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Entenda por que não há uma vacina ou tratamento para ajudar no surto de ebola na RDC

Pesquisas estão em andamento para desenvolver vacinas específicas para a cepa Bundibugyo

Internacional|Meg Tirrell, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O surto de Ebola na RDC é o terceiro maior registrado, causado pela cepa Bundibugyo, com histórico de surtos anteriores em 2012 e 2007.
  • A vacina Ervebo, eficaz contra a cepa Zaire, não possui evidências suficientes de proteção contra a cepa Bundibugyo, necessitando de mais estudos.
  • Novas vacinas estão em desenvolvimento, incluindo uma experimental direcionada para Bundibugyo, mas ainda requerem testes clínicos em humanos.
  • Tratamentos como o remdesivir e coquetéis de anticorpos estão sendo considerados, mas enfrentam desafios logísticos na RDC.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Tratamentos antivirais, como remdesivir e coquetéis de anticorpos, podem ser considerados Jospin Mwisha/AFP/Getty Images via CNN Newsource

O surto de ebola em rápido crescimento na RDC (República Democrática do Congo) chamou a atenção do mundo há apenas pouco mais de uma semana e já é o terceiro maior registrado.

Mas é o 17º surto com o qual o país lida desde que o vírus foi descoberto lá em 1976.


O ebola pode ser fatal em 25% a 90% das pessoas infectadas. Os cientistas estão agora correndo para desenvolver novas vacinas e tratamentos potenciais que possam ajudar a conter este surto, mas as autoridades enfatizam que, atualmente, não há nenhum aprovado. Por quê?

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Um vírus menos comum

O surto atual é causado pela cepa Bundibugyo do ebola, que também esteve associada a dois surtos anteriores.


Um em 2012 na RDC teve 38 casos confirmados em laboratório e 13 mortes, e um em 2007 ao longo da fronteira entre a RDC e Uganda teve 131 casos notificados e 42 mortes.

As infecções por ebola são muito mais comumente causadas pela cepa Zaire, que impulsionou os maiores surtos da história: um de 2014 a 2016 na África Ocidental e outro na RDC de 2018 a 2020.


Esses mataram mais de 11.000 e mais de 3.000 pessoas, respectivamente.

Uma vacina foi desenvolvida durante o surto na África Ocidental e testada com sucesso em 2015. Chamada Ervebo, ela foi aprovada pela FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA) em 2019 e foi liberada em vários países da Europa e da África.


Mas esse trabalho não se estendeu a outros tipos de ebola.

A vacina existente poderia ser usada para este surto?

Isso tem sido considerado, de acordo com a Dra. Anne Ancia, representante da OMS (Organização Mundial da Saúde) na RDC.

Mas há informações limitadas sobre o quão bem a vacina direcionada à cepa Zaire protegeria contra a cepa Bundibugyo, bem como incógnitas sobre sua segurança.

“Estou feliz por não ser um médico que tem que tomar essa decisão”, disse o Dr. Thomas Geisbert, professor do Departamento de Microbiologia e Imunologia da Unidade Médica da Universidade do Texas, que pesquisa intervenções para o ebola e vírus semelhantes.

Ele e outros mostraram em 2011 que uma vacina semelhante à Ervebo ofereceu proteção contra a Bundibugyo em macacos, mas foi um teste pequeno, usando apenas quatro animais por razões éticas e financeiras, disse ele à CNN Internacional.

Eles deram aos macacos a vacina direcionada à cepa Zaire e, 28 dias depois, os desafiaram com o vírus Bundibugyo. Três dos quatro ficaram protegidos.

“É encorajador”, disse Geisbert. Mas os modelos sugerem que o vírus Bundibugyo pode ser menos letal do que o Zaire e, em macacos, 25% podem sobreviver sem vacinação.

Portanto, ele estima que os dados limitados disponíveis sugerem que a vacina direcionada à cepa Zaire poderia fornecer talvez 50% de proteção contra o vírus Bundibugyo, mas estudos maiores são necessários.

E a segurança de usar essa vacina no surto atual é “a pergunta de US$ 64.000 (cerca de R$ 323 mil, na cotação atual). Se você correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come, certo?”, disse Geisbert.

Uma preocupação é que uma vacina que desvie a atenção do sistema imunológico para um tipo diferente de ebola possa interferir em sua resposta caso ele já tenha sido exposto ao Bundibugyo, disse ele. “Você não quer piorar as coisas.”

A cientista-chefe da OMS, Dra. Sylvie Briand, disse na sexta-feira (22) que, como há “muito pouca evidência de proteção cruzada para o Bundibugyo”, a Ervebo não é considerada a principal escolha para uma abordagem de vacina.

A Merck, fabricante da Ervebo, disse que forneceu mais de 500.000 doses nos últimos cinco anos para um estoque global de vacinas contra o ebola, e que trabalharia com o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e com o Grupo de Coordenação Internacional em Provisão de Vacinas para continuar mantendo o estoque.

A empresa também disse que poderia produzir mais doses se for decidido que a Ervebo deve ser implantada no surto atual.

