“Se Lula se tratasse no SUS, diriam que ele tirou vaga de uma pessoa carente”, diz médico do ex-presidente
Em entrevista ao R7, Roberto Kalil nega volta do câncer de Lula e fala da relação com políticos
Eleições 2014|Érica Saboya, do R7

Responsável pela saúde de alguns dos principais nomes da política brasileira desta década, o cardiologista Roberto Kalil Filho diz não se intimidar com o peso dos cargos dos pacientes que atende: “no meu consultório, quem manda sou eu”. À primeira vista, o médico de 54 anos e pouco mais de 1,60 de altura quase nada revela do temperamento forte que marca sua personalidade.
Segundo ele, é o perfil durão que o faz se identificar com a presidente Dilma Rousseff, a quem atende desde antes da vitória nas eleições de 2010. Entre seus pacientes ilustres também estão o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o senador José Sarney (PMDB-AP), o ex-governador José Serra (PSDB-SP) e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.
Kalil recebeu a reportagem do R7 no dia 1º de agosto, uma quinta-feira, em uma sala do hospital Sírio-Libanês, onde é diretor do Centro de Cardiologia. Com diversos perfis publicados na imprensa, ele disse preferir não falar da vida pessoal, porque considera “exposição demais”. Declarou-se apenas ser viciado em trabalho “convicto e feliz”.
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Casado pela segunda vez, o cardiologista mora em apartamento diferente da mulher, a médica Cláudia Cozer. Ele tem duas filhas da primeira união, Rafaella e Isabella, com quem curte os únicos cinco dias de férias que tira todos os anos.
Kalil falou à reportagem sobre a relação próxima que estabeleceu com os políticos que atende, comentou o polêmico programa Mais Médicos do governo federal e as carências do SUS (Sistema Único de Saúde). Ele também rebateu a campanha realizada nas redes sociais em 2011 — quando Lula descobriu um câncer na laringe — que pedia para que o ex-presidente se tratasse na rede pública e negou ter diagnosticado no petista um retorno do tumor.
Leia abaixo a primeira parte da entrevista que Kalil concedeu ao R7:
R7 - O senhor atende alguns dos principais políticos do Brasil, inclusive a presidente da República. Como começou o contato com essas pessoas?
Roberto Kalil - Médico atende todo mundo, dentre eles os empresários, os políticos, jogadores de futebol, atende todo mundo. O consultório do médico é livre. Mas conheci muita gente quando eu comecei a trabalhar no Incor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas), acho que em 1986. Na época, muitos políticos iam para lá.
R7 - O senhor sente que tem uma responsabilidade maior quando atende a presidente?
RK - Não. A responsabilidade é igual. A exposição é que é maior. A responsabilidade de cuidar da presidente é a mesma que cuidar de vários pacientes que eu faço visita médica no SUS. A conduta médica é a mesma. O que diferencia é a exposição, que é boa e ruim.

R7 - Como o senhor lida com essa exposição? Ela é mais positiva ou negativa?
RK - É mais para positiva. É claro que você se sente honrado. É interessante, no mínimo interessante, você ser médico de uma pessoa que vira presidente da República. Foi assim com a presidenta Dilma e com o Lula. Eu já era médico dele há 16, 17 anos quando ele virou presidente.
R7 - Quem é o paciente mais difícil de lidar, a Dilma ou o Lula?
RK - Cada paciente tem a sua característica. O mais importante é ganhar a confiança do paciente antes de dar a conduta médica. Aí fica fácil.
R7 – Você sente dificuldade em exigir alguma postura tendo em vista a posição deles? Há problemas de autoridade?
RK - A autoridade é o seguinte: no meu consultório, quem manda sou eu. Não tem autoridade, a autoridade fica na rua, seja o paciente o papa ou o presidente da República.
R7 - O senhor tem fama de ter um temperamento explosivo.
RK - No trabalho tem que ser. Eu faço um tipo de explosivo porque tem que ser feito. Medicina, como qualquer profissão, é coisa séria, as pessoas morrem. Então eu não admito atrasos, nada. Sou um cão chupando manga. Sou extremante rigoroso, explosivo. Quem trabalha comigo pula picadinho.
R7 - O Sr. identificou o câncer da Dilma, do Lula e do [ex-vice-presidente] José Alencar. Inúmeros políticos têm sido vítimas de tumores. Há alguma relação com a pressão sofrida no cargo?
RK - Não. Veja, eu não sou especialista em câncer. Mas não. Não vejo relação nenhuma. O diagnóstico hoje é muito mais precoce por causa dos aparelhos que você tem. Claro que a incidência de câncer aumentou, assim como de infarto e derrame cerebral também. Mas isso é mais por causa do diagnóstico.
R7 - Como o senhor vê o fato de parte da classe política, responsável pela administração do sistema público de saúde, recorrer a um hospital particular para se tratar?
RK - Qual é a diferença do político, que tem um cargo, ou de um executivo ou de um qualquer ser humano comum? Nenhuma. Ele tem todo o direito. Se ele tem um convênio médico e paga por isso, ele tem o direito a usar onde ele se sentir mais confortável ou onde o medico de confiança dele trabalha. Não vejo problema algum. Ora, por que o presidente Lula tem que se tratar no SUS, se ele tem convênio, se o médico dele, que sou eu, atende nesse hospital particular? Ele não está agredindo ninguém, não está tirando o direito de ninguém.

R7 - Então o senhor não vê contradição?
RK - Em hipótese alguma. Se o presidente Lula fosse fazer o tratamento de câncer dele no SUS, teriam críticas: “ele tem convênio, o médico dele é do Sírio-libanês e ele está ocupando lugar do pobre coitado, do carente que não tem condições”. Com certeza alguém ia criticar. Antes de ser o presidente da República, ele é um ser humano, de carne, osso e sangue. Então, ele tem o direito, sem infringir as regras e as leis.
R7 – Recentemente, houve rumores de que o câncer do Lula teria reaparecido. É verdade?
RK – Não. Ele vai repetir os exames dia 10 [sábado]. Ele acabou de sair daqui, veio visitar dois amigos que estão internados [quando a entrevista foi feita, no dia 1º de agosto, estavam internados no Sírio-Libanês o deputado José Genoino e o senador José Sarney]. Lula não veio se tratar!
R7 - Os tratamentos que o SUS oferece são ruins?
RK - Não, aí tem uma ampla discussão. O SUS é um sistema que funciona. O atendimento do SUS não diferencia em nada do tratamento cardiológico que tem o hospital Sírio-Libanês. Agora, têm críticas à gestão e obviamente falta verba. O Incor está sempre superlotado, tem sempre fila de espera, porque há uma falência do sistema de saúde do País, que não é culpa desse governo, nem do passado, é culpa da história dos governos, na minha opinião.




