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Hacker notório diz que criptomoedas roubadas são como ‘uma batata quente’

Especialista alerta para o papel da inteligência artificial no avanço dos crimes cibernéticos

Economia|Jon Sarlin, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Hackers norte-coreanos roubaram mais de US$ 6 bilhões da Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo.
  • Ilya Lichtenstein, hacker notório, destaca a dificuldade de lavar criptomoedas roubadas devido ao monitoramento intenso e às ferramentas avançadas de análise de blockchain.
  • A inteligência artificial está acelerando o processo de lavagem de criptomoedas, tornando o rastreamento mais desafiador para as autoridades.
  • A Binance já recuperou 90% dos fundos roubados e está trabalhando para retomar os saques.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Em 30 de outubro, em Londres, o logotipo da Binance é exibido na tela de um celular ao lado de uma imagem de uma corretora de criptomoedas em um laptop
Ex-criminoso digital alerta que avanços da IA podem ampliar ameaças ao setor Dan Kitwood/Getty Images via CNN Newsource

Na quinta-feira (29), a Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo, teve mais de US$ 6 bilhões (aproximadamente R$ 34 bilhões, na cotação atual) roubados por hackers. As evidências apontam para hackers norte-coreanos, que esvaziaram contas em questão de minutos.

Mas o que um hacker faz com bilhões de dólares em criptomoedas roubadas?

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Talvez ninguém no planeta seja mais qualificado para falar sobre o ataque do que Ilya Lichtenstein, o notório hacker que, em 2023, ao lado da esposa Heather Morgan, se declarou culpado por arquitetar um esquema de lavagem de dinheiro de US$ 4,5 bilhões ligado ao ataque à corretora Bitfinex em 2016. Em 2024, Lichtenstein foi condenado a cinco anos de prisão, mas foi libertado antecipadamente em janeiro deste ano. Agora, ele afirma que mudou de lado e trabalha como um hacker de “chapéu branco”, tentando impedir ataques cibernéticos.

A CNN conversou com Lichtenstein sobre como invadir uma corretora pode ser mais fácil do que lavar as criptomoedas roubadas e sobre como os rápidos avanços da inteligência artificial inevitavelmente levarão ao esvaziamento de carteiras digitais.

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Esta entrevista foi editada para maior clareza.

Quais são suas impressões sobre o que sabemos até agora sobre esse ataque?

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Isso se encaixa no modus operandi dos norte-coreanos. Normalmente, eles procuram o elo mais fraco. Eles não vão atacar diretamente o site Binance.com, porque há muita segurança ali. Mas pode haver um funcionário vulnerável a phishing, que seja enganado a baixar um vírus. Como defensor, você precisa se perguntar: “Qual é o elo mais fraco da corrente?”. Não basta proteger apenas a porta da frente; é preciso proteger todas as entradas, portas e janelas.

Você já esteve dos dois lados. Que conselho daria às autoridades que tentam descobrir para onde esse dinheiro foi?

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Você provavelmente já ouviu dizer que, ao investigar um homicídio, as maiores chances de sucesso estão nas primeiras 48 horas. Com criptomoedas é parecido. Neste momento, todos esses fundos estão sendo movimentados, divididos em partes cada vez menores, embaralhados e reunidos novamente. E, como agentes de IA conseguem fazer isso, tudo acontece de forma extremamente rápida. É uma corrida contra o tempo para rastrear o dinheiro antes que fique exponencialmente mais difícil segui-lo.

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Em determinado momento, você roubou o equivalente a bilhões de dólares em criptomoedas. É o que estamos vendo agora nesse ataque à Binance. O que acontece depois que alguém invade uma corretora e leva todo esse Bitcoin?

Se eu tivesse que adivinhar, eles provavelmente estão um pouco nervosos, porque há muitos olhos acompanhando esse Bitcoin. Tudo está registrado em uma blockchain pública. Qualquer pessoa pode investigar. E hoje existem ferramentas de análise de blockchain extremamente sofisticadas.

Além disso, muitas plataformas de criptomoedas, como a Tether/USD, têm a capacidade de congelar fundos. Elas não são realmente descentralizadas.

Por isso, esses hackers precisam agir muito rapidamente para esconder seus rastros. Tentam misturar e movimentar o dinheiro de diversas formas. O principal objetivo é conseguir transferir ao menos parte dos recursos antes que sejam congelados ou antes de serem identificados. Há muitos passos perigosos nesse caminho.

