Conheça as mulheres que pesquisam genoma do coronavírus

Elas dominam o laboratório, apresentaram o resultado em tempo recorde e falam sobre a importância do trabalho feminino em equipe 

Professora Ester Sabino, pesquisadora da Universidade de São Paulo

Professora Ester Sabino, pesquisadora da Universidade de São Paulo

Karla Dunder/R7

As pesquisadoras do Instituto de Medicina Tropical da USP (Universidade em São Paulo) estão no centro das atenções desde a última semana, quando conseguiram sequenciar o genoma do novo coronavírus (Covid-19) em apenas dois dias. “Estamos surpresas com a repercussão, para nós o trabalho faz parte da rotina, mas percebemos a importância do que fizemos”, conta a coordenadora da pesquisa, Jaqueline Góes de Jesus.

O trabalho foi conduzido por cientistas do Instituto Adolfo Lutz, do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP e da Universidade de Oxford. O grupo faz parte do Cadde, um projeto apoiado pela Fapesp e pelo Medical Research Centers, do Reino Unido, que desenvolve novas técnicas para monitorar epidemias em tempo real.

No Brasil, o grupo que conduziu a pesquisa é composto por mulheres. “Este trabalho também mostra que é possível, sim, ter uma pesquisa conduzida apenas por mulheres e no laboratório uma ajuda a outra, somos organizadas e estamos preparadas para fazer o trabalho rapidamente”, observa a pesquisadora e professora, Ester Sabino.

“Fico muito orgulhosa quando outras mulheres me dizem: ‘a gente se sente representada’ ou ‘como faço para incentivar a minha filha a ser cientista?’, isso me deixa ainda mais feliz”, afirma Jaqueline.

Jaqueline Góes de Jesus coordenadora da pesquisa

Jaqueline Góes de Jesus coordenadora da pesquisa

Karla Dunder/R7 - 06.03.2020

A biomédica e doutoranda Ingra Morales Claro, responsável por otimizar protocolos e diminuir os custos da pesquisa, destaca a importância do grupo para o projeto. “Eu me sinto muito privilegiada por fazer parte de uma equipe tão colaborativa, com muita gente competente trabalhando junto.”

O laboratório na USP tem instalações simples, mas desde 2016 abriga o primeiro sequenciador de genoma do país. O aparelho chegou a São Paulo pela parceria com as universidades do Reino Unido.

O sequenciamento do genoma de forma tão rápida — a Itália, que sofre com o surto da doença, ainda não terminou o sequenciamento — foi possível porque, como explica Ester, “a ciência se constrói a longo prazo, é uma continuidade de estudos, estávamos pesquisando o vírus da dengue, como se espalha e as formas de combate quando o coronavírus chegou ao Brasil, não foi tão difícil fazer o sequenciamento do novo vírus.”

Ingra Morales Claro e o orgulho da conquista

Ingra Morales Claro e o orgulho da conquista

Karla Dunder/R7 - 06.03.2020

Mas qual a importância desse sequenciamento? As pesquisadoras explicam que este é o primeiro passo para, no futuro, produzir vacinas e medicamentos. “Entender a estrutura e o mecanismo de funcionamento do vírus é importante para sabermos como combate-lo e também auxilia na elaboração de políticas públicas para a contenção da epidemia”, explica Jaqueline.

Universidade e Pesquisa

Ser pesquisador no Brasil é um desafio. Não existe a profissão “cientista”, nem uma legislação específica que regulamente o trabalho. “Vivemos de bolsas e apoio de fundações como a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que é fundamental para a continuidade do trabalho, nossos pesquisadores ligados ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) não estão mais no projeto após os cortes feitos nos últimos anos”, observa Jaqueline.

Além da falta de recursos, as pesquisadoras têm o desafio de driblar a burocracia para a aquisição de material e reagentes, com tempo de espera longo, que pode passar de 45 dias de espera.

“Se com todas essas dificuldades fazemos o que fazemos, imagine o que seríamos capazes de produzir se tivéssemos recursos e estrutura?”, questiona Ingra.