Economia Veja como renegociar as dívidas e deixar de ser inadimplente

Veja como renegociar as dívidas e deixar de ser inadimplente

Especialistas dão dicas para 'limpar' o nome e não voltar para a lista de devedores; organização e controle são fundamentais

  • Economia | Mariana Botta, do R7

Controlar o dinheiro que entra e o que sai no mês ajuda a evitar o endividamento

Controlar o dinheiro que entra e o que sai no mês ajuda a evitar o endividamento

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Quem nunca ouviu a famosa frase "na volta a gente compra"? Não poder ter algo que se deseja é uma frustração experimentada por toda criança. Há pessoas que tentam compensar esse "trauma" na vida adulta, quando entram no mercado de trabalho e podem, finalmente, comprar o querem. Esse é um dos comportamentos que podem levar ao endividamento, que é cada vez maior entre os brasileiros, conforme mostram diversos estudos.

Independentemente dos motivos que levam alguém a ficar com o nome "sujo", com planejamento é possível voltar ao cadastro positivo. Além disso, dá para aprender a não ir mais para a lista de inadimplentes. Duas palavras são fundamentais: organização e controle.

Endividadas são as pessoas que contraíram alguma dívida: fizeram uma compra parcelada, um empréstimo ou financiamento. "Eu financiei meu carro, estou endividado. Mas, como estou pagando tudo em dia, não estou com o nome sujo. Se eu fizer uma compra e parcelar em dez vezes, estarei endividado, vou ter essa dívida até pagar as dez parcelas. Se eu deixar de pagar, e a empresa me negativar, daí eu passarei a ser inadimplente", explica Thiago Ramos, gerente da Serasa.  

Deixar de pagar uma conta, o valor total da fatura do cartão de crédito ou a parcela de um empréstimo ou financiamento costuma ser uma decisão consciente, mas há casos de consumidores que "descobrem" sua negativação ou são notificados dela. Quando um indivíduo deixa de pagar a parcela de uma compra, a primeira ação do comerciante é fazer a cobrança diretamente. Se não dá certo, ele entra em contato com a Serasa, para o CPF do consumidor ser negativado. 

"Não há um prazo para a loja fazer isso, mas, depois que o processo vem para cá, enviamos uma carta ou email ao consumidor, dando 15 dias para ele regularizar o pagamento. Depois desse prazo, o nome é negativado. Essa é a causa efetiva do nome sujo", conta o gerente.

Existem, ainda, outras três formas de descobrir que o CPF foi para o cadastro de maus pagadores: "O primeiro é o pior jeito, quando você tenta obter um crédito e não consegue", diz Ramos. Outra forma é por meio de telefonemas de empresas de cobrança, que compram as dívidas de outras companhias por um valor bem menor, com o objetivo de conseguir lucrar com o pagamento. Segundo o especialista, trata-se de um procedimento legalizado e regulamentado. O terceiro meio é pelo monitoramento do CPF.

A consulta pelo número do documento pode ser feita de diferentes modos. Na internet, no site da Serasa mesmo ou nas páginas de outras empresas que também prestam esse serviço, como a Consumidor Positivo, da Boa Vista. Também existem aplicativos para celular dessas duas soluções, disponíveis para download gratuito. Essas empresas avaliam a qualidade do pagador por meio de um score, uma pontuação que indica as chances de o consumidor pagar suas contas em dia.

As pessoas que não têm internet ou preferem ser atendidas pessoalmente podem consultar o CPF em qualquer agência dos Correios, com quem a Serasa tem parceria. Nesse caso, é cobrada uma taxa de R$ 3,60, mas nos demais canais a verificação é gratuita. A Serasa também oferece uma opção de checagem por um aplicativo de mensagens instantâneas, mas esse meio tem sido alvo de fraudes, por isso não é recomendado usá-lo no momento.

O gerente da Serasa diz que tentar pagar as contas em atraso às pressas pode não ser a melhor decisão de quem está inadimplente. "Primeiro, a pessoa deve equilibrar as contas. É bom começar fazendo um planejamento financeiro, anotando, em um caderninho mesmo, numa folha, tudo o que gasta e, em outra, tudo o que recebe. No final do mês, ela tem de ver se não está gastando mais do que ganha. Esse é o ponto fundamental para pensar em negociar uma dívida."

Uma vez que esse planejamento tenha sido feito, e o devedor saiba de quanto dinheiro dispõe por mês, ele poderá partir para a negociação. "É importante priorizar as contas que têm mais juros, como a do cheque especial, uma das mais caras. Além disso, uma boa ideia é pensar em fazer uma reserva de emergência", aconselha Ramos.  

Para limpar o nome, depois da consulta do CPF, a pessoa que está inadimplente pode continuar no site, aplicativo ou na agência dos Correios para fazer a renegociação. Se for na página Consumidor Positivo, é só clicar no link da plataforma Acordo Certo, por meio da qual é possível renegociar as dívidas diretamente com o credor, de forma gratuita e 100% online. A empresa informa que, por mês, mais de 400 mil acordos são fechados entre consumidores com débitos e empresas credoras.

