Eleições 2020 Pandemia e racismo sobressaem em debate entre Covas e Boulos na TV

Pandemia e racismo sobressaem em debate entre Covas e Boulos na TV

Sabatinados no programa Roda Viva, da TV Cultura, candidatos à Prefeitura de SP expõem propostas para a cidade em temas locais e nacionais

Boulos e Covas foram sabatinados no programa Roda Vida, da TV Cultura

Boulos e Covas foram sabatinados no programa Roda Vida, da TV Cultura

Nadja Kouchi - 23.11.2020

Os candidatos à Prefeitura de São Paulo que disputam o segundo turno da eleição municipal, Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL), expuseram ações que pretendem tomar na próxima gestão em temas como a pandemia do novo coronavírus e ataques racistas que têm mobilizado a sociedade brasileira em debate realizado no programa Roda Viva, da TV Cultura, na noite desta segunda-feira (23).

Leia também: Merenda e desigualdade social são destaque na fala de candidatos em agenda nesta segunda-feira (23)

A sabatina foi dividida pelo organizadores em cinco blocos. Nos quatro primeiros, os entrevistados ficaram no centro da roda, alternadamente, para responder às perguntas dos jornalistas que compunham a bancada. O último bloco foi reservado para as considerações finais dos candidatos.

Pandemia

Os candidatos foram perguntados sobre as ações que pretendem tomar, caso sejam eleitos, para combater a pandemia, também sobre a preocupação com o aumento da taxa de ocupação de leitos hospitalares para o tratamento dos doentes e a possibilidade da chegada de uma segunda onda de contágio.

Bruno Covas classificou como fake news que a cidade esteja enfrentando aumento de casos. Ele destacou que a prefeitura da capital paulista já expôs os números da doença na semana passada, reafirmou que há estabilização de casos e óbitos, mas reconheceu o crescimento da quantidade de internações. 

"Trinta e cinco dias atrás, a prefeitura havia alertado a preocupação com as classes A e B que tinham voltado a frequentar festas. Segundo ponto foi o aumento da quantidade de pessoas internadas de fora da cidade de São Paulo. Vamos enfrentar isso sem fake news e que há uma segunda onda sendo escondida pela Prefeitura de São Paulo. Vamos enfrentar isso com a seriedade que é preciso".

Covas também afirmou que o retorno das aulas presenciais na rede pública de ensino depende do aval das autoridades sanitárias "Também sou pai e tenho agonia dentro de casa para o meu filho voltar. O fato de estarmos com uma estabilização significa que não tem necessidade de retroceder, mas não precisamos avancar. As crianças têm ficado protegidas em casa. Estamos tratando a questão da educação com o cuidado que a vigilância sanitária requer", completou.

Guilherme Boulos revelou que pretende abrir concursos públicos na área da saúde de forma emergencial em razão da pandemia. Já o retorno dos alunos no ano que vem dependerá de decisão dos médicos.

No entanto, o candidato disse que pretende trabalhar para promover mutirões de reforço escolar para minimizar a defasagem de ensino provocada também pela falta de condições dos estudantes que não possuem acesso à internet.

Leia também: Candidatos disputam apoios na área cultural em São Paulo

"[São] dois caminhos e não dependem do prefeito. Dependem dos médicos. Se a vigilância sanitária der o sinal verde, não vamos precisar ter ensino à distância. Aí, vamos construir um mutirão de reforço para reduzir a defasagem, especialmente nas escolas públicas. Vamos ter que fazer o que não foi feito: cartão de internet para os alunos, preperação para os professores e discutir com os pais o apoio, inclusive com o cartão merenda. E garantir equipamento para estudantes que não têm."

Racismo

O prefeito Bruno Covas rechaçou a declaração do vice-presidente da República, Hamilton Mourão, que negou a existência de racismo no Brasil, após o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, praticado por dois seguranças de um hipermercado de Porto Alegre.

Covas afirmou que o Brasil precisa reconhecer a existência do racismo estrutural e o mundo necessita enfrentar esse tema.

"Lamento. Não corresponde à realidade. Vemos uma quantidade imensa de pessoas sofrendo preconceito. A própria pandemia jogou luz sobre esse problema. A cidade tem um decreto municipal de minha autoria reconhecendo o racismo estrutural, apontando políticas. Já me comprometi a ter mais negros na administração. É um tema que não pode ser de esquerda ou de direita", afirmou.

Covas também destacou que a sua política antirracista prevê punições à empresas privadas, como a possibilidade de cassação de alvarás dos estabelecimentos que cometam esse tipo de crime na cidade. "Essa precisa ser uma luta de todos nós. É um desafio que o Brasil precisa enfrentar", completou.

Leia também: Vereadores negros são 6% do total de eleitos; brancos são 53%

Guilherme Boulos enfatizou que o seu projeto é fazer de São Paulo uma cidade antirracista. Para tanto, revelou que pretende recriar a extinta Secretaria da Igualdade Social e introduzir o ensino da história africana na rede municipal. Outra proposta é promover aulas de enfrentamento ao racismo na formação dos novos integrantes da GCM (Guarda Civil Metropolitana).

