Economia Horário de verão só serviria para aumentar vendas, diz especialista

Horário de verão só serviria para aumentar vendas, diz especialista

Ao contrário de quando foi adotada pela primeira vez, medida teria impacto mínimo na redução do uso de energia no país

  • Economia | Marcos Rogério Lopes ,do R7

Horário de verão deixou de existir em 2019

Horário de verão deixou de existir em 2019

O retorno do horário de verão, aventado pelo presidente Jair Bolsonaro em entrevista no início deste mês e cobrado por setores da economia que se beneficiariam com a mudança nos relógios do país é, de acordo com especialistas, uma medida que não teria mais relação com economia de energia e seria apenas uma forma de garantir aumento do consumo no final dos dias.

Bolsonaro admite que, se o povo quiser, volta o horário de verão

O economista e professor de direito ambiental Alessandro Azzoni diz que desde que foi extinto, em 2019, no primeiro ano da gestão do atual governo federal, o impacto no aumento de consumo de energia é mínimo.

"Não dá para se dizer também que não há nenhuma relevância nos gastos de energia. Podemos pensar assim, para ficar clara a situação: quando o uso de eletricidade está alto e a produção fica comprometida, entramos numa especie de cheque especial, à beira do colapso. Países que usam o horário de verão entram menos nesse cheque especial", explica Azzoni.

A informação de que a alternativa não tem eficácia para evitar déficits no abastecimento vem do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico). Em 2019, a pedido do Ministério das Minas e Energia, o órgão preparou uma nota técnica reforçando a tese do presidente Jair Bolsonaro de que a mudança nos relógios seria inútil.

O atual diretor-geral do ONS, Luiz Carlos Ciocchi, disse m entrevista no final de julho ao site Canal Energia que "a retomada do horário de verão não traz resultados [para a redução do uso de energia]", uma vez que somente desloca o período de pico do consumo.

Atendendo a um novo pedido do governo federal, no entanto, o ONS está revisando a nota técnica que levou ao cancelamento, decretado pelo presidente da República em abril de 2019. Procurado pelo R7, o órgão disse que o estudo ainda não foi divulgado e não pode antecipar detalhes de sua conclusão.

Bolsonaro disse em entrevista à Rádio ABC, de Novo Hamburgo (RS), em 2 de agosto, que se a população quiser o retorno do horário de verão, ele se compromete a colocá-lo em prática outra vez. "Se mudarem de posição, eu sigo o que quiserem, sou um democrata." 

Outras vantagens

Mesmo que não sirva como solução para a crise hídrica que o país está enfrentando, outras vantagens justificariam a readoção da determinação de se adiantar em uma hora os relógios do país durante as estações primavera e verão. 

"Alguns setores econômicos, como bares, restaurantes e shoppings, se beneficiam diretamente da medida. Como o anoitecer demora mais para ocorrer, as pessoas saem do trabalho com o dia claro e têm mais disposição para passear, fazer atividades físicas e consumir", afirma Alessandro Azzoni, que acrescenta outra vantagem inusitada à mudança.

"A claridade aumenta também a segurança. Como as pessoas podem fazer com o dia claro atividades que fariam no escuro, o número de ocorrências policiais chega a cair muito nesse período."

A Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) estima que a volta do horário de verão pode dobrar o faturamento no período da noite, momento de maior movimentação de clientes por causa do happy hour. A entidade pleiteia, em parceria com outras associações empresariais, a retomada do mecanismo principalmente após os grandes prejuízos sofridos durante a pandemia de covid-19.

Quando foi extinto, uma das alegações do governo federal foi a de que não havia mais sentido mudar o relógio já que o horário de pico de consumo havia se deslocado do início da noite para o meio da tarde.

Azzoni discorda dessa tese e diz que, na verdade, o horário da tarde se mantém como um período de baixo gasto de energia. "Nesses últimos meses, talvez, como 70% das pessoas transformaram suas casas em ambientes de trabalho, aumentou o gasto, mas mesmo assim não chega a ser o mesmo da noite, no qual não há mais a luz natural e é essencial acender as lâmpadas da residência."

O economia especializado em direito ambiental afirma que mais importante do que adotar o horário de verão pensando em amenizar crises hídricas como a de agora seria fazer um amplo programa de substituição de eletrodomésticos antigos que ainda são utilizados pela população brasileira e gastam bem mais energia do que os aparelhos mais modernos.

"As indústrias também deveriam começar a investir pesado em fontes renováveis, utilizando e estimulando a instalação de placas fotovoltaicas pelo país, por exemplo." 

Histórico

Criado com a finalidade de aproveitar o maior período de luz solar durante a época mais quente do ano, o horário de verão foi instituído no Brasil em 1931 pelo então presidente Getúlio Vargas e adotado em caráter permanente a partir de 2008.

O primeiro país a adotar o horário de verão foi a Alemanha, em 1916. Atualmente, mais de trinta países usam essa tática para aproveitar melhor a luz do sol.

No entanto, mudanças nos hábitos do consumidor e avanço da tecnologia reduziram a relevância da economia de energia ao longo dos anos. Esse foi o argumento usado pelo governo para extinguir a medida, em abril de 2019.

À época, estudo do Ministério de Minas e Energia apontou que não havia economia de energia tão relevante. Isso porque, como o calor é mais intenso no fim da manhã e início da tarde, os picos de consumo aumentam nesse horário durante o verão, o que leva as pessoas a usarem mais o ar condicionado.

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