Economia Financiamento indexado ao IPCA é mais imprevisível ao cliente

Financiamento indexado ao IPCA é mais imprevisível ao cliente

Uma vez escolhida a correção pelo IPCA não será possível fazer portabilidade para financiamentos com outro tipo de correção, como a TR

Nova linha de crédito tem taxa de 2,95% a 4,95% ao ano

Nova linha de crédito tem taxa de 2,95% a 4,95% ao ano

Alberto Rocha/Folhapress – 22.05.2019

A Caixa Econômica Federal anunciou nesta terça-feira (20) a nova linha de crédito imobiliário que será indexada ao IPCA e não mais à Taxa Referencial (TR), utilizada nos contratos mais antigos.

O novo produto terá taxas variando de 2,95% a 4,95% ao ano. Hoje, as taxas dos contratos da Caixa indexados à TR possuem juros que variam entre 8,30% e 9,95%, como citou o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães.

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Para entender o que essa mudança significa na prática, a reportagem conversou com Marco Harbich, planejador financeiro pela Planejar, e Samir Reis, gerente de crédito da Bcredi. Na visão dos especialistas, a indexação ao IPCA traz imprevisibilidade para os clientes em relação aos custos do financiamento.

“A inflação é um índice muito volátil. Se olharmos para os números de três anos atrás, ela era muito maior. Logo, essa nova medida pode, sim, tornar o crédito imobiliário mais caro. Se essa passasse a ser a única possibilidade de financiamento disponível, a novidade não seria positiva”, comentou Harbich.

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A Caixa afirmou que, mesmo com a nova opção, manterá as linhas de crédito atuais. No entanto, o banco informou que uma vez escolhida a correção pelo IPCA não será possível fazer portabilidade em nenhuma instituição para financiamentos com outro tipo de correção, como a TR.

O presidente da Caixa afirmou que o novo produto de crédito, indexado ao IPCA, possibilitará queda de 35% no valor da prestação no caso de um financiamento com taxa mais cara (4,95%). Isso na comparação com os contratos tradicionais, ligados à TR. No caso de contratos com taxa mais barata (2,95%), a queda no valor da prestação foi estimada em 51%.

A mudança compensa para os bancos por dois motivos. O primeiro é a possibilidade de “securitizar a carteira”, processo em que o banco transforma as dívidas dos clientes em produtos financeiros e, assim, consegue ter mais garantias e dinheiro em caixa. O segundo é que, ao passar para o cliente o risco da inflação, a instituição financeira pode reduzir os juros que cobraria dos clientes.

"Essa possibilidade dos financiamentos serem barateados em razão de o banco ter risco menor ao concedê-lo pode movimentar o mercado e isso é positivo", afirma Samir Reis da Bcredi.

Na visão Marco Harbich, planejador da Planejar, o novo modelo pode ser interessante para quem tem a garantia de que terá o salário ou os ganhos corrigidos pela inflação no período de vigência do contrato. “Funionários públicos e médicos podem ser exemplos de profissionais para quem pode valor a pena”, diz.

Por outro lado, para profissionais autônomos - que podem ter redução de receita quando a economia não vai bem - podem não fazer um bom negócio ao escolher a nova modalidade.

A inflação é um índice muito volátil. Harbich observa que há apenas três anos, ela era muito maior. "Logo, essa nova medida pode, sim, tornar o crédito imobiliário mais caro. Se essa passasse a ser a única possibilidade de financiamento disponível, a novidade não seria positiva”, avalia.

Para Samir Reis, gerente de crédito da Bcredi, os novos produtos que devem ser lançados podem movimentar o mercado. Além disso, a menor exposição dos bancos ao risco de inflação tem potencial para baratear os financiamentos.

A Caixa informou que uma vez escolhida a correção pelo IPCA não será possível fazer portabilidade para financiamentos com outro tipo de correção, como a TR. Assim, buscar uma opção melhor em outros bancos só será possível se as demais instituições aderirem à indexação pelo IPCA

Os especialistas analisam que o contexto da medida da Caixa é bem diferente da dos anos 60, no entanto, não há como garantir que a inflação seguirá controlada pelos próximos 20 ou 30 anos.

“Hoje há expectativa de inflação controlada até 2022, mas não se sabe como será no próximo governo. Esse é um risco que quem escolher esse financiamento corre”, pontua Harbich.

O seguro cobra taxas, o que encarece a parcela. “Os clientes terão de fazer contas. Uma possibilidade é trocar de seguradora analisando as opções disponíveis, por exemplo. Caso o seguro esteja atrelado ao financiamento, isso é mais complicado. Para os próximos dois anos, o cenário já está mais ou menos desenhado. Assim, o cliente pode fazer alguma economia”, diz Reis.