Papa Francisco faz cobrança a ricos em visita a favela do Rio
Em visita ao Brasil, primeiro papa latino da história propõe "cultura da solidariedade"
Economia|Do R7
O papa Francisco fez nesta quinta-feira (25) o primeiro manifesto social de seu pontificado, dizendo a moradores da favela de Varginha, no complexo de Manguinhos no Rio de Janeiro, que os ricos devem fazer bem mais para acabar com as vastas desigualdades entre os favorecidos e os desfavorecidos da sociedade.
O primeiro papa latino-americano da história, que vem arregimentando a Igreja em prol dos pobres e que vive de forma mais austera que seus antecessores, pediu uma "cultura de solidariedade" para substituir o "egoísmo e o individualismo" que prevalecem na sociedade moderna.
— Ninguém pode permanecer insensível às desigualdades que ainda existem no mundo. Na favela de Varginha funciona uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da polícia do Rio inaugurada em janeiro de 2013.
A visita, realizada debaixo da chuva que persiste pela maior parte de sua primeira viagem ao exterior como papa, faz parte da viagem ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude – uma reunião de jovens católicos que deve atrair mais de um milhão de fiéis para o Rio de Janeiro e cidades vizinhas.
Apesar da chuva e do tempo frio, milhares de fiéis brasileiros e estrangeiros se reuniram no Rio de Janeiro para recepcionar o papa.
Os eventos da Jornada Mundial da Juventude são um esforço do Vaticano para inspirar os católicos, num momento em que denominações evangélicas, o secularismo e escândalos financeiros e sexuais têm levado muitos a abandonar a Igreja Católica.
O Brasil tem a maior população de católicos do mundo – mais de 120 milhões de fiéis – e representa um cenário adequado para o papa abordar as desigualdades. Apesar do aumento de renda que tirou milhões de pessoas da pobreza nos últimos anos, dezenas de milhões de brasileiros ainda vivem com pouco mais do que o básico para sobreviver.
Francisco, um argentino conhecido por visitas frequentes a favelas de Buenos Aires quando cardeal, aproveitou o contato próximo com alguns moradores de Varginha. Ele pediu mais esforços para acabar com a pobreza e disse que "as autoridades devem fazer mais do que apenas reprimir o tráfico de drogas para garantir oportunidades para os que estão na base da pirâmide social."
— Cada um, na medida das próprias possibilidades e responsabilidades, saiba dar a sua contribuição para acabar com tantas injustiças sociais", disse ele, em discurso feito em português em um palco montado num campo de futebol enlameado, perto de um rio que cheirava a esgoto.
Ao fazer o discurso depois de abençoar a pequena capela da favela e de visitar uma casa numa rua recentemente limpa, o papa cobrou dos ricos e poderosos que usem suas influências para promover mudanças duradouras.
— Queria lançar um apelo a todos os que possuem mais recursos, às autoridades públicas e a todas as pessoas de boa vontade comprometidas com a justiça social: não se cansem de trabalhar por um mundo mais justo e mais solidário."
Refletindo seu estilo pessoal humilde, Francisco disse que gostaria de poder parar na casa de cada brasileiro para "pedir um copo de água fresca, beber um cafezinho, e não um copo de cachaça", o que provocou risos da multidão.
Andando em um papamóvel aberto, Francisco foi cercado por simpatizantes e se abaixou para beijar uma mulher e apertar as mãos estendidas no caminho para a favela, onde havia uma forte presença policial para a sua visita.
"Pacificação não é suficiente"
Francisco, que está no Brasil para presidir a Jornada Mundial da Juventude, aproveitou para falar aos jovens, que lideraram os protestos de junho no país para pedir melhores serviços públicos na saúde, na educação e o combate à corrupção.
Segundo o papa, os jovens possuem uma sensibilidade especial frente às injustiças, mas muitas vezes se desiludem com a corrupção, "com pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram o seu próprio benefício."
— Nunca desanimem, não percam a confiança, não deixem que se apague a esperança... Procurem ser vocês os primeiros a praticar o bem, a não se acostumarem ao mal, mas a vencê-lo."
O papa reconheceu as ações do Brasil de combate à miséria para integrar a população, mas disse que nenhum esforço de "pacificação" será duradouro numa sociedade que abandona os desfavorecidos.
— Nenhum esforço de "pacificação" será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma."
O complexo de Manguinhos, onde moram 36 mil pessoas, até pouco tempo era conhecido no Rio como "Faixa de Gaza" por seus tiroteios frequentes.
De acordo com o padre Márcio Queiroz, pároco da capela local, os tempos atuais são outros:
— Naquele tempo, eu nunca sabia quando entrava na igreja se estaria vivo quando saísse. Era como uma feira, mas em vez de vender frutas nas barracas, havia armas, crack e outras drogas.
Em uma extremidade do campo de futebol onde Francisco fez o discurso foi exibida uma enorme pintura do arcebispo Oscar Romero, de San Salvador, que frequentemente denunciava a repressão e a pobreza em suas homilias semanais e foi assassinado por um esquadrão da morte de direita em 1980.
Francisco decidiu desbloquear o processo de beatificação de Romero, o penúltimo passo antes da canonização católica.















