‘Alguém investigou o histórico dela?’: Como Trump perdeu a confiança em Katie Zacharia como secretária de imprensa em apenas cinco dias
Katie Zacharia deixa o cargo após estreia desastrosa, desgaste interno e controvérsia sobre seu histórico profissional
Internacional|Kristen Holmes, Alayna Treene e Kevin Liptak, da CNN Internacional
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Instalado para um voo de sete horas pelo país nesta semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não deu muitos sinais de que havia algo errado.
A estreia turbulenta de sua nova secretária de imprensa no púlpito da Casa Branca, que durou apenas 14 minutos, vinha recebendo avaliações bastante negativas. Uma hora depois, ela deu uma resposta desconcertante ao ser questionada sobre onde havia sido aprovada no exame da Ordem dos Advogados. Seus próprios assessores assistiram a tudo com certo horror.
Trump, porém, disse a Katie Zacharia durante o voo para o Alasca que ela havia se saído bem, segundo uma fonte familiarizada com a conversa. Era a primeira vez dela a bordo do Air Force One.
Três dias e uma avalanche de escrutínio depois, Zacharia foi demitida do cargo, encerrando abruptamente o mandato mais curto de que se tem memória para um secretário de imprensa da Casa Branca. Os planos de se mudar da Califórnia para Washington com a família foram suspensos. Tudo isso foi, segundo vários conselheiros de Trump, um verdadeiro fracasso.
“Eu disse: ‘Katie, isso é para você mesmo?’”, afirmou Trump nesta sexta-feira (16), depois de demiti-la. “Porque, sinceramente, você não precisa passar por isso.”
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Todo o episódio evidenciou o clima de instabilidade que tomou conta do círculo mais próximo de Trump a menos de três semanas das eleições legislativas de meio de mandato. A contratação repentina e a demissão igualmente rápida de Zacharia foram resultado do impulso de Trump de nomear uma defensora leal vista frequentemente na televisão, por quem havia desenvolvido certa simpatia à distância, sem pensar muito sobre as demais exigências do cargo.
Em comunicado enviado para esta reportagem, o diretor de comunicações da Casa Branca, Steven Cheung, disse:
“Todas essas especulações exageradas são apenas isso: especulações. E uma ficção nada criativa. O fato é que Katie assumiu um cargo muito importante e continuará apoiando o presidente enquanto faz a transição para uma nova função. Ela é uma colega extraordinária e um talento excepcional.”
A CNN procurou Zacharia para comentar o caso.
Alguns assessores de Trump acompanharam seu breve período no cargo com constrangimento, questionando como uma das posições mais visíveis e desejadas do governo poderia ter sido entregue a alguém com tão pouca experiência ou confiança para exercê-la.
“O que diabos está acontecendo lá?”, perguntou um conselheiro de Trump, incrédulo, depois de assistir à primeira coletiva da recém-nomeada secretária.
Segundo vários assessores, a nova porta-voz parecia lamentavelmente despreparada e não possuía habilidades básicas para desempenhar a função.
“Alguém verificou o histórico dela?”, questionou um deles.
A resposta curta, ao que tudo indica, era não, segundo vários funcionários e conselheiros da Casa Branca.
Sua escolha ocorreu em meio à crescente frustração de Trump, que, um mês antes das eleições, sentia falta de vozes públicas defendendo-o diante da cobertura constante sobre as perspectivas cada vez mais fracas dos republicanos nas urnas.
Até então, o presidente não demonstrava grande urgência em preencher o cargo deixado por Karoline Leavitt no fim do verão. Assessores e aliados sugeriram diversos nomes, mas nenhum despertou interesse real de Trump. Autoridades da Casa Branca já aceitavam a possibilidade de passar pelas eleições sem um porta-voz oficial.
Mas o agravamento dos problemas políticos dos republicanos e o fato de Trump estar sendo responsabilizado por eles pareceram acelerar a busca. Depois de semanas sem sucesso para encontrar um substituto para Leavitt, Trump passou a insistir repentinamente na contratação, reclamando a auxiliares que não tinha ninguém defendendo sua mensagem.
Nesse contexto surgiu Zacharia: presença constante na TV a cabo, defensora apaixonada do presidente e frequentemente apresentada como advogada. “E a Katie?”, perguntou Trump a assessores, incluindo a chefe de gabinete Susie Wiles. O presidente também consultou Leavitt.
Apenas uma semana antes, Zacharia sequer estava sendo considerada para o cargo. Durante todo o processo de seleção, a Casa Branca enfrentou dificuldades com candidatos mais conhecidos, vários dos quais haviam criticado Trump no passado. Em diversas ocasiões, autoridades reduziam a lista de candidatos apenas para descobrir declarações negativas sobre o presidente, o que os eliminava da disputa.
O histórico de Zacharia era “impecável”, diria Trump mais tarde. Entre seus apoiadores na Ala Oeste estava Natalie Harp, assessora extremamente leal ao presidente, que o acompanha em praticamente todas as viagens.
Na quarta-feira da semana passada, autoridades organizaram uma ligação telefônica entre Zacharia e Trump. No dia seguinte, ela voou para Washington. Na sexta-feira, já estava no Salão Oval.
Durante a conversa, da qual Susie Wiles não participou, Trump ofereceu espontaneamente o cargo a Zacharia. Auxiliares correram para informar a chefe de gabinete sobre a decisão.
