Acordo de Trump para diesel russo gera indignação na Ucrânia e dúvidas entre analistas
Presidente americano disse que Putin concordou em ‘fornecer imediatamente’ mais de 300 mil toneladas de diesel
Internacional|Kevin Liptak, David Goldman, Matt Egan e Ivana Kottasová, da CNN Internacional
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O presidente Donald Trump afirmou nesta sexta-feira (9) que garantiu um acordo com o presidente russo, Vladimir Putin, para abastecer os mercados com diesel russo, enquanto tenta reduzir os custos de energia antes das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos.
Analistas do setor energético, porém, afirmam que o acordo — que provocou indignação na Ucrânia — dificilmente reduzirá os preços do diesel de forma significativa.
Trump escreveu nas redes sociais que Putin concordou em “fornecer imediatamente” mais de 300 mil toneladas de diesel aos mercados globais de energia, com outras 500 mil toneladas prometidas para novembro. Juntos, os volumes — equivalentes a 6 milhões de barris de diesel — cobririam cerca de um dia e meio da demanda dos Estados Unidos, segundo a Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA).
Trump disse que milhões de toneladas adicionais de diesel russo seriam fornecidas após os primeiros carregamentos, “dependendo da condição das refinarias de diesel” da Rússia.
“Estamos falando de TALVEZ um aumento de 5% a 6% na oferta entre agora e o fim do ano”, disse Dan Pickering, fundador e diretor de investimentos da Pickering Energy Partners, em um e-mail sobre o anúncio do presidente.
“A conclusão é que isso ajuda, mas não muda o jogo no mercado global de diesel”, afirmou Pickering. “Como observação, existe um motivo para Trump ter falado em toneladas, e não em barris. O número em toneladas parece maior para o observador comum. Isso tem mais a ver com política do que com uma mudança decisiva.”
A Rússia proibiu as exportações de diesel no início de julho, depois que ataques de drones ucranianos contra refinarias provocaram escassez generalizada de combustível no país. A medida retirou cerca de 800 mil barris por dia do mercado global, em um momento em que a oferta já estava apertada por causa da guerra dos Estados Unidos contra o Irã.
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A proibição foi prorrogada no mês passado, aumentando ainda mais as pressões sobre os custos de energia.
Segundo o relato do Kremlin sobre a conversa telefônica entre os dois líderes, Putin disse a Trump que a Rússia estava “pronta para fornecer petróleo e derivados aos Estados Unidos e aos mercados globais”.
“Tenho confiança de que isso terá um impacto positivo sobre toda a economia mundial”, disse Putin, segundo o Kremlin.
Trump ecoou a declaração mais tarde, dizendo a jornalistas na Casa Branca que “os preços do petróleo já estão caindo como uma pedra. Estamos muito satisfeitos com isso”.
Mas analistas — e operadores de commodities — levantaram dúvidas sobre a capacidade da Rússia de cumprir a promessa.
No fechamento dos mercados nesta sexta-feira, os contratos futuros de diesel praticamente não reagiram ao anúncio, registrando queda de cerca de 4%.
O anúncio de Trump também foi recebido com revolta na Ucrânia. Kiev há muito defende sanções mais duras contra as exportações de energia da Rússia, argumentando que as receitas de petróleo e gás são uma importante fonte de financiamento da máquina de guerra russa.
A Ucrânia também intensificou seus ataques à infraestrutura petrolífera russa nos últimos meses e se recusou a interrompê-los, apesar dos pedidos de Trump. Apenas nesta semana, Kiev afirmou ter atingido quatro refinarias em diferentes regiões da Rússia.
O presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, classificou a decisão de permitir as exportações de diesel russo como “uma decisão fraca de parceiros fortes”.
“Isso significa mais dinheiro para esta guerra, mais sofrimento e, claro, contra nós. Isso apenas fortalece Putin e lhe dá a possibilidade de continuar lutando”, escreveu nas redes sociais.
Os últimos meses têm sido especialmente mortais para civis ucranianos, enquanto a Rússia aproveita a escassez crítica de mísseis de defesa aérea de Kiev para lançar ataques aéreos quase ininterruptos contra cidades do país. Um desses bombardeios, contra um ponto de ônibus no leste da Ucrânia, matou mais de 30 pessoas na quinta-feira.
Zelensky deixou claro que o momento do anúncio torna a situação ainda mais dolorosa para Kiev, já que ocorre justamente quando uma delegação ucraniana de alto nível chegou a Miami para conversas com o enviado americano Steve Witkoff e Jared Kushner, genro de Trump.
“Exatamente no momento em que nossa equipe conversa com a equipe americana na Flórida, o presidente dos Estados Unidos fala com o líder do Kremlin, o líder desta guerra, o líder desta agressão”, afirmou.
Trump tem buscado formas de reduzir custos, incluindo a suspensão temporária de restrições sobre o diesel tingido de vermelho usado em equipamentos agrícolas.
Durante a ligação com Putin, Trump não mencionou a morte ainda sem explicação de um pesquisador de um laboratório que estudava a peste bubônica.
Em vez disso, o presidente dos EUA concentrou-se exclusivamente no abastecimento de diesel, tema que preocupa os republicanos devido ao impacto dos preços mais altos da energia sobre outros custos da economia.
“Entre nosso CONTROLE TOTAL do estreito de Ormuz e este grande anúncio sobre a energia russa, os preços do diesel para os americanos e, de fato, para o mundo, vão CAIR, EM NÍVEIS RECORDE, E RAPIDAMENTE!”, escreveu Trump.
Analistas do setor rapidamente contestaram essa afirmação.
“Mesmo supondo que isso aconteça e Putin cumpra a promessa — o que significaria reverter a proibição das exportações de diesel vigente há vários meses —, isso seria apenas um paliativo, nada mais”, afirmou Gregory Brew, analista da equipe de Energia, Clima e Recursos do Eurasia Group, em um e-mail.
“Também tenho uma forte suspeita de que Putin espera que a Ucrânia interrompa os ataques às refinarias em troca do favor que estaria fazendo a Trump. Tenho dificuldade em imaginar Zelensky cooperando nesse ponto”, acrescentou Brew.
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