E quanto a novas vacinas?

Tanto a pandemia de Covid-19 quanto a epidemia de ebola de 2014 na África Ocidental provaram que o mundo pode desenvolver vacinas em cronogramas acelerados em emergências. Esse trabalho também está em andamento agora.

A abordagem mais promissora é uma vacina experimental semelhante à Ervebo, mas direcionada para a Bundibugyo, disse o Dr. Vasee Moorthy, conselheiro sênior da OMS que supervisiona um plano de pesquisa e desenvolvimento.

A vacina entrega uma proteína do vírus ebola usando outro vírus – o vírus da estomatite vesicular – para ensinar o sistema imunológico a reconhecê-lo. Geisbert disse que também mostrou resultados encorajadores com essa abordagem para o Bundibugyo em primatas não humanos, descobrindo que uma dose da vacina experimental, com um desafio com o vírus 28 dias depois, forneceu “proteção completa; os animais nem sequer ficam doentes”.

Geisbert também disse que a vacina funcionou em animais como um tratamento pós-exposição, semelhante à forma como a vacina contra a raiva é usada.

O problema é que o material de grau clínico para testes em humanos ainda não está disponível e deve levar de seis a nove meses, disse Moorthy em uma coletiva na quarta-feira (20).

“Isso precisa ser priorizado como a vacina candidata mais promissora para o Bundibugyo”, acrescentou ele.

O grupo de pesquisa biomédica sem fins lucrativos IAVI (Iniciativa Internacional para a Vacina contra a Aids), que tem trabalhado para avançar vacinas usando a mesma tecnologia de VSV recombinante para vírus semelhantes, disse na quarta-feira que está “priorizando uma candidata investigacional de rVSV para Bundibugyo no contexto do surto atual” e está trabalhando para reunir financiamento.

A Merck também disse que está “explorando como podemos apoiar os esforços de resposta... incluindo possíveis colaborações com organizações globais de saúde e pesquisa em pesquisa e/ou desenvolvimento de vacinas”.

Outra vacina está em desenvolvimento, usando a mesma tecnologia da vacina da Universidade de Oxford/AstraZeneca para a covid-19, disse Moorthy.

Ela poderia ser produzida em larga escala mais rapidamente, mas tem menos dados de suporte.

Quando usada durante a pandemia de Covid-19, a vacina foi associada a um risco raro de coágulos sanguíneos; Oxford observa que, para uma doença como o ebola, “onde até nove em cada 10 pessoas infectadas podem morrer, o risco muito pequeno de coágulos sanguíneos é superado pela proteção que uma vacina pode trazer”.

Oxford também disse que a vacina contra a Covid-19 salvou cerca de 6 milhões de vidas apenas em 2021.

A vacina usa um vírus diferente, um adenovírus, para entregar instruções genéticas para treinar o sistema imunológico a reconhecer a proteína do vírus ebola.

As doses poderiam estar prontas para testes clínicos em humanos em apenas dois a três meses por meio de uma colaboração entre Oxford e o Serum Institute of India, disse Moorthy.

“Eles estão fabricando isso enquanto conversamos”, mas os dados em animais que apoiam a vacina ainda não estão disponíveis, disse ele. Essas descobertas influenciarão “se ela será considerada uma vacina de pesquisa candidata promissora para o Bundibugyo”.

Existem medicamentos que ajudam?

Os testes de terapêuticas poderiam começar mais cedo, disse Moorthy, porque alguns medicamentos existentes podem ajudar contra o Bundibugyo. “Certamente há esperança pelo caminho”, disse ele na semana passada.

Estão sob consideração “abordagens de amplo espectro que podem funcionar em várias espécies de vírus ebola”, já que existem menos opções visando especificamente o Bundibugyo, disse a Dra. Amanda Rojek, professora associada de emergências de saúde no Grupo de Pesquisa de Doenças Epidêmicas no Instituto de Ciências Pandêmicas de Oxford.

Isso inclui o medicamento antiviral remdesivir, fabricado pela Gilead Sciences e aprovado para a covid-19 como Veklury, e um coquetel de anticorpos monoclonais da Mapp Biopharmaceutical chamado MBP134, disse ela.

Um aspecto complicado desses medicamentos é que eles costumam ser administrados por infusão intravenosa, o que pode ser mais difícil logisticamente em uma área de trabalho desafiadora, como a província de Ituri, na RDC, onde o surto atual está centrado.

Geisbert disse que o MBP134 “é provavelmente o que tem os melhores dados pré-clínicos no momento”, mostrado em um de seus estudos para proteger macacos mesmo quando administrado em um estágio avançado da doença.

Ele mostrou proteção contra o Bundibugyo, bem como contra as cepas Zaire e Sudão do ebola.

Os anticorpos são gerados como parte de nossa resposta imunológica a invasores como vírus, e o MBP134 é uma combinação de dois anticorpos de um sobrevivente do surto de ebola de 2014, de acordo com a Mapp.

