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Eleições: candidaturas indígenas batem recorde, mas ainda são menos de 1% do total

Desigualdade também afeta outros grupos minoritários e reflete as barreiras estruturais de acesso ao capital político, diz especialista

2026|Bruna Pauxis, do R7, em Brasília

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Menos de 1% dos candidatos nas eleições são indígenas, apesar de um número recorde de candidaturas.
  • O crescimento populacional indígena não se reflete na representatividade política, segundo especialistas.
  • Raimundo Nonato destaca a necessidade de legitimidade e apoio comunitário para candidatos indígenas.
  • Desafios de representatividade também afetam mulheres, pessoas pretas e com deficiência, devido a barreiras estruturais.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Brasília (DF), 26/03/2026 - Marcha de indígenas de todo país que participam do Acampamento Terra Livre - ATL 2026. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Ao menos 65 povos indígenas estão representados entre as candidaturas deste ano Rafa Neddermeyer/Agência Brasil - 26.3.2026

Menos de 1% dos candidatos cadastrados no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para as eleições deste ano são indígenas. Apesar da baixa participação, o número de candidaturas indígenas é recorde para eleições gerais: dos 20.769 pedidos de candidatura registrados para a disputa de outubro, 195 pessoas se declaram pertencentes a essa parcela da população, segundo dados do TSE reunidos até sexta-feira (28).

Segundo o último censo demográfico publicado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), entre 2010 e 2022, a população indígena no país cresceu 88,96%, chegando a 1.694.836.


Para Raimundo Nonato, professor indígena da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), cientista político e coordenador do Laboratório de Estudo do Comportamento e Racionalidade Política, as estatísticas das candidaturas estão longe do ideal.

O especialista defende que os parlamentos e órgãos colegiados públicos devem funcionar como uma “foto colorida da sociedade”, refletindo todos os grupos sociais de maneira proporcional.


Nesse contexto, o lugar de fala não deve ser concedido a outro que não reflita o seu ser, não o simbolize e não expresse sua “imagem e semelhança”. Os iguais se completam com os diferentes, e a construção da unidade na diversidade é sinal de uma democracia em amadurecimento.

(Raimundo Nonato, professor indígena da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), cientista político e coordenador do Laboratório de Estudo do Comportamento e Racionalidade Política)

Ele ressalta, ainda, que a representatividade vai além da mera semelhança física com os representados nos espaços de decisão: ela depende, sobretudo, do grau de legitimidade, traduzido no apoio e na confiança depositados pela comunidade em seus representantes.

“Essa legitimidade deve ser mensurada pelo sentimento de vocação expresso nas ações sociais e políticas. Quem demonstra aptidão para a representação deve ter em mente que o bem coletivo se sobrepõe a interesses puramente sectários”, opina Nonato.


No contexto das comunidades indígenas, conta Nonato, esse fator torna-se ainda mais delicado diante da possibilidade de o indivíduo reivindicar para si o direito de se declarar indígena e de falar em nome dos indígenas, mas não defender a pauta indígena e nem o meio ambiente, por exemplo.

Para o professor, é necessário que o próprio movimento indígena legitime os candidatos. A estratégia de usar indígenas para lutar contra os próprios direitos, segundo Nonato, é antiga. “A cooptação direta e indireta de indígenas é uma ação política adotada desde os tempos coloniais, atravessou o Império e manteve-se no período republicano. Hoje, os governos municipais, estaduais e o governo federal se valem desse expediente ao incorporar alguns indígenas à esfera estatal”, diz.


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Baixa representatividade

A problemática da representatividade, porém, não se restringe aos indígenas. Conforme mostrou o R7 Planalto, a representatividade de pessoas com deficiência também é baixa: menos de 1,3% dessa população foi eleita para cargos legislativos nos últimos pleitos.

O problema também afeta mulheres e pessoas pretas. De acordo com o levantamento sobre o perfil das candidaturas registradas, as mulheres representam 35% do total. Neste ano, 7.201 mulheres devem concorrer contra 13.454 homens.

Pessoas pretas somam 13,6% dos concorrentes, enquanto a presença de pessoas amarelas é ainda menor do que a de indígenas, alcançando 0,53%.

Além disso, as candidaturas de pessoas não brancas para cargos do Executivo são minoria. Das 10.218 candidaturas pretas e pardas, por exemplo, 79 disputam um governo estadual (39,9% entre 198 candidatos), 92 a vice-governadoria (46% entre 200 candidatos), três a Presidência da República (23,07% entre 13 candidatos) e cinco a Vice-Presidência (38,46% entre 13 candidatos).

Barreiras estruturais

“A composição racial de quem ocupa o núcleo decisório do Executivo revela como o aparelho estatal seleciona e reproduz determinados grupos como aptos ao exercício do poder”, pontua Hector Vieira, doutor em sociologia e professor do Ibmec Brasília.

Para o sociólogo, os dados não refletem uma falta de interesse político desses grupos, mas apontam para barreiras estruturais de acesso a capital político, marcadas por redes partidárias historicamente brancas, acesso desigual a financiamento e visibilidade midiática, e um imaginário nacional sobre quem tem “capacidade de governar” que remonta à formação do Estado brasileiro.

Segundo ele, existem quatro pontos que interferem nas candidaturas desses grupos, desde questões técnicas a questões mais simbólicas e culturais.

“A primeira questão é o financiamento de campanha: mesmo com a Emenda Constitucional 133/2024, que constitucionalizou o piso de 30% dos recursos do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha para candidaturas pretas e pardas, o piso não garante distribuição equânime dentro desse percentual entre candidaturas legislativas e majoritárias”, explica.

“Além disso, os partidos tendem a privilegiar quem já possui capital político acumulado, historicamente concentrado em candidatos brancos. Outros pontos são o acesso a redes de apoio e doadores fora do financiamento público e o efeito caro à crítica racial brasileira, que associa cargos de comando a um perfil racial específico. Isso desestimula candidaturas antes mesmo da fase de registro”, finaliza.

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