeia produtiva do etanol aqui no Brasil pode de alguma forma ser prejudicada, sobretudo se os Estados Unidos não oferecerem reciprocidade”, avalia Bergo.
Açúcar como contrapartida
A carta de Flávio Bolsonaro sugere que o acordo inclua o açúcar para emoldurar o quadro de reciprocidade. Atualmente, o mercado de açúcar nos EUA é protegido por um sistema de cotas tarifárias.
Bergo afirma que a viabilidade dessa troca é incerta e que a proposta ignora variáveis econômicas. “A não ser que o Brasil realmente adote uma postura de entregar de graça uma coisa que é tão importante para nós e me parece que não foi avaliado isso. A carta tem conotações políticas e não estão vendo os riscos econômicos envolvidos nessa proposta”, conclui o economista.
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