Internacional Há risco de a crise no Afeganistão evoluir para uma guerra mundial?

Há risco de a crise no Afeganistão evoluir para uma guerra mundial?

Segundo professor da Unicamp, ONU teria condições de adiar este perigo por muito tempo e possivelmente eliminá-lo por completo

  • Internacional | Sofia Pilagallo*, do R7

Vitória do Talibã poderia fortalecer outros grupos extremistas e provocar conflitos regionais

Vitória do Talibã poderia fortalecer outros grupos extremistas e provocar conflitos regionais

Ahmad SAHEL ARMAN / AFP

Com a crise política que se instalou no Afeganistão desde que o Talibã invadiu a capital Cabul e assumiu o controle do país, no dia 15 de agosto, um pensamento possível é que o mundo estaria caminhando rumo a um novo conflito a nível global — que, se consumado, seria o terceiro da história da humanidade e o primeiro deste século.

Para o professor de Direito da Unicamp (Universidade Estadual Paulista) Luís Vedovato, que estuda o Afeganistão pelo viés dos direitos humanos, o risco de um conflito dessas proporções acontecer é consideravelmente baixo.

Segundo Vedovato, por mais "cambaleante" que seja atualmente a estrutura da ONU (Organização das Nações Unidas), enfraquecida ao longo do tempo pelas diversas violações dos direitos humanos pelo mundo, a organização teria condições de, se não eliminar por completo, adiar por muito tempo o risco de o mundo enfrentar uma nova guerra mundial.

Não por acaso, a entidade foi criada em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, o maior e mais destrutivo conflito da história, que matou um total estimado de 70 a 85 milhões de pessoas.

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"Há de se levar em conta ainda a questão econômica, que é internacionalmente conectada devido à estrutura da ONU. Conflitos são sempre prejudiciais à economia, ainda mais um conflito de proporções mundiais", afirma.

Um segundo fator a ser levado em consideração, de acordo com Vedovato, é a possibilidade, ainda que remota, de haver o uso de bombas nucleares em uma eventual nova guerra mundial, tipo de armamento que libera grandes quantidades de energia e detêm imenso poder de destruição.

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O mundo ainda se lembra, com imenso pesar, dos dias 9 e 16 de agosto de 1945, quando os Estados Unidos lançaram bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki e provocaram, instantaneamente, a morte de 70 mil pessoas.

"O Irã, por exemplo, enriquece urânio a 20% de pureza, o que não é suficiente para a produção de bombas nucleares e, por hora, é usado apenas e tão somente para a produção de energia. Sabe-se, no entanto, que produzir bombas nucleares não seria um grande desafio naquela região, ainda mais tendo em vista que todos os países ali são muito bem armados", diz.

Conflitos regionais

Apesar de Vedovato não acreditar que uma terceira guerra mundial seja uma possibilidade concreta, ele defende que, eventualmente, poderiam surgir conflitos regionais entre alguns países do Oriente Médio, que, assim como o Afeganistão, também abrigam grupos que fazem uma interpretação extrema da religião islâmica.

Um exemplo disso é o Iêmen, país onde o terrorismo gera preocupação e há forte presença da organização fundamentalista Al-Qaeda, responsável pelo ataque às torres do World Trade Center, em Nova York, em 11 de setembro de 2001.

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Para o professor, a recente vitória do Talibã sobre o governo do Afeganistão poderia fortalecer esses grupos, que cogitariam tomar o poder de seus respectivos países e provocar, assim, alguns conflitos na região do Oriente Médio. Dificilmente, no entanto, ele acredita que tais conflitos se espalhariam pelo mundo e evoluiriam para uma situação de proporções maiores.

"Ainda não há qualquer perspectiva de uma terceira guerra mundial, mas acho que o mundo deve ficar bastante atento aos próximos desdobramentos da crise no Afeganistão, sobretudo porque estamos em um momento de mudança de poder", afirma.

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"Os Estados Unidos estão agora saindo do centro das decisões políticas mundiais para compartilhar esse centro com outros países, tais como China e Rússia, que já sinalizaram apoio ao novo governo talibã", completa.

*Estagiária do R7 sob supervisão de Pablo Marques

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