“Recebi uma ligação maravilhosa do principal recrutador de talentos, o próprio presidente, e parece que ser uma grande defensora de todas as suas políticas realmente funciona”, disse Zacharia em entrevista à Fox News na sexta-feira à noite.
A entrevista foi ao ar ao mesmo tempo em que Trump discursava em um comício em Syracuse, Nova York. Para veteranos do entorno de Trump, esse foi o primeiro sinal de problema. Competir por atenção com eventos do presidente sempre foi considerado uma gafe para subordinados, incluindo integrantes do gabinete.
Se Trump percebeu, não demonstrou. Na noite de domingo, anunciou que Zacharia realizaria sua primeira coletiva “introdutória” na manhã de terça-feira.
Após mais um voo entre Washington e Califórnia, Zacharia acordou às 3h da manhã de terça para se preparar. Seus materiais só ficaram prontos cerca de 90 minutos antes de entrar na sala de imprensa.
A falta de preparação ficou evidente.
Sua apresentação inicial foi hesitante, mesmo lendo um texto pronto elogiando os feitos de Trump.
“Algumas pessoas têm o perfil necessário e outras não”, afirmou um alto funcionário do governo. “Ela não tem. Não conseguiu dominar a sala.”
Quando chegaram as perguntas, não soube responder se os Estados Unidos haviam interrompido o compartilhamento de inteligência com a Ucrânia, tema que poderia ter sido facilmente previsto.
Ela anunciou, porém, que Kimberly Guilfoyle havia sido convidada a deixar o cargo de embaixadora na Grécia. Mais tarde, usou isso como exemplo do sucesso de sua coletiva.
“Acho que sou uma das primeiras secretárias de imprensa a anunciar mudanças de pessoal no governo”, disse ela no fim da semana, quando seu futuro já parecia cada vez mais incerto. “E fiquei honrada por o presidente Trump confiar em mim para transmitir essa informação.”
No fim das contas, essa seria praticamente a única informação relevante divulgada durante sua passagem pela função.
Embora Trump inicialmente não tenha considerado sua atuação tão ruim, ele acabou ficando constrangido com a repercussão negativa.
Outros sinais de inexperiência também surgiram. Durante a viagem ao Alasca, Zacharia informou a integrantes da Casa Branca que havia marcado uma entrevista de Trump com um repórter da Fox News após o comício.
Mas logo foi alertada de que o presidente não gostava de conceder entrevistas depois de seus eventos, especialmente após passar duas horas no palco. Essa preferência era amplamente conhecida por sua equipe.
Zacharia insistiu que seria uma boa ideia e que o jornalista era seu amigo.
Quando Trump deixou o palco e se preparava para partir, ela o informou sobre o plano. O presidente ficou visivelmente irritado e disse que não faria a entrevista. No fim, acabou concordando, mas o episódio reforçou entre os auxiliares a impressão de que Zacharia ainda não compreendia o homem para quem trabalhava.
Quando Trump consultou assessores graduados sobre seu desempenho, Zacharia encontrou poucos defensores dispostos a apoiá-la.
Embora muitos desses auxiliares a elogiassem pessoalmente, admitiam em conversas reservadas que ela não estava indo bem.
Nesta semana, Trump comentou com aliados que talvez ela “não estivesse pronta para o horário nobre”.
Enquanto cresciam os questionamentos sobre suas credenciais jurídicas, surgiu uma nova crise: embora se apresentasse como advogada, não havia provas públicas de que tivesse sido aprovada no exame da Ordem. O Wall Street Journal informou que ela havia sido reprovada.
Posteriormente, Zacharia confirmou a informação, alegando que lhe disseram que poderia se apresentar como “lawyer” (profissional do Direito), ainda que não como “attorney” (advogada habilitada a atuar legalmente).
Na prática, ela também havia compartilhado diversas publicações em redes sociais que a identificavam como “attorney”.
Sua defesa pública acabou fortalecendo a percepção de que estava perdida diante da situação e incapaz de controlar uma narrativa cada vez mais negativa.
Após uma série de entrevistas surpreendentemente tensas na Fox News, especialmente sua participação no programa de Sean Hannity na quinta-feira à noite, quando foi pressionada sobre suas credenciais jurídicas, Trump concluiu que sua permanência no cargo era insustentável.
Mas apenas na manhã de sexta-feira ele lhe comunicou a decisão.
Até mesmo em uma nova entrevista à Fox, Zacharia afirmou acreditar que ainda contava com a confiança do presidente.
“Estou aqui de pé”, declarou.
Ao retornar para a Casa Branca, disse aos jornalistas reunidos que estava ansiosa para trabalhar com eles e os incentivou a procurar seu número de telefone.
Quatro horas depois, Trump apareceu na Casa Branca após uma conversa franca com sua porta-voz.
“Sinceramente, se eu fosse você, reconsideraria”, contou Trump ter dito a Zacharia naquela manhã.
Uma fonte próxima ao presidente afirmou à CNN que Trump ainda respeita e gosta de Zacharia como pessoa, destacando que ela e sua família teriam um jantar com o vice-presidente JD Vance em sua residência, um sinal de que continua bem-vista dentro da Casa Branca e do governo.
Ainda assim, Trump volta a ficar sem um porta-voz principal justamente na reta final antes do dia da eleição. Nesta sexta-feira, ele não deu qualquer indicação de quem pode assumir o cargo.
“Muita gente quer esse emprego”, afirmou, enquanto a busca recomeça.
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