Então é como se eles estivessem segurando dinheiro falsificado e todos soubessem disso?

Eles estão segurando uma batata quente.

Esses hackers precisam agir cada vez mais rápido para transformar esse dinheiro em recursos legítimos ou misturá-lo a um volume tão grande de fundos que ninguém consiga distinguir o que é roubado do que é legítimo. É algo muito complicado para eles. Acho que estão em uma situação difícil.

Um ataque a criptomoedas envolve duas etapas, certo? Primeiro, invadir a corretora e retirar o dinheiro. Depois, descobrir o que fazer com ele. Qual das duas partes é mais difícil?

A parte mais difícil vem depois do ataque, porque há muita gente monitorando essas criptomoedas e é preciso lavá-las rapidamente antes de ser pego.

Você já esteve nessa situação. Como lidou com os mais de 100 mil bitcoins que roubou?

É muito difícil lavar essa quantidade de dinheiro. Sei que parece difícil de acreditar, mas eu não era extremamente motivado pelo dinheiro. Sempre me interessei mais pelo desafio técnico. Por isso, não gastei grande parte do que obtive, algo que ficou refletido nos registros judiciais. Eu não precisei sacar ou lavar uma parcela muito grande dos recursos, o que acabou facilitando minha situação.

Basicamente, registrei contas em várias corretoras de criptomoedas, algumas usando minha identidade e outras utilizando “laranjas” ou identidades falsas. Depois, dividi os valores em pequenos depósitos feitos gradualmente e os converti em outras criptomoedas. Isso é chamado de chain hopping.

O objetivo é que todas as moedas possam ser rastreadas dentro de uma mesma blockchain. Ao transferi-las para outra blockchain, você quebra esse rastro. Por exemplo, se eu tenho Ethereum e o converto para Bitcoin, cria-se um novo histórico, que pode ou não ser conectado pelos investigadores. Além disso, quando você fragmenta os recursos em várias pequenas operações, usando identidades ou corretoras diferentes, diminui a probabilidade de acionar controles contra lavagem de dinheiro.

A parte única, interessante e assustadora de tudo isso é que agora estamos na era da inteligência artificial. Todo esse processo pode ser automatizado em velocidades absurdas.

Como é ter bilhões de dólares em criptomoedas que você praticamente não pode tocar sem disparar alarmes?

Aterrorizante. É aterrorizante, e eu não recomendaria isso a ninguém.

E, de forma geral, o crime simplesmente não vale a pena. Mesmo que pareça algo empolgante, não compensa o estresse, os danos à sua vida e as consequências de longo prazo.

Quando algo é registrado em uma blockchain, fica lá para sempre. Anos depois, alguém pode voltar com tecnologias melhores, que continuam evoluindo, e rastrear essas transações. E vão encontrar você. Normalmente, é isso que acontece.

Durante muito tempo, houve especulações de que a computação quântica poderia evoluir a ponto de tornar as criptomoedas inúteis. Mas agora estamos vendo a IA avançar rapidamente. Você acredita que a inteligência artificial representa uma ameaça existencial à segurança das criptomoedas?

Com certeza. Absolutamente.

A velocidade de evolução da IA tem sido impressionante. Apenas neste último ano, as capacidades dos modelos em questões de segurança avançaram enormemente. Hoje já existem modelos de ponta da OpenAI e da Anthropic capazes de realizar atividades de invasão altamente sofisticadas. Porém, esses modelos são mantidos sob rígidos controles e proteções.

Ao mesmo tempo, existem modelos de código aberto surgindo em países como a China. Eles ainda não são tão avançados em hacking, mas provavelmente estão apenas entre três e seis meses atrás dos melhores modelos.

Daqui a poucos meses, será possível ter modelos abertos que qualquer pessoa poderá baixar e que serão melhores em invasão digital do que os melhores hackers do mundo. Isso é potencialmente muito perigoso.

Hoje, essa tecnologia talvez esteja nas mãos de hackers ligados a Estados nacionais, como os norte-coreanos. Em alguns meses, a mesma tecnologia que permite ataques como esse poderá estar nas mãos de um adolescente entediado no porão de casa.

Nota do editor: A CNN procurou a missão da Coreia do Norte na ONU para comentar as acusações de envolvimento no ataque. Pyongyang já negou alegações semelhantes no passado.

Em comunicado divulgado neste sábado (31), a Binance afirmou que já cobriu “90%” dos fundos roubados dos clientes e que está “a caminho de retomar os saques dentro do prazo informado anteriormente”.

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