"Dói ainda mais quando a gente percebe que não é o caso isolado. É parte de um racismo estrutural que se resolve com políticas concretas. [É] um dos pntos que estão no nosso programa de governo, construído com ativistas e militantes do movimento negro. A política de combate ao racismo não pode ser apenas uma caixinha. Tem que ser transversal e com a presença de pessoas negras no secretariado", comentou Boulos.

Equipes de governo

Ambos os candidatos se esquivaram sobre a composição dos novos secretariados para a gestão que se inicia no ano que vem. Bruno Covas frisou que seria imprudente antecipar nomes antes do pleito.

"Não tem sentido formar gabinete antes da eleição. Vamos pensar um pouco sobre a organização da prefeitura, se faz sentido juntar um ou outra secretaria, juntar outras", respondeu.

Já Guilherme Boulos brincou que um anúncio antecipado daria azar, citando uma frase dita pela sua vice, Luiza Erundina, quando foi prefeita da cidade (1989-1993). Ele também prometeu governar com sensibilidade e ao lado de nomes capacitados nas mais diferentes áreas de atuação.

"Não se trata de indicar nomes, mas dizer que tipo de experiência quero levar para prefeitura. Vou aliar a minha experiência de 20 anos no movimento social, de quem vive na periferia. Quero aliar com a experiência administrativa e de gestão da Luiza Erundida, que inverteu prirodades. Aliar isso a uma equipe extremamente capacitada", declarou.

Vice de Covas

Bruno Covas rebateu críticas em relação à denúncias envolvendo o seu candidato à vice-prefeito, Ricardo Nunes (MDB), suspeito de agressão à esposa e de suposto desvio de dinheiro do programa de creches credenciadas da cidade.

"Não há sequer uma denúncia de agressão envolvendo o Ricardo Nunes. O que ele fez foi, dez anos atrás, [ter tido] um desentendimento com a esposa. Não há agressão envolvendo o vereador Ricardo Nunes. Estamos em um país que as pessoas gostam de lacrar e acabar com o currículos".

Radicalismo

Já Guilherme Boulos foi interpelado pela bancada do programa sobre responsabilidade fiscal e medidas contra manifestações violentas por parte de movimentos sociais, caso do MTST (Movimento dos Trabalhadors Sem Teto), do qual foi líder durante a sua militância.

"Tentar me imputar de forma negativa, como foi feito, a pecha de radical. Só expressa o momento sombrio que estamos vivendo. Eu luto para que as pessoas possam ter casa, saúde publica de qualidade, educação de qualidade. Iss está na Constituição. Querer taxar essas formas de luta e bandeiras é a expressão de quanto a gente recuou em termos de direitos sociais. As minhas bandeiras não mudaram", afirmou o candidato.

Projetos nacionais

O prefeito Bruno Covas negou que pretenda deixar um eventual segundo mandato para disputar cargos nas eleições de 2022. Sem criticar os correligionários José Serra e João Doria, que deixaram a prefeitura para concorrer em eleições presidenciais e estaduais no passado, ele desaprovou a descontinuidade e disse que irá permanecer no cargo até 2026. 

"Sou contra a reeleição. Votei contra quando fui deputado federal. Acho que é ruim. Há dificuldade de renovação de quadros. Mas estou disputando dentro das regras democráticas. Serra e Doria fizeram as suas opções, inclusive por orientação partidária. Assumiram o risco e foram eleitos. Quero ser prefeito pelos próximos quatro anos. Esse é o meu compromisso e o meu desafio", pontuou.

Em relação ao mesmo tema, Guilherme Boulos evitou comparações com a trajetória política do ex-presidente Lula ao ser apontado como o principal líder da esquerda no país e questionado sobre um possível projeto nacional para 2022.

"Não existe repetição na história. Estou construindo a minha trajetória. Não sou tucano. Se eleito, governar [a cidade de São Paulo] vai ser a maior honra da minha vida e vou cumprir até o final."

Considerações finais

O último bloco da atração foi reservado para as considerações finais dos candidatos, um espaço para que ambos passassem um recado ao eleitorado na semana que antecede o pleito muncipal. A ordem da fala dos candidatos foi invertida em relação aos blocos anteriores.

No seu discurso, Guilherme Boulos enfatizou que pretende levar para a prefeitura paulistana um projeto novo e de sensibilidade social, aliado à experiência administrativa da ex-prefeita Luiza Erundina, além de profissionais de alta qualidade nas mais diversas áreas da gestão.

"Experiência de quem vive e luta ao lado das pessoas que mais precisam. É desse jeito que a gente quer virar o jogo em São Paulo. A decisão no próximo domingo é 'pão, pão, queijo, queijo'", avaliou Boulos ao fazer uma analogia sobre a escolha do eleitorado paulistano por um projeto de continuidade ou a opção por uma nova gestão.

Já o tucano Bruno Covas procurou mostrar aos eleitores que a sua gestão seria confiável pela experiência adquirida nos dois anos em que esteve à frente da prefeitura e pelo combate à pandemia da covid-19. O prefeito também procurou se apresentar como um candidato moderado.

"[É preciso] comparar quem já fez por São Paulo e quem está preso ao radicalismo ideológico. Fico feliz de tudo aquilo que realizamos, mas não estou satisfeito. Justiça social se faz com responsbilidade fiscal, não com discurso bonito. A minha cartilha é do diálogo, do respeito à lei, das decisões judiciais. O momento requer experiência e pés no chão", finalizou Covas.

Últimas