Insegurança faz ricos trocarem investimento por moradia em Miami
Valor médio de casa passou de US$ 300 mil em 2008 para menos de US$ 150 mil já em 2011
Economia|Fernando Mellis, do R7

No começo, o apartamento que a paisagista Salete Catapani e o marido compraram em Miami era investimento e o objetivo final era alugar. O imóvel foi adquirido na planta e ficará pronto só em 2017. Mas o casal mudou de ideia e decidiu que aquele será o novo lar deles e das duas filhas, de 15 e cinco anos, assim que for entregue.
— Meu marido trabalha em uma empresa dos Estados Unidos. Miami será uma mudança mais fácil do que ir para Califórnia, por exemplo. Pesou muito na decisão a falta de segurança aqui no Brasil. [...] A minha filha de 15 anos joga polo aquático. Como ela quer se tornar uma atleta profissional, eu acho que o Brasil não dá muita valorização para o esporte hoje em dia. Esporte junto com a escola é algo que a gente não tem aqui.
Os planos de sair do País nasceram quando o casal conheceu as corretoras brasileiras Rejane de Paula e Fabiana Santamaria, proprietárias de uma imobiliária especializada nesse tipo de imóvel para brasileiros. Fabiana relata um aumento do número de pessoas que decidiram fazer o mesmo que Salete nos últimos meses.
— O que a gente tem visto muito hoje são brasileiros que estão indo para lá de mudança com a família. O que era antes o imóvel de segunda residência, de veraneio, agora passou a ser o imóvel principal da família.
Entre 2008 e 2011, com a crise nos Estados Unidos, os preços dos imóveis em Miami caíram consideravelmente — o valor médio de uma residência estava próximo a US$ 300 mil e caiu a menos de US$ 150 mil. O real forte em relação ao dólar naquele período incentivou mais ainda os brasileiros a comprarem apartamentos e casas na Flórida. Mas boa parte deles tinha como objetivo o aluguel ou a venda no futuro.
Chefe dos corretores do Miami Realty Solution Group, Folko Weltzien também percebeu uma mudança no perfil dos brasileiros que o procuram hoje.
— Houve redução de investimento para ter retorno, como era mais comum. Agora são as pessoas que estão querendo mudar para cá, brasileiros que não aguentam mais como está o Brasil e querem achar algum jeito de vir para Miami.
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Planos para o futuro
Aos 58 anos, o empresário Antônio Martins começa a pensar na aposentadoria. Comprou um apartamento de 280 m² no bairro de Aventura há um ano e meio. Ele conta que gostaria de passar mais tempo lá, mas admite que a mudança definitiva do Brasil para os Estados Unidos é algo difícil.
— Nos últimos anos, a gente veio pensando em comprar alguma coisa lá, em função até da habitualidade com que a gente ia. O que mais nos deixa tranquilos em Miami é a questão da segurança. Neste momento, eu ainda não penso em morar. Daqui a uns seis, sete anos, talvez. Assim que eu diminuir o ritmo de trabalho, talvez eu fique um pouco mais de tempo lá. Não sei se será definitivo, até porque a família está aqui e não dá para mudar de vez.
Martins avalia que dificilmente compraria um apartamento desse porte se fosse pensar em investimento no Brasil.
— Imóvel no Brasil hoje, pensando em investimento, eu não compraria. Eu acho que os preços estão em um patamar um pouco elevado. Não vou dizer que vão baixar, mas vão se acomodar por algum tempo. Então, para investimento, não vejo com bons olhos.
Passada a crise, os preços do mercado imobiliário voltaram a subir em Miami e a corretora Rejane garante que há espaço para mais valorização.
— Como a cidade está crescendo e consequentemente tem uma valorização, a pessoa compra um imóvel, vai pagando e, ao longo da obra, a gente vê uma valorização de 20% a 30%. Além disso, quando se compra na planta, o valor é mais baixo, o que aumenta esse potencial.

Burocracia
Todos os meses, cerca de cem brasileiros procuram a In Miami Properties. As sócias dizem que metade deles fecha negócio. Além da corretagem, o escritório oferece assessoria jurídica e contábil para facilitar a compra do imóvel. A principal preocupação dos brasileiros é com o processo de imigração, segundo Fabiana.
— As pessoas que vão mudar precisam fazer um planejamento de como se legalizar no país. Normalmente, você contrata um advogado de imigração. Existem diversos vistos que eles podem aplicar, desde o visto de estudante ao de investidor.
Weltzien acrescenta que, apesar da vontade, nem sempre é possível mudar de vez rapidamente. Investidores que criam empregos nos EUA conseguem se estabelecer com mais facilidade, mas isso exige aplicações superiores a US$ 1 milhão em negócios por lá.
— O processo de vir morar aqui não é tão fácil. Não é todo mundo que consegue. Não basta só comprar [um imóvel]. Muitos estão comprando, porque se eles conseguirem visto [de permanência], ótimo. Se não conseguirem, de qualquer forma vão ter o dinheiro investido em uma economia mais estável.

Por que Miami?
Miami está a oito horas de avião a partir de São Paulo e há diversas opções de voos diretos a partir de outras 11 cidades. Quando o dólar estava próximo a R$ 2, milhares de famílias decidiram conhecer a cidade, além dos parques de diversão de Orlando, também na Flórida.
Nesse cenário, a classe média, que ganhou muito poder de compra nos últimos 20 anos, encontrou nos imóveis de Miami uma barganha, comparando com propriedades similares no Brasil, por exemplo.
No bairro carioca do Leme, o preço do metro quadrado gira em torno de R$ 11.800; na Lagoa, R$ 13.400. Em São Paulo, o metro quadrado no Ibirapuera custa em média R$ 11.100, e nos Jardins, R$ 10 mil.
Em Miami, o metro quadrado sai por US$ 4.500 (R$ 14.300l), em Aventura; US$ 3.200 (R$ 10.200), em Doral e US$ 5.750 (R$ 18.300), em Brickell. Porém, quem comprou imóveis após a crise, em 2010 e 2011, conseguiu valores bem abaixo disso, principalmente se for levado em conta o fato de que há quatro anos o dólar estava cotado a R$ 1,59.
Mesmo com o mercado imobiliário mais aquecido e o dólar na casa dos R$ 3, os brasileiros que escolhem alguma propriedade no sul da Flórida admitem que a qualidade é muito melhor. Fora o bom negócio, a corretora Fabiana Santamaria resume bem o sentimento de quem quer um novo lar na terra do Tio Sam.
— A vida nas grandes cidades brasileiras ficou muito tolhida. Em Miami, essas pessoas encontram uma forma de poder usufruir da cidade, a liberdade de ir e vir sem preocupação é devolvida a elas.















