Ordos Kangbashi: a cidade moderna da China que cresceu mais rápido que sua população
Cidades fantasmas tecnológicas na China: descubra por que Ordos Kangbashi ergueu arranha-céus vazios, bolha imobiliária e planos estatais...
Giro 10|Do R7
Nos últimos anos, a expressão cidades fantasmas tecnológicas passou a circular com frequência em reportagens sobre urbanização na Ásia, especialmente na China. O termo descreve distritos inteiros com infraestrutura de ponta, grandes avenidas, museus, pontes monumentais e bairros inteiros de prédios novos, mas com uma ocupação muito abaixo do esperado. Entre esses exemplos, o distrito de Ordos Kangbashi, na Região Autônoma da Mongólia Interior, tornou-se um caso emblemático para entender a combinação de ambição estatal, bolha imobiliária e planejamento urbano de longo prazo no século XXI.
Kangbashi foi projetada a partir dos anos 2000 para abrigar centenas de milhares de moradores, impulsionada pela riqueza do carvão e de outros recursos da região de Ordos. No entanto, as imagens que circularam durante a década de 2010 mostravam avenidas vazias, praças quase desertas e conjuntos residenciais recém-construídos com poucas janelas iluminadas à noite. Essa aparente contradição entre hipermodernidade e silêncio urbano alimentou debates internacionais sobre o modelo chinês de desenvolvimento, levantando questões sobre superinvestimento em infraestrutura, uso do setor imobiliário como motor de crescimento do PIB e estratégias de ocupação gradual.
O que são “cidades fantasmas tecnológicas” e por que Kangbashi virou símbolo?
O conceito de cidade fantasma tecnológica costuma ser aplicado a áreas urbanas planejadas com forte presença de arquitetura contemporânea, redes viárias amplas, sistemas de transporte modernos e equipamentos culturais de grande porte, mas cuja densidade populacional está bem abaixo da capacidade projetada. No caso de Ordos Kangbashi, o distrito foi pensado como nova centralidade administrativa e residencial, com previsão para receber entre 300 mil e 1 milhão de habitantes a longo prazo, dependendo da fonte consultada.
Por volta de 2010, estimativas apontavam que apenas uma fração dessa capacidade estava ocupada. Relatórios internacionais citavam números em torno de 20 a 30 mil moradores fixos, o que reforçava a percepção de “vazio”. Desde então, os dados mais recentes, até 2025, indicam aumento gradual na ocupação, com escolas, repartições públicas e parte do comércio em operação constante. Mesmo assim, a impressão de espaço subutilizado permanece, sobretudo em determinados bairros residenciais e zonas comerciais que ainda aguardam maior fluxo de pessoas, o que mantém Kangbashi no centro do debate sobre urbanização acelerada na China.

Por que o governo constrói cidades que parecem vazias?
Para entender o fenômeno em Kangbashi, é necessário observar o papel da construção civil e do mercado imobiliário no crescimento do PIB chinês durante as últimas duas décadas. Autoridades locais, empresas estatais e incorporadoras privadas investiram em larga escala em novos distritos urbanos como forma de:
Nesse contexto, Ordos Kangbashi tornou-se um laboratório de planejamento de longo prazo. O distrito foi erguido com a expectativa de atrair funcionários públicos, trabalhadores de empresas ligadas ao setor de energia e serviços associados. Porém, a combinação de preços elevados dos imóveis, volatilidade no mercado de carvão e mudanças na política de crédito reduziu o ritmo de ocupação. O resultado foi um ambiente arquitetonicamente sofisticado, mas parcialmente esvaziado, que expõe as tensões entre metas de crescimento econômico e dinâmica real da demanda habitacional.
Bolhas imobiliárias e o papel do setor de construção na economia chinesa
A expressão bolha imobiliária costuma aparecer associada a Kangbashi porque muitos apartamentos foram adquiridos como investimento, e não necessariamente para uso imediato. Em várias cidades chinesas, imóveis novos foram comprados por famílias e empresas como reserva de valor, em um cenário de crescimento acelerado dos preços. Em determinados períodos, parte desses ativos permaneceu desocupada, alimentando a imagem de bairros inteiros sem moradores.
Do ponto de vista macroeconômico, o setor imobiliário e de construção já respondeu, em alguns anos, por mais de um quarto da atividade econômica da China, considerando cadeias associadas como aço, cimento e móveis. Essa dependência criou incentivos para a manutenção de altos níveis de obras, mesmo quando a demanda efetiva parecia limitada. Em Ordos, o enriquecimento recente ligado à exploração de recursos naturais reforçou esse ciclo de investimentos, até que o recuo nos preços das commodities e o aperto no crédito expuseram os riscos do modelo.
Em 2023 e 2024, com a desaceleração global e o aumento da vigilância regulatória sobre grandes incorporadoras, autoridades chinesas passaram a enfatizar que “casas são para morar, não para especular”, sinalizando um esforço para conter excessos do passado. Ainda assim, distritos como Kangbashi, com sua infraestrutura quase completa, continuam a revelar os efeitos de um período em que o crescimento rápido era prioridade central.
Como é o contraste entre a arquitetura futurista e o silêncio das ruas?
Ao caminhar por Ordos Kangbashi, observadores descrevem grandes praças ladeadas por esculturas monumentais, museus de design arrojado, edifícios administrativos com fachadas de vidro e conjuntos residenciais em estilo contemporâneo. As avenidas largas, projetadas para acomodar intenso fluxo de veículos, muitas vezes registram trânsito modesto fora dos horários de pico. Esse cenário cria um contraste marcante entre o escala grandiosa da infraestrutura e a quantidade relativamente pequena de pedestres e carros.
Fotografias recentes mostram, por exemplo, o famoso teatro em formato escultural ao lado de áreas verdes bem cuidadas, mas com poucas pessoas circulando em determinados períodos do dia. A presença de escolas em funcionamento, linhas de ônibus e serviços públicos indica que o distrito está longe de estar abandonado, mas a sensação de “sobra de espaço” é recorrente, especialmente quando comparada a metrópoles chinesas tradicionais, conhecidas pela alta densidade e por calçadas cheias.

Qual é a situação atual de ocupação de Ordos Kangbashi?
Do ponto de vista demográfico, estimativas até 2025 indicam que a população residente de Kangbashi cresceu em relação à década anterior, acompanhando o esforço gradual de transferência de órgãos públicos e serviços para o distrito. Famílias ligadas ao funcionalismo, trabalhadores do setor de energia e profissionais de educação e saúde passaram a se estabelecer na região, preenchendo parte dos conjuntos habitacionais.
Mesmo com esse avanço, especialistas em urbanismo apontam que a densidade populacional continua inferior à capacidade instalada. Isso significa que muitos prédios ainda têm grande número de unidades vazias ou usadas de forma esporádica. Em algumas quadras, lojas permanecem fechadas ou mudam de proprietário com frequência, o que evidencia os desafios de criar uma vida urbana intensa apenas por meio da construção física do espaço.
O distrito de Ordos Kangbashi, assim como outras chamadas cidades fantasmas tecnológicas, funciona hoje como um observatório dos limites do desenvolvimento orientado por metas de investimento e expansão territorial. Em vez de um cenário de ficção, esses espaços traduzem questões bem concretas: até que ponto a infraestrutura pode antecipar a demanda? Como equilibrar crescimento do PIB, estabilidade social e planejamento urbano sustentável? As respostas ainda estão em construção, assim como as próprias ruas de Kangbashi, que seguem esperando por mais moradores, negócios e rotinas cotidianas para ocupar o palco arquitetônico já montado.














