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Crise argentina ameaça o churrasco, um dos rituais sagrados do país

A inflação acelerada pela recessão encareceu a carne de tal maneira que o típico assado está desaparecendo das casas argentinas

Internacional|Da EFE

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Anúncio de açougue em Buenos Aires: carne ficou muito cara para os argentinos
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A recessão que assola a Argentina impactou o dia a dia de sua população em muitos níveis, entre eles a capacidade de saciar seu apetite carnívoro, já que o preço da carne se transformou em um obstáculo para a celebração de um dos rituais mais sagrados do país: o churrasco.

A carne bovina argentina, que goza de grande fama internacional por sua qualidade, tem um custo cada vez mais proibitivo para os moradores do país devido à enorme inflação que assola sua economia, principalmente desde abril de 2018.

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Neste cenário, as reuniões ao redor da churrasqueira em uma refeição familiar ou na varanda de um amigo para conversar e degustar os cortes típicos da iguaria não conseguiram escapar do 'terremoto' econômico.

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"A proporção da venda de carne de churrasco diminuiu muito. Se antes (os argentinos) comiam um churrasco todos os finais de semana, agora vão comer a cada mês ou dois meses, o que for possível", afirmou à Agência Efe Alberto Williams, presidente da Associação de Proprietários de Açougues de Buenos Aires.

Aumento de quase 70% no preço

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Segundo a pesquisa de supermercados de maio do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) da Argentina, o custo da carne em relação ao mesmo período do ano anterior aumentou 67,1%, o que o transforma no grupo alimentício que mais encareceu.

Crise argentina fez preço da carne aumentar quase 70%
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Para entender a magnitude deste número, nesse mesmo intervalo de tempo o salário da população só aumentou 38,5%, uma perda de poder aquisitivo que lhe afasta de uma experiência que vai além do seu valor nutricional.

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"É uma refeição que envolve uma reunião social quase que essencialmente. De fato, me lembro que uma vez fiz um churrasco só pra mim e me senti culpado", declarou à Efe Diego Díaz, antropólogo especializado em alimentação.

Para Díaz, existe uma necessidade de estar com outras pessoas e compartilhar "não só um pedaço de carne, mas experiências, sentimentos, ideias, discussões, debates, risos e brincadeiras".

"Isso foi incorporado ao acervo cultural. É, de algum modo, como o tango, o mate e o futebol", descreveu.

Consumo de carne caiu 9,2% na Argentina

O relatório de junho da Câmara de Indústria e Comércio de Carnes e Derivados da República Argentina (Ciccra) indica que, em um período de 12 meses, o consumo interno de carne bovina passou de 58,2 quilos ao ano per capita a 52,9 quilos, 9,2% a menos.

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Com esta conjuntura, os argentinos estão começando a ampliar seus "alvos" e a saciar seus instintos carnívoros com outros tipos de animais.

"Hoje na Argentina já não há exclusivamente carne bovina em uma grelha. Normalmente há carne bovina, suína e até mesmo frango, não é mais um churrasco de uma só carne", detalhou Miguel Schiaritti, presidente da Ciccra.

Williams ressaltou que outra estratégia que seus clientes seguem para não privar-se do churrasco é optar pelos cortes mais econômicos e pelos que "rendem mais", enquanto pensam duas vezes na hora de escolher peças tradicionais que têm mais gordura ou ossos.

Carne argentina vai para a China

Argentinos diminuíram frequência do churrasco; carne vai parar na China
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Para escapar desta queda do consumo, a indústria de carne se apoia nas vendas internacionais e, concretamente, no mercado chinês, receptor de 7 de cada 10 quilos de produto exportado.

Desde que a Ciccra tem registros (em 1996), a balança comercial do primeiro semestre do ano nunca tinha ficado tão inclinada para a exportação, com 22,9% da produção bovina total destinada ao consumo externo.

"Se as exportações continuarem aumentando de maneira significativa e, ao invés de 20%, serem de 40%, seguramente haverá algum efeito sobre o mercado interno", advertiu o presidente da câmara industrial.

Assim surge a ameaça de um possível empecilho a mais para que os argentinos desfrutem de um dos seus rituais mais tradicionais, enquanto o país vive sua particular época de vacas magras.

"Do ponto de vista nutricional, o assunto nem chega perto de ser grave. Não se trata disso, é mais uma questão de orgulho cultural, é quase como ser desclassificado nas oitavas de final de uma Copa do Mundo", exemplificou Diego Díaz.

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