Educação inclusiva avança, mas professores ainda enfrentam limites estruturais
Crescimento de alunos com autismo e deficiências na educação básica expõe falta de legislação específica e de modelos pedagógicos
Educação|Luiza Marinho*, do R7, em Brasília
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O número de estudantes com TEA (transtorno do espectro autista) matriculados na educação básica brasileira cresceu 44,4% entre 2023 e 2024, passando de 636.202 para 918.877 alunos, segundo o último Censo Escolar.
O dado integra um movimento mais amplo de expansão da educação inclusiva no país, que bateu recorde em 2024, com cerca de 2,1 milhões de matrículas na educação especial, categoria que reúne alunos com deficiência, TEA e altas habilidades.
A maioria desses estudantes está inserida na rede pública de ensino, sobretudo nos âmbitos municipal (49,1%) e estadual (26,9%).
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Apesar do avanço no acesso, especialistas ouvidos pelo R7 alertam que a presença em sala de aula não garante, por si só, participação efetiva e aprendizagem.
Inclusão e adaptação
Para Pedro Lucas Costa, pessoa autista, doutorando em psicologia do desenvolvimento e escolar pela UnB (Universidade de Brasília), o principal desafio da educação inclusiva hoje está na forma como ela é compreendida e aplicada nas escolas.
“Um dos maiores problemas é que a inclusão ainda funciona sob uma lógica formal e adaptativa, e não estrutural e pedagógica. Muitas vezes, ela se limita à presença física do aluno ou a estratégias pontuais, sem revisar o currículo, o tempo escolar, a avaliação e a própria organização da sala”, analisa.
Segundo ele, quando a escola não se reorganiza, transfere para o estudante com deficiência a responsabilidade de se adaptar, o que reforça processos de patologização e fracasso escolar. “A barreira não está no aluno, mas no meio social. O desenvolvimento humano é profundamente mediado pelas relações, e não apenas por fatores biológicos”, ressalta.
Na avaliação de Pedro, um acerto frequente entre os professores é o compromisso ético e o desejo genuíno de incluir.
Por outro lado, um erro recorrente é reduzir o trabalho pedagógico a técnicas comportamentais ou a adaptações individualizadas que afastam o aluno do currículo comum. “O problema não é o aluno não acompanhar a escola, mas a escola não criar condições reais para que ele participe do processo educativo”, pontua.
Dificuldades ao educar
Os desafios são ainda mais evidentes na rede pública. Uma professora do Distrito Federal, que preferiu não se identificar, relata a dificuldade de oferecer suporte adequado em salas superlotadas.
“É uma situação muito desafiadora, principalmente em escolas públicas, que muitas vezes não têm o suporte ideal. A maioria desses jovens está na rede gratuita de ensino”, afirma.
Segundo ela, o número de alunos por turma é um dos principais entraves. “O professor precisa lidar com mais de 30 estudantes e também dar o suporte ideal para mais de um aluno com transtorno. Isso sobrecarrega e compromete o atendimento”, constata.
A professora também destaca a falta de uma legislação federal mais específica. “Com certeza falta uma lei que evite a sobrecarga dos professores e garanta que esses alunos tenham o cuidado e o ensino adequados.”
Atualmente, não existe uma norma federal que estabeleça um número máximo fixo de alunos com deficiência por sala na rede pública. As regras variam conforme estados e municípios, além da complexidade de cada caso. Em geral, é recomendada a presença de dois a três alunos de inclusão por turma para garantir a qualidade do ensino, o que nem sempre é respeitado na prática.
Novas formas de inclusão
Na rede privada, o cenário tende a ser diferente, principalmente em escolas que contam com equipes multidisciplinares.
Na avaliação de Yohana Duarte, psicóloga escolar da Rio International School, o maior desafio está em equilibrar o atendimento individualizado com a dinâmica coletiva da turma.
“Cada aluno é único, e isso exige sensibilidade, flexibilidade e atenção constante. Nosso cuidado vai além do conteúdo e envolve o emocional, a autoestima e as relações sociais”, afirma.
Mesmo com recursos, o aumento de estudantes com diferentes necessidades impacta diretamente o planejamento pedagógico.
“Precisamos pensar em atividades mais flexíveis, diferentes formas de avaliação e materiais variados. Isso exige mais tempo, organização e criatividade”, frisa Daniele Batista, diretora brasileira da instituição. Para ela, ampliar o tempo de planejamento e o apoio em sala é essencial para que a inclusão seja efetiva.
*Sob supervisão de Augusto Fernandes
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