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Conheça a trágica morte de uma mulher que testemunhou contra seu pai mafioso após o assassinato de sua mãe

Denise Cosco morreu ao cair de um apartamento, e promotores investigam possível envolvimento da máfia

Internacional|Barbie Latza Nadeau, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Denise Cosco identificou o corpo da mãe, Lea Garofalo, assassinada pelo pai Carlo Cosco, através de um colar.
  • Lea Garofalo testemunhou contra o marido, Carlo, sobre o tráfico de drogas pela máfia 'Ndrangheta, levando à sua morte em 2009.
  • Denise e Lea viveram sob proteção a testemunhas, mas deixaram o programa frustradas com a falta de apoio do Estado italiano.
  • A morte de Denise, considerada um possível suicídio, levantou questões sobre a segurança e apoio a testemunhas contra a máfia na Itália.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Morte de Denise gerou debate sobre a eficácia do programa de proteção a testemunhas na Itália Emanuele Cremaschi/Getty Images via CNN Newsource

Foi um colar que ajudou Denise Cosco a identificar a mãe depois que ela foi assassinada pelo seu pai e namorado.

Cosco, o pai dela, Carlo, e a mãe, Lea Garofalo, viajaram de férias juntos em novembro de 2009 no que ela acreditava ser uma chance de reconciliação, depois que Lea testemunhou perante as autoridades sobre o tráfico de drogas praticado pelo marido para a organização criminosa ‘Ndrangheta, da Calábria.

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Mas Carlo não estava disposto a perdoar. Levaria mais três anos até que o corpo de Lea fosse descoberto.

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“Quando me mostraram o colar entre os restos dos ossos carbonizados dela, soube imediatamente que era dela e que ela havia dado a vida para me salvar”, disse Cosco mais tarde. “Nunca poderei agradecê-la por isso.”

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Assim como a mãe, Cosco passou anos escondida sob o programa de proteção a testemunhas da Itália como consequência de ter testemunhado contra a máfia. Ambas deixaram o programa frustradas com o Estado italiano.

E as conexões entre elas não pararam por aí. De forma ainda mais trágica, Lea tinha 35 anos quando morreu — a mesma idade de Denise quando caiu para a morte do apartamento que dividia com o marido e o filho de quatro anos em Roma, no início deste mês.

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Agora, os promotores tentam determinar se a máfia esteve por trás da morte dela ao “incitar” o aparente suicídio. Ela não deixou nenhum bilhete para explicar seu estado de espírito.

O caso provocou um debate renovado na Itália sobre a segurança daqueles que entram no programa estatal de testemunhas contra facções mafiosas e sobre o fardo físico e psicológico que recai sobre qualquer um que ouse desafiar o código de silêncio da máfia.

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‘Você me deu forças’

Cosco passou seis anos vivendo sob uma identidade fictícia criada para ela pelo Estado italiano após testemunhar contra o pai e o então namorado, Carmine Venturino, pelo sequestro, tortura, esquartejamento e assassinato de sua mãe em novembro de 2009.

Ambos foram condenados à prisão perpétua, embora a pena de Venturino tenha sido reduzida posteriormente.

O assassinato de Lea Garofalo foi considerado uma vingança depois de ela testemunhar contra o marido, o irmão e outros comparsas a respeito do suposto envolvimento deles com o tráfico de drogas em Milão.

O depoimento dela, motivado pelo desejo de proteger a filha de crescer em uma família mafiosa, transformou-a em uma das mais celebradas “vira-casacas” da Itália, ou testemunhas do Estado que colaboram com as autoridades contra o crime organizado.

Desde o assassinato, ruas, parques e escolas receberam o nome dela em reconhecimento à sua coragem.

Os restos mortais de Garofalo foram encontrados depois que Venturino admitiu o envolvimento no assassinato e na ocultação e queima do corpo, apontando finalmente às autoridades o local do esconderijo.

No funeral da mãe, em outubro de 2013, Cosco, então com 22 anos, falou, protegida por um vidro à prova de balas, e agradeceu à mãe. “Este é um dia muito difícil para mim, mas você me deu forças”, disse sobre a mãe. “Nunca vou parar de lhe agradecer.”

Garofalo e Cosco estavam entre as pouquíssimas mulheres que escolheram – ou conseguiram – escapar das famílias criminosas, ainda que com resultados indiscutivelmente devastadores.

Cerca de 6.000 pessoas estão inscritas no programa de proteção a testemunhas da Itália, segundo o Ministério do Interior italiano, mas muitas enfrentam dificuldades para continuar protegidas.

