Irã alerta para ‘consequências perigosas’ após UE designar Guarda Revolucionária como terrorista
Ministros das Relações Exteriores aprovaram designação em resposta à violenta repressão a protestos antigovernamentais
Internacional|Mohammed Tawfeeq e Nadeen Ebrahim, da CNN Internacional
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O Irã ameaçou, nesta quinta-feira (29), desencadear “consequências perigosas” após a União Europeia ter designado formalmente a IRGC (Guarda Revolucionária Islâmica) como uma organização terrorista, em meio à escalada das tensões entre Teerã e as potências ocidentais.
Os ministros das Relações Exteriores da UE aprovaram a designação em uma reunião em Bruxelas, descrevendo-a como uma resposta à violenta repressão do Irã aos protestos antigovernamentais.
“A repressão não pode ficar sem resposta”, escreveu a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, no X, ao anunciar a decisão. “Qualquer regime que mata milhares de seus próprios cidadãos está caminhando para a sua própria destruição.”
A designação coloca a IRGC na mesma lista de organizações terroristas que a Al-Qaeda, o Hamas e o grupo Estado Islâmico, disse Kallas. “Se você age como um terrorista, também deve ser tratado como um terrorista.”
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, compartilhou da mesma opinião. “‘Terrorista’ é, de fato, como se chama um regime que esmaga os protestos de seu próprio povo com sangue”, afirmou.
Em um comunicado divulgado pela agência de notícias estatal iraniana IRNA, o Estado-Maior das Forças Armadas do Irã classificou a decisão da União Europeia como “ilógica, irresponsável e maliciosa”, acusando os líderes europeus de agirem em obediência às políticas dos Estados Unidos e de Israel.
O comunicado afirmou que a Guarda Revolucionária Islâmica desempenhou um papel central no combate a grupos extremistas, incluindo o Estado Islâmico, e alertou que “as consequências perigosas desta decisão hostil e provocativa recairão diretamente sobre os formuladores de políticas europeus”.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, acusou os governos europeus de intensificarem as tensões e aumentarem o risco de uma guerra mais ampla no Oriente Médio.
“A Europa, ao contrário, está ocupada atiçando as chamas”, escreveu Araghchi no X. Vários países estão trabalhando para evitar uma guerra total na região, mas os Estados europeus não estão entre eles, argumentou.
Ele descreveu a designação da IRGC como um “grande erro estratégico” cometido a mando dos Estados Unidos e alertou que a Europa sofreria graves consequências caso um conflito eclodisse, incluindo um aumento nos preços da energia.
O que é a Guarda Revolucionária?
Formada em 1979, após a Revolução Islâmica do Irã, a Guarda Revolucionária Islâmica opera separadamente do restante das Forças Armadas iranianas e possui seu próprio exército, marinha, força aérea, inteligência e forças especiais. Sua função é preservar a República Islâmica e responde diretamente ao líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.
Estima-se que a IRGC conte com entre 150 e 190 mil soldados, incluindo uma unidade expedicionária de elite conhecida como Força Quds, que foi designada separadamente pelos Estados Unidos como organização terrorista em 2007.
Além disso, um ramo da IRGC chamado Basij, uma milícia paramilitar voluntária, possui cerca de 450 mil membros, segundo o Instituto para o Estudo da Guerra, com sede nos EUA, e desempenha um papel fundamental na repressão de protestos antigovernamentais.
A Guarda Revolucionária foi anteriormente designada como uma “organização terrorista estrangeira” pelos Estados Unidos em 2019, durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump. Na época, os EUA culparam o Irã pelas mortes de 608 militares americanos no Iraque entre 2003 e 2011, pelas mãos do que chamaram de “representantes da Guarda Revolucionária”.
Postura militar se intensifica
Em meio às ameaças dos EUA de atacar o Irã pela segunda vez desde junho, Teerã anunciou uma expansão significativa de suas capacidades militares. O Irã afirmou ter adicionado mil “drones estratégicos” ao seu arsenal militar, informou a IRNA na quinta-feira, embora ainda não esteja claro quais tipos de drones foram adicionados.
O país também anunciou que as forças navais da Guarda Revolucionária realizarão exercícios com munição real na próxima semana no Estreito de Ormuz, uma via navegável estreita por onde passam mais de um quinto do petróleo mundial e grande parte do gás natural liquefeito.
Analistas afirmam que a designação da Guarda Revolucionária Islâmica pela União Europeia como organização terrorista é em grande parte simbólica. “Essa medida terá muito pouco impacto”, disse Trita Parsi, vice-presidente executivo do Quincy Institute for Responsible Statecraft, à CNN. “A Europa já praticamente não tem comércio com o Irã. Não havia intenção de aumentar esse comércio. Não havia intenção de mediar as relações.”
Parsi observou que medidas semelhantes não conseguiram alterar o comportamento iraniano, salientando que os Estados Unidos há muito consideram a Guarda Revolucionária Islâmica uma organização terrorista, e ainda assim “aqui estamos, à beira da guerra”.
A designação surge em meio a tensões regionais crescentes e alertas renovados de Washington. Trump ameaçou atacar o Irã caso este não assine o que ele chamou de acordo nuclear “equitativo”.
O primeiro vice-presidente iraniano, Mohammad Reza Aref, afirmou que seu país deve “estar preparado para um estado de guerra”, segundo a agência IRNA, acrescentando que “se nos for imposto, nos defenderemos, e o fim da guerra não será com os inimigos”.
O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, ressaltou que as opções militares permanecem firmemente em cima da mesa caso a diplomacia falhe.
“Quando o presidente Trump disse que não teremos um Irã nuclear, que vocês não terão uma bomba nuclear, ele estava falando sério”, disse Hegseth durante uma reunião de gabinete na quinta-feira. “Estaremos preparados para entregar o que quer que este presidente espere do Departamento de Guerra”, acrescentou.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, instou na quinta-feira as partes a se engajarem na diplomacia para reduzir as tensões e “evitar uma crise que poderia ter consequências devastadoras na região”.
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