Os que optarem pelo serviço Serasa Limpa Nome, depois da verificação dos débitos, devem seguir três passos: (1) Ver as ofertas e escolher uma opção de negociação; (2) Seguir o passo a passo para fechar a negociação; (3) Clicar em "Gerar o boleto".

Os descontos e a quantidade de parcelas são definidos em acordos prévios com as empresas. "Não há uma porcentagem média, cada opção depende do comportamento do cliente, do parceiro, do setor, do valor da dívida... Mas os descontos chegam a até 99% do valor devido, principalmente nos feirões que realizamos", diz Ramos.

Ele conta que, depois do pagamento, o prazo para o nome voltar a ficar limpo é de cinco a sete dias úteis. "As pessoas que optam pelo parcelamento na renegociação já ficam positivadas depois do pagamento da primeira parcela."

Controle de gastos

Para não ficar com o nome sujo ou evitar que a situação se repita, é preciso, primeiramente, saber exatamente quanto de dinheiro entra a cada mês e quanto sai. "Pessoas que não controlam seus gastos acabam não tendo ideia de para onde está escoando o dinheiro. É importante fazer um registro, ajuda a saber se o orçamento está sendo seguido, quais gastos aumentaram, entre outras coisas", diz Florence Correa, planejadora financeira da Planejar.

Ela afirma que existem diferentes hábitos de consumo e muitas maneiras de organizar os pagamentos. "O endividamento pode ser bem específico, segundo os níveis de renda, por exemplo. Tem gente que não paga uma conta de luz porque não tem dinheiro. Esse é um caso de endividamento. Outro é o da pessoa que entra no cheque especial, enrola a fatura de cartão. São casos extremos. Em linhas gerais, é preciso ter o controle da vida financeira e segurar as rédeas dos gastos constantemente", esclarece.

Segundo a especialista, a inadimplência não tem relação direta com o salário de cada um, mas com falta de planejamento e equilíbrio. "Tem gente que é desorganizada, e há pessoas que dão conta de tudo. Existem endividados entre os que ganham muito dinheiro e entre aqueles que têm toda a renda comprometida."

Thiago Ramos, da Serasa, diz que é importante cada pessoa entender seu comportamento de consumo para poder fazer uma reserva de emergência. Para ele, o ideal seria separar 50% de tudo o que é recebido no mês, para as despesas essenciais, como água, luz, aluguel, supermercado, escola, ou seja, as contas não podem deixar de ser pagas. "Dos outros 50%, tentar deixar 30% reservado para os gastos pontuais com cartão de crédito, uma roupa ou outro item, daqueles que você diz: 'Será que eu preciso mesmo comprar isso agora?'. E aí, se você não tiver esses 30% da sua receita reservados, não poderá gastar", explica. Os 20% restantes seriam destinados à reserva emergencial. 

Para Florence, uma das situações mais complicadas para regularizar é a das pessoas que têm vários cartões de crédito, que usam um para pagar o outro e, assim, vão rolando a dívida, de acordo com a data. "É uma bola de neve. A pessoa já está arruinada e se enrola mais e mais. Uma saída é negociar com cada operadora ou buscar empréstimos pessoais, que têm juros menores, e pagar a dívida dos cartões. Depois, tem de fazer um saneamento muito sério do fluxo de caixa da família, o que vai implicar abdicações", avalia. A especialista diz, ainda, que há casos em que é preciso buscar uma atividade extra para complementar a renda ou, até, se desfazer de algum bem. 

Endividamento e inadimplência

Em abril, 77,7% da população brasileira tinha alguma dívida, segundo a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), realizada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Esse número é o maior da série histórica, iniciada em 2010. Outro levantamento, feito pelo Instituto Real Time Big Data entre os dias 23 e 24 de maio, revela que 67% dos brasileiros costumam gastar mais do que ganham.

O banco de dados da Serasa contabiliza R$ 256 bilhões em dívidas de inadimplentes de todo o Brasil. "Nessa conta, não entram as dívidas cujo pagamento ainda está dentro da data de vencimento. Sobre o percentual de inadimplentes, o dado que tenho é da população adulta do país no mês de março, que é de 40%", diz Thiago Ramos. 

Além do impulso ao consumo, outro motivo que pode explicar o recorde no endividamento é a atual situação da economia, com inflação e juros altos. Para Florence, da Planejar, a sociedade ainda sente os reflexos da diminuição da renda, que começou na pandemia. "Foi um período complicado, de muitas perdas e, embora agora a gente esteja praticamente voltando a uma vida normal, ainda há consequências, que levaram a uma desorganização financeira generalizada. Muitas famílias ainda não conseguiram se recuperar", analisa a especialista.

Ela afirma que o problema, em alguns casos, não é gastar mais, já que "durante as restrições devidas à pandemia muitas despesas, que eram variáveis, foram abandonadas, interrompidas. As questões mais graves foram a perda de renda e a inflação, que está pesando bastante no orçamento das famílias, a renda não acompanha", diz Florence.

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o rendimento médio real mensal do brasileiro no primeiro trimestre deste ano, medido pela Pnad – Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), foi de R$ 2.548, o que indica uma redução de 8,7% na comparação com o mesmo período de 2021, quando o valor médio era R$ 2.789. Em relação ao trimestre anterior, os últimos três meses de 2021, foi registrada alta de 1,5%.

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