Entenda por que os Emirados Árabes estão ‘pagando o preço’ da guerra contra o Irã
Mohamed bin Zayed al Nahyan, presidente dos EAU, alertou que o país não é um alvo fácil
Internacional|Paula Hancocks, da CNN Internacional
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O Irã alertou que qualquer ataque ao país desencadearia um conflito regional. Os Estados Unidos e Israel ou não acreditaram neles ou julgaram que era um risco que valia a pena correr.
Onze dias após o início da guerra, são as nações árabes do Golfo que estão pagando o preço, mas nenhuma delas tanto quanto os Emirados Árabes Unidos.
Mais de 1.700 mísseis e drones foram disparados contra os EAU desde que a guerra começou, de acordo com o ministério da defesa do país, com mais de 90% deles derrubados por interceptores, aviões de caça e helicópteros.
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O presidente dos EUA, Donald Trump, admitiu em uma entrevista com Jake Tapper, da CNN Internacional, na semana passada, que a disposição do Irã em atacar seus vizinhos árabes foi sua maior surpresa na guerra.
No domingo (8), o IRGC (Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica) do Irã disse que estava usando 60% de seu poder de fogo contra o que chamou de “bases” e “interesses estratégicos” dos EUA em países árabes vizinhos, com o restante direcionado a Israel.
Mais projéteis foram disparados contra os EAU do que contra qualquer outro país, aparentemente até mais do que contra Israel, que junto aos EUA iniciou esta guerra. Vários caíram em casas, escritórios e estradas em áreas urbanas densamente povoadas, matando quatro pessoas – todos civis.
Por que Dubai?
“Dubai é realmente o epicentro da globalização”, diz Fawaz Gerges, professor de relações internacionais na LSE (Escola de Economia de Londres). “Os líderes iranianos veem Dubai como a base do sistema econômico global ocidental… isso abala a economia mundial, não apenas Dubai e os EAU.”
A percepção é a chave. Imagens de um incêndio em frente a um hotel internacional em Dubai ou um ataque dentro dos terrenos do aeroporto Internacional de Dubai atraem a atenção internacional enquanto dezenas de milhares de expatriados e turistas tentam deixar o país.
Ninguém ficou ferido em nenhum desses ataques, mas o impacto psicológico pode ser significativo.
Gerges aponta a ironia de os EAU terem servido como uma linha de vida econômica para o Irã por anos, enquanto Teerã lutava sob um dos regimes de sanções mais severos da história.
Um funcionário dos EAU disse à CNN Internacional que as relações acabariam por se normalizar, mas que poderia levar “décadas” para reconstruir a confiança.
Os EAU são um dos maiores parceiros comerciais do Irã, ocupando o segundo lugar depois da China. Os negócios entre os dois países vinham se expandindo mesmo com os EUA mantendo o aperto nas sanções ao regime.
O comércio bilateral ficou em US$ 28 bilhões (cerca de R$ 144 bilhões, na cotação atual) para 2024, de acordo com a OMC (Organização Mundial do Comércio).
Cerca de meio milhão de iranianos chamam os EAU de lar.
O Irã cita a aliança estratégica de décadas de Abu Dhabi com Washington como uma justificativa para os ataques. Designado como um “principal parceiro de defesa” pelos Estados Unidos no ano passado, os EAU deixaram claro em quem confiam para sua segurança.
O país investiu dezenas de bilhões de dólares (centenas de bilhões de reais, cotação atual) em aviões de caça, helicópteros e sistemas de defesa aérea americanos, que agora estão ativamente engajados na proteção de emiradenses e expatriados contra o ataque sem precedentes do Irã.
Causando dor aos aliados dos EUA
Sanam Vakil, da Chatham House, diz que os EAU preenchem mais de um requisito para a República Islâmica em seu desejo de infligir dor aos EUA e seus aliados.
“Ao atacar os EAU, o Irã não está apenas visando um parceiro fundamental dos EUA, mas também sinalizando que um país que abriga milhões de expatriados e serve como um nó importante nas finanças, aviação e comércio global não pode ser isolado.”
A extensão da retaliação pode sinalizar o quanto o regime vê esta guerra como uma ameaça existencial. Quando Israel bombardeou as instalações nucleares do Irã, acompanhado nos dias finais pelos EUA, a resposta do Irã foi limitada: um ataque à base aérea de al Udeid no Catar, que acredita-se ter sido sinalizado com antecedência.
O presidente Trump assinou uma ordem executiva para dar ao Catar, que também foi alvo do Irã durante a guerra atual, uma garantia de segurança no estilo da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) após esse ataque.
E depois, há o argumento geográfico. Apenas cerca de 100 quilômetros de água separam o Irã e os EAU; mísseis e drones não demoram muito para chegar às costas dos Emirados.
“Literalmente, é vizinho de porta. É muito mais fácil atacar Dubai e os Emirados Árabes Unidos do que atacar outros países, digamos a Jordânia ou Israel, porque Israel está bem protegido por um sistema de defesa aérea”, diz Gerges.
Os EAU proibiram o uso de suas bases militares ou espaço aéreo caso um ataque ao Irã prosseguisse.
Essa posição não fez nada para isolar os EAU.
O presidente dos EAU, Mohamed bin Zayed al Nahyan, visitou alguns dos feridos durante o fim de semana e emitiu um raro aviso aos inimigos do país; “Eu digo a eles – não se deixem enganar pela aparência dos EAU. Os EAU têm pele grossa e carne amarga – não somos presa fácil.”
O choque torna-se raiva
O choque por ser o alvo número um na lista de retaliação do Irã mudou rapidamente para a raiva.
Mina Al-Oraibi é a editora do jornal dos EAU, The National. “Na manhã em que a guerra começou, houve uma real decepção das pessoas com quem você conversava porque Israel e os EUA tinham optado pela opção militar… mas logo depois, conforme o Irã começou a atacar os EAU e outros países, a fúria e o senso de injustiça realmente se voltaram para o Irã.”
A esperança e o alívio após o presidente iraniano Masoud Pezeshkian pedir desculpas no fim de semana e dizer que o Irã não atacaria mais seus vizinhos duraram pouco, pois novas salvas de ataques ameaçaram os EAU e outras nações do Golfo.
Em conflito, há sempre a realidade alternativa do “negócio como de costume” e não faltam banhistas de biquíni na praia em Dubai que se recusam a permitir que uma guerra da qual não querem participar mude suas vidas.
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