Logo R7.com
RecordPlus
Notícias R7 – Brasil, mundo, saúde, política, empregos e mais
‌

Não é só o nível do mar: o degelo pode liberar um risco invisível 

O derretimento do permafrost pode liberar gases de efeito estufa e transformar ecossistemas inteiros no Ártico 

Fala Ciência

Fala Ciência|Do R7

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window
O degelo pode esconder um perigo climático ainda maior do que a alta do mar. (Imagem: Fala Ciência via Gemini) Fala Ciência

Quando se fala em degelo, a imagem mais comum é a do mar subindo lentamente e ameaçando cidades costeiras. Esse risco é real e já preocupa o planeta inteiro. Mas existe uma parte da história que recebe menos atenção e pode ser ainda mais perigosa no longo prazo: o que acontece quando o solo congelado do Ártico começa a descongelar.

Esse solo recebe o nome de permafrost. Ele permanece congelado por pelo menos dois anos consecutivos, mas em muitas regiões está congelado há séculos ou até milênios. O detalhe crucial é que o permafrost não guarda apenas gelo. Ele também armazena enormes quantidades de matéria orgânica antiga, formada por restos de plantas e outros organismos que ficaram presos no solo antes de se decompor totalmente. Enquanto esse material permanece congelado, ele fica relativamente estável. O problema começa quando o aquecimento global transforma esse cofre gelado em um ambiente biologicamente ativo.

‌

Debaixo do gelo existe um estoque gigantesco de carbono

À primeira vista, o Ártico pode parecer uma paisagem silenciosa e vazia. No entanto, o subsolo dessas regiões funciona como um imenso reservatório de carbono. Quando o permafrost descongela, microrganismos voltam a atuar sobre essa matéria orgânica antiga. A partir daí, o que estava “guardado” começa a ser convertido em dióxido de carbono e, em áreas encharcadas e pobres em oxigênio, também em metano.

‌

E é justamente o metano que acende um alerta especial. Embora permaneça menos tempo na atmosfera do que o CO₂, ele tem um poder de aquecimento muito maior no curto prazo. Isso significa que a liberação de metano a partir do degelo pode funcionar como uma espécie de empurrão extra no aquecimento global, criando um ciclo preocupante: mais calor provoca mais degelo, que por sua vez favorece mais emissões.

O solo não derrete só por cima, ele muda de comportamento

‌

Um ponto importante é que o degelo do permafrost não representa apenas “gelo virando água”. Quando essa estrutura perde estabilidade, o terreno pode afundar, rachar, formar lagoas, alterar o fluxo da água e mudar completamente a vegetação local. Em vez de um solo firme e frio, surgem áreas mais úmidas, com novas comunidades de microrganismos e plantas.

Essa transformação tem efeitos em cascata. Ambientes antes dominados por vegetação adaptada ao frio podem dar lugar a paisagens mais alagadas e produtivas em biomassa. À primeira vista, isso até pode parecer positivo, porque mais plantas significam mais captação de carbono. Só que a conta não é tão simples: em áreas encharcadas, a atividade microbiana pode aumentar a produção de metano, compensando ou até superando parte desse ganho.

‌

Foi justamente esse tipo de mudança que apareceu em um estudo publicado em 26 de março de 2026 na revista Global Change Biology, liderado por Jan Mollenkopf. A pesquisa mostrou que a mudança da vegetação em áreas de permafrost em degelo pode aumentar as emissões de gases de efeito estufa, especialmente porque gramíneas que passam a dominar esses ambientes podem estimular cadeias microbianas associadas à produção de metano.

O impacto vai muito além do Ártico

Pode parecer um problema distante, restrito a regiões geladas do planeta. Mas o degelo do permafrost interessa ao clima global inteiro. Isso acontece porque ele faz parte de um mecanismo chamado feedback climático. Em termos simples, é quando uma mudança inicial, como o aquecimento, desencadeia processos que empurram o sistema ainda mais na mesma direção. Além do efeito sobre os gases de efeito estufa, o degelo também afeta:

  • ecossistemas polares, alterando habitats e cadeias alimentares
  • infraestruturas humanas em regiões frias, como estradas, casas e oleodutos
  • ciclos da água e dinâmica de rios e lagos no Ártico
  • equilíbrio do carbono global, com possíveis impactos no ritmo do aquecimento

Ou seja, não se trata apenas de gelo desaparecendo. Trata-se de um sistema inteiro saindo do estado de equilíbrio.

O que quase não aparece nas imagens do degelo

Quando vemos fotos de geleiras derretendo, o drama climático já parece evidente. Ainda assim, a parte mais preocupante pode estar escondida no que não aparece na imagem: o subsolo descongelando, a biologia do solo despertando e o carbono antigo voltando à atmosfera.

É isso que torna o permafrost tão estratégico na discussão sobre mudanças climáticas. Ele não é apenas uma vítima do aquecimento global. Em muitos cenários, pode se tornar também um amplificador do problema. E quanto mais cedo esse processo avança, mais difícil fica conter seus efeitos apenas reduzindo emissões humanas no futuro.

No fim das contas, o degelo não ameaça só o nível do mar. Ele ameaça também a estabilidade de um dos maiores estoques naturais de carbono do planeta. E essa é justamente a parte que quase não aparece, mas que pode pesar muito no clima das próximas décadas.

Siga R7 no Google e fique por dentro de tudo que acontece

Seguir no Google

Últimas

‌

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.