A fabricante de medicamentos Regeneron também possui um coquetel de anticorpos aprovado para o ebola, chamado Inmazeb.

Um dos três anticorpos na combinação mostrou atividade contra o Bundibugyo, mas não foi testado em animais ou pessoas, disse um porta-voz da empresa à CNN Internacional.

Cientistas da OMS disseram na sexta-feira que o anticorpo da Regeneron e o MBP134 estão sendo priorizados para testes clínicos.

Eles também estão analisando o uso de um medicamento antiviral semelhante ao remdesivir, chamado obeldesivir, para profilaxia pós-exposição para pessoas consideradas contatos de alto risco de pacientes com ebola.

Ele tem o benefício adicional de ser um medicamento oral em vez de administrado por via intravenosa.

“Isso evitaria que esses contatos, caso tivessem sido infectados pelo vírus, desenvolvessem a doença”, disse Briand, da OMS, na sexta-feira.

O governo dos EUA está apoiando o desenvolvimento de medicamentos e vacinas?

Historicamente, os EUA têm sido um grande financiador de testes durante emergências de saúde, mas o governo Trump recuou no apoio a programas de ajuda global.

A Barda (Autoridade de Pesquisa e Desenvolvimento Biomédico Avançado), apoiou o desenvolvimento da Ervebo, bem como de medicamentos de anticorpos direcionados à cepa Zaire.

O NIAID (Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas) também tem sido um apoiador fundamental de testes.

A Mapp recebeu um contrato de US$ 14,8 milhões (cerca de R$ 74 milhões, na cotação atual) da BARDA em 2018 para iniciar um teste clínico humano do MBP134, depois que estudos em animais mostraram que uma única dose “demonstrou eficácia terapêutica sem precedentes” em primatas não humanos contra a cepa Sudão do ebola.

Na semana passada, a BARDA coordenou o envio de um tratamento experimental com anticorpos para uso potencial em americanos de alto risco expostos ao ebola, disse um porta-voz do HHS (Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA) à CNN Internacional.

O HHS não respondeu às perguntas sobre se o governo dos EUA também apoiaria testes clínicos de medicamentos na RDC ou o desenvolvimento de vacinas direcionadas ao Bundibugyo.

A Mapp não respondeu às perguntas da CNN Internacional sobre o fornecimento de seu anticorpo ou planos para um teste clínico, mas seu presidente, Larry Zeitlin, disse à Nature que a empresa tem doses suficientes para um teste e que os medicamentos pertencem à BARDA.

A Regeneron disponibilizou seu tratamento aprovado pela FDA gratuitamente em zonas de surto no passado, disse o cofundador, presidente e chefe de ciência da empresa, Dr. George Yancopoulos, à CNN Internacional na sexta-feira.

Ele disse que a empresa também forneceu dezenas de milhares de doses para o estoque do governo dos EUA e está se coordenando com o HHS para disponibilizar sua combinação tripla, que contém o anticorpo com atividade contra o Bundibugyo — chamado maftovimabe —, neste surto.

“Também estamos ativamente aumentando a produção do anticorpo isolado maftovimabe, caso haja necessidade de mais tratamento”, acrescentou Yancopoulos.

Por que não estamos mais preparados?

O financiamento para pesquisas sobre vírus como o ebola tem sido vítima de um ciclo de “pânico e negligência”, disse Rojek: “investimento rápido durante os surtos, seguido por perda de impulso depois”.

Isso é incrivelmente frustrante para os países que lutam constantemente contra o ebola.

“Se este surto fosse na Europa ou nos EUA, posso garantir que medicamentos e vacinas estariam disponíveis, mas não estamos aqui para chorar”, disse o Dr. Jean Kaseya, chefe do Africa CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças da África), no sábado (23). “Precisamos acelerar com P&D”.

Era uma situação semelhante em 2014, disse Geisbert. Naquela época também, disse ele, “todo mundo está correndo de um lado para o outro”.

Trabalhos do início dos anos 2000 mostraram que a abordagem da vacina VSV para o ebola Zaire “é incrível... mas não temos uma vacina de grau clínico”.

A Merck assumiu “e fez a coisa certa, mas ainda é um processo longo”, disse Geisbert.

Mesmo assim, Rojek argumentou que, de certa forma, o mundo está em um lugar melhor do que estava há uma década, com sistemas de vigilância prontos, diagnósticos mais rápidos, formas estabelecidas de realizar testes clínicos e uma coordenação internacional mais forte.

Existem grandes desafios em torno deste surto, incluindo o seu epicentro na província de Ituri, devastada por conflitos, e a forma menos comum Bundibugyo do vírus, disse ela. Mas “esta não é a mesma situação de 2014”.

E ela apontou que existem métodos de controle de surtos que não dependem de vacinas e medicamentos: “diagnóstico rápido, isolamento, prevenção de infecções, rastreamento de contatos, cuidados clínicos seguros e confiança da comunidade”.

“Vacinas e terapêuticas são ferramentas adicionais extremamente valiosas”, disse ela. “Mas não são a única razão pela qual os surtos podem ser controlados.”

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