Internacional 'Guardiões da verdade', jornalistas são eleitos 'Pessoa do ano' pela Time

'Guardiões da verdade', jornalistas são eleitos 'Pessoa do ano' pela Time

Revista chama atenção para trabalho de resistência de vários profissionais em meio a ataques à liberdade de imprensa e de expressão em todo mundo

'Guardiões da verdade', jornalistas são eleitos 'Pessoa do ano' pela Time

Revista escolheu os jornalistas como 'Pessoa do Ano' de 2018

Revista escolheu os jornalistas como 'Pessoa do Ano' de 2018

Reprodução / ReutersTV - 11.12.2018

Em um ano marcado pelos termos "pós-verdade" e "fake news", a revista Time escolhe como "Pessoa do Ano" um grupo de jornalistas que se destacaram em 2018 como guardiões da verdade. Entre eles, está o jornalista saudita Jamal Khashoggi, colunista do jornal The Washington Post assassinado dentro do Consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia.

A atuação de Khashoggi — um crítico ao regime saudita que fugiu para os EUA com medo da perseguição sofrida em seu país natal — abre a longa matéria em que a revista norte-americana justifica a concessão do título de pessoa do ano aos jornalistas, coletivamente. "A questão central na morte do jornalista saudita", diz a revista, "é em quem você confia para lhe contar uma história?".

Segundo a Time, "não faltam exemplos" em 2018 de jornalistas perseguidos ou cerceados em "um mundo em que autoritários em ascensão avançaram obscurecendo a diferença [entre a verdade e a mentira]".

Com o prêmio, a revista não apenas registra o papel desempenhado pelos jornalistas homenageados, mas ressalta a importância do trabalho independente destes profissionais em meio ao que considera diversos ataques à livre atuação da imprensa e à própria ideia do que é e onde é possível buscar a verdade.

Repressão governamental

A revista destaca a perseguição direta de governos contra jornalistas ou seus veículos. É o caso da filipina Maria Ressa, que criou o site Rappler para relatar os abusos da guerra às drogas do presidente Rodrigo Duterte. O veículo nunca foi reconhecido como jornalístico pelo governo e recebeu acusações de fraude fiscal, que podem levar Ressa à prisão por 10 anos.

Também o trabalho de dois repórteres da agência Reuters, Kyaw Soe Oo e Wa Lone, presos em Mianmar por registraram a execução de dez homens da minoria muçulmana rohingya, é apontado como outro ponto alto desta resistência a governos que usam seus aparatos de repressão para cercear o trabalho jornalístico.

De acordo com o Comitê de Proteção aos Jornalistas, 2017 registrou um recorde de jornalistas presos: 252 ao redor do mundo. Para a ONG Artigo 19, em 2018, o índice de liberdade de expressão no mundo caiu ao menor nível em 10 anos.

Líderes contra a imprensa

Mas não é apenas a repressão institucionalizada ou a violência física que ameaçam a liberdade de expressão e tornam o trabalho dos jornalistas um ato de resistência.

A Time destaca que a atuação de líderes mundiais questionando diretamente o trabalho da imprensa e atuando dentro das redes sociais para colocar em dúvida fontes de informação colabora para que a população não saiba mais onde está a verdade.

Um dos casos emblemáticos do ano de 2018 foi o tiroteio no jornal Capital Gazette, em Annapolis, no estado de Maryland (EUA). Cinco jornalistas morreram depois de um homem entrar atirando na redação. Ele havia perdido um processo contra a publicação.

A tragédia está intimamente ligada ao clima geral de desconfiança contra a imprensa que se espalha nos EUA desde que o presidente Donald Trump assumiu a Casa Branca. 

Em fevereiro de 2017, um mês depois de assumir, Trump escreveu em publicação no Twitter que "A mídia de fake news (os fracassados @nytimes, @NBCNews, @ABC, @CBS, @CNN) não é minha inimiga, é a inimiga do povo norte-americano". Este ano, ele baniu da Casa Branca o correspondente-chefe da CNN, Jim Acosta.