Recuperações judiciais batem recorde, impulsionadas por fatores anteriores ao ano eleitoral
Crise nas empresas avançou 57% desde o 1° trimestre de 2023; motivos incluem juros elevados e mais acesso ao instrumento
Economia|Giovana Cardoso, do R7, em Brasília
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O Brasil bateu um novo recorde de empresas em recuperação judicial, com 6.341 casos registrados até junho, mostram dados do monitor RGF-BizDoc. O cenário de endividamento também alcançou grandes companhias como Casas Bahia, Habib’s e a varejista Marabraz, que, em agosto, recorreram à Justiça para renegociar dívidas que superam R$ 10 milhões. O cenário de tensão, que vem sendo construído há anos, foi favorecido, principalmente, pelo crescimento da inadimplência entre os empresários e os juros elevados, entendem especialistas.
Em ano eleitoral, a situação econômica do país ganha peso e destaque nas projeções para o pleito, trazendo impacto não só nas decisões políticas, mas também no mercado financeiro e na percepção da população e de investidores estrangeiros.
Para o economista Hugo Garbe, o cenário, que não pode ser explicado por apenas um fator, é resultado de empresas que chegaram a esse momento com uma estrutura financeira mais frágil, justamente em um período em que o dinheiro ficou mais caro e o crédito, mais seletivo.
“Recuperação judicial não é um problema que normalmente nasce de um mês para o outro. Muitas vezes é o ponto final de uma deterioração que começou há bastante tempo. Eu acho que o principal fator é a combinação de juros ainda muito altos com uma oferta de crédito mais restrita. Tem ainda um segundo efeito, que é a inadimplência”, comenta.
No Brasil, o número de empresas inadimplentes cresce a cada ano. Os últimos dados atualizados, referentes ao mês de junho, mostram que ao menos 9,1 milhões de organizações estavam inadimplentes no país. Em média, 7 contas foram atrasadas, o que rendeu uma dívida média de R$ 25.508,96 por CNPJ.

Mais acesso à recuperação judicial
Comparado com o primeiro trimestre de 2023, quando o número de empresas em crise era de 4.014, o país sofreu aumento de 57% nos pedidos de auxílio na justiça.
A economista Deborah Bizarria explica que a alta das recuperações judiciais não deve ser atribuída apenas à tensão do cenário econômico, mas também ao maior acesso que as empresas têm a esse instrumento.
Ela dá como exemplo o setor do agronegócio, que conquistou junto ao STJ (Supremo Tribunal de Justiça) a concessão de pedidos de crise para empresários do setor que não atendem a todos os requisitos legais.
O segmento registrou 474 pedidos no primeiro trimestre de 2026, alta de 21,9% em um ano.
“Houve queda entre produtores (pessoas físicas) e aumento concentrado entre pessoas jurídicas, segundo a Serasa. Portanto, parte do crescimento pode refletir maior dificuldade econômica e parte, maior acesso à recuperação judicial”, explica.
Desafios nas empresas
Para Hugo Garbe, os desafios do ambiente de negócios reduzem a margem de erro, mas a situação financeira de cada empresa também depende muito de gestão, estratégia e estrutura de capital.
“Empreendedorismo envolve risco. O papel de uma boa economia não é impedir que empresas tenham problemas. É criar condições para que empresas boas consigam crescer e para que empresas que passam por dificuldades tenham mecanismos eficientes de reestruturação”, comentou.
Já Bizarria entende que, apesar dos avanços ao longo dos anos, não houve uma melhora uniforme no ambiente para os empresários, mas, sim, avanços “importantes”. Entre eles, a facilidade na hora de abrir e formalizar uma empresa, digitalização de procedimentos e reforma tributária.
“O Brasil avançou na simplificação administrativa, mas ainda combina um custo de financiamento elevado com instabilidade regulatória”, completa.
Percepção da população
Apesar da melhora na economia brasileira, medida pelo IPCA-15, não houve melhora na percepção das famílias.
Segundo uma pesquisa da Genial/Quaest, 43% dos brasileiros acreditam que a economia do país piorou nos últimos 12 meses e, para 69%, o poder de compra é menor quando comparado a um ano atrás. Ainda assim, 33% das pessoas acham que tanto a renda quanto o custo de vida aumentaram e outros 32% não acham que a renda aumentou.
Para o economista Hugo Garbe, a população sente a economia pelo orçamento doméstico, que continua pressionado por juros elevados, alto nível de endividamento, crédito caro e aumento do custo de diversos serviços.
“Houve uma deterioração importante da renda disponível. Muitas famílias comprometem uma parcela significativa do salário com financiamentos, cartão de crédito e empréstimos. Assim, mesmo empregadas, elas têm pouca capacidade de consumo e poupança. Em outras palavras, os indicadores melhoraram, mas a sensação de bem-estar econômico ainda não acompanhou essa evolução”, explica Garbe.
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