A promotora antimáfia Alessandra Cerreti, que convenceu dezenas de mulheres a testemunharem contra famílias do crime em várias organizações criminosas da Itália, admite que os riscos são altos.

Pela legislação italiana, os investigadores têm 180 dias para trabalhar com potenciais colaboradores para determinar se estão dizendo a verdade ou se, na verdade, ainda permanecem fiéis às suas famílias criminosas.

“Temos um período curto para compreender toda a situação”, disse Cerreti à CNN Internacional, acrescentando que frequentemente há restrições orçamentárias e falta de testemunhas que corroborem as declarações, sobretudo logo depois que alguém foge da família mafiosa.

Se forem aceitos no programa, a proteção é reavaliada a cada quatro anos para verificar se o colaborador ainda coopera, se voltou para a família mafiosa ou se simplesmente desapareceu.

Os colaboradores recebem um local para morar, uma identidade falsa, um emprego e um histórico de vida que possa ser confirmado caso alguém investigue, mas vivem com pouquíssimo dinheiro e raramente se sentem seguros, disse Cerreti.

Garofalo, que escondeu a filha em conventos e pequenas cidades da Itália até deixar a proteção a testemunhas em 2009 – ano em que foi assassinada –, citou como motivos para sua saída as “dificuldades financeiras” e a “ameaça constante de ter a proteção retirada”, porque o Estado não conseguiu corroborar nenhuma das alegações de seu depoimento devido à falta de outras testemunhas.

Pela legislação italiana, caso o depoimento de um colaborador não possa ser corroborado ou se não houver mais percepção de ameaça, o Estado retira a proteção.

“Se tivéssemos mais tempo, poderíamos proteger melhor aqueles que decidem falar, o que tornaria mais fácil para outros fazerem o mesmo”, disse Cerreti. “Mas muitas vezes parece tão arriscado fugir quanto permanecer.”

‘A máfia mata de muitas maneiras’

O marido de Cosco estava em casa no momento em que ela caiu da janela e foi interrogado, mas não é considerado suspeito.

Não está claro se ele sequer sabia que ela estava sob o programa de proteção a testemunhas.

Ela só foi identificada publicamente como Denise Cosco pelas autoridades após falecer em 10 de setembro, depois de passar quatro dias no hospital.

O pai dela, falando por meio do advogado direto da prisão, afirmou que os dois haviam começado a se reconciliar, segundo noticiou a imprensa italiana, mas nenhum detalhe sobre o significado disso veio à tona até o momento.

Uma investigação criminal foi instaurada e os telefones e aparelhos eletrônicos de Cosco foram apreendidos para averiguar se ela vinha sofrendo ameaças de pessoas ligadas ao assassinato da mãe ou se a pressão, a culpa e a tristeza de sua vida conturbada haviam se tornado insuportáveis.

A advogada dela, Enza Rando, que a auxiliou a testemunhar contra o pai e o namorado em 2009, declarou à CNN Internacional que o Estado também tem culpa por não oferecer proteção e apoio suficientes para aqueles que confrontam grupos criminosos.

“A máfia mata de muitas maneiras. Ela mata criando verdadeiros monstros na vida daqueles que são deixados para trás”, afirmou Rando.

A morte de Cosco abalou os investigadores antimáfia. O procurador da República de Nápoles, Nicola Gratteri, que retirou centenas de informantes do Estado do convívio com suas famílias criminosas para colaborar com a Justiça, disse a repórteres que a morte dela representou um retrocesso na luta contra o crime organizado e pode dificultar ainda mais o surgimento de novos depoimentos.

O fato também abalou aqueles que vivem sob proteção. Giuseppe Carini, que vive sob identidade fictícia por ser testemunha no assassinato de um padre católico que pregava contra a Cosa Nostra siciliana em 1993, escreveu em carta aberta divulgada por seu advogado que Cosco foi desamparada pelos “mais altos escalões do Estado e do governo”.

“Dizem que testemunhas da Justiça são pessoas corajosas, que Lea e Denise foram mulheres corajosas e que, por isso, jamais morrerão, mas nós não queremos lápides ou epitáfios entalhados em mármore. Testemunhas da Justiça têm o direito sagrado de viver e de ter uma vida normal”, desabafou.

Após a morte de Cosco, a tia dela, Marisa Garofalo, publicou uma foto em que Denise segurava uma camiseta estampada com o nome da falecida mãe.

Como vivia sob identidade falsa no momento de sua morte, apenas os familiares mais próximos sabiam como Cosco era fisicamente. “Agora posso mostrar seus belos olhos”, escreveu a tia.

“Ninguém mais poderá decidir por você, você não terá mais que se esconder.”

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