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Legado do homem forte da Indonésia permanece um debate aberto

O ex-presidente Suharto resgatou o país da beira da calamidade política, social e econômica em meados da década de 60

Internacional|Do R7

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Em 22 de maio comemorou-se o 15º aniversário da renúncia de Suharto como presidente
Em 22 de maio comemorou-se o 15º aniversário da renúncia de Suharto como presidente Andri Tambunan

Jacarta, Indonésia – A arborizada Rua Cendana em uma vizinhança sofisticada na Jacarta Central não mudou muito nas últimas décadas, a não ser pela demolição de algumas casas coloniais holandesas para dar lugar a vilas modernistas. No entanto, o antigo morador cuja casa ocupou o meio inteiro do quarteirão iniciou mudanças drásticas em seu país, e 15 anos após ele desaparecer da vida política da Indonésia, debates ainda surgem se as mudanças foram para melhor ou pior.

Cendana é sinônimo de Suharto, o general do exército transformado em presidente que governou a Indonésia por 32 anos enquanto morava nas casas de números 6, 8 e 10, que foram reformadas e conectadas. Após a sua morte em 2008, um website indonésio dedicado à atividade paranormal publicou um relato de um empregado antigo dizendo que o fantasma de Suharto ainda estava lá e ocasionalmente o beliscava e o cutucava.


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Talvez. Entrentando, o mais certo é que o espírito de Suharto continua a pairar sobre a Indonésia contemporânea.


Ele resgatou o país da beira da calamidade política, social e econômica em meados da década de 60, dramaticamente reduziu a pobreza e, no começo dos anos 90, tinha transformado a Indonésia em uma das economias Tigres da Ásia. Mas ele também governou com um punho de ferro, enviando a sua força militar com botas de cano alto a regiões com intenções separatistas, prendendo e exilando inimigos políticos, anulando instituições democráticas e os meios de comunicação social e presidindo o que alguns alegam ser um dos governos mais corruptos da história moderna.

Em 22 de maio comemorou-se o 15º aniversário da renúncia de Suharto como presidente. Ele renunciou em meio a enormes protestos pro-democracia nas ruas de Jacarta, tumultos e ataques mortais na etnia chinesa em várias cidades, e calamidade econômica ocasionada pela crise financeira da Ásia em 1997.


Desde então, a Indonésia passou por uma transformação dramática na direção da democracia e agora tem eleições abertas sendo a 16ª maior economia do mundo. No entanto, a corrupção permanece endêmica, o crime é maior do que durante o regime da "Nova Era" de Suharto, e Jacarta e outras cidades grandes têm problemas crônicos de tráfego.

Se as 240 milhões de pessoas do país, das quais mais de 25 por cento nasceu após a renúncia de Suharto, pausarão para refletir sobre o aniversário permanece uma incógnita.

"Mesmo agora, muitas pessoas olham para a época dele como sendo os bons velhos tempos", afirmou Saprudin, um segurança de 33 anos que trabalha no prédio de Suharto desde 2001 e que, como muitos aqui, é suhartista. "Acho que com o tempo, mais pessoas se sentirão dessa maneira".

Essa visão mar de rosas se estendeu ao homem o qual muitos chamavam de ditador. "O Sr. Suharto era bom – foram os seus amigos que agiram mal, com toda a corrupção que criou um monte de problemas", declarou Saprudin. "Ele não queria continuar sendo presidente, mas foi forçado pelos seus defensores".

Outros indonésios, membros dos grupos de direitos humanos particularmente, não enxergam dessa forma. Eles afirmam que Suharto se agarrava ao poder, mesmo quando a economia do país estava entrando em colapso em decorrência da crise bancária em 1998, para proteger os interesses comerciais de sua família e parceiros. Eles continuam com raiva de que Suharto nunca enfrentou julgamento por corrupção e por abusos dos direitos humanos cometidos pelas suas forças do exército e de segurança.

Enquanto Saprudin se lembrava de como os preços eram mais baixos e os empregos em abundância na economia de Suharto, controlada pelo Estado, trabalhadores estavam ocupados repintando a entrada composta de madeira de Cendana, colocando a cobertura e as plantas ornamentais dos jardins da frente. O trabalho é parte de uma reforma rotineira de três meses da propriedade que está vazia e foi encomendada pelos filhos adultos do líder, que são donos da propriedade e querem que ela esteja pronta para entreter hóspedes durante o feriado pós-Ramadã, o Eid al-Fitr, em agosto.

A um quilômetro mais ou menos, uns 400 vendedores estavam fazendo uma passeata animada fora do shopping center onde eles alugam espaço, queixando-se de que a sua administração está violando uma lei nacional regulamentando as negociações sobre o preço de alugueis e protestando contra a maneira como as queixas sobre a manutenção da propriedade são tratadas.

As forças de segurança de Suharto não toleravam protestos nas ruas; atualmente, para o desgosto dos motoristas, há vários por dia apenas em Jacarta.

Ivan Wijaya, gerente de loja de 26 anos no shopping center, disse que a administração se recusara a encontrar com os inquilinos por sete dias, fazendo com que eles formassem uma organização de trabalhadores, consultassem um advogado e organizassem um protesto.

"Em 1998, não tínhamos liberdade de expressão, a liberdade para protestar", disse Wijaya. "Este tipo de coisa é ilegal em Singapura; isto é ilegal na China".

Outro líder de protestos, Frankie Wong, de 49, afirmou que o público indonésio tem, e provavelmente continuará tendo, opiniões divididas sobre Suharto e seu legado. "Às vezes, apreciamos o que ele fez pelo país, e às vezes não", declarou. "É como o lance do yin e yang".

Em uma estação de trem próxima, ao lado do Monumento Nacional, um senhor de 70 anos comprando uma entrada disse que ele era um firme suhartista. Natural da província da Java Central Java, o homem, Sukirno, passou 25 anos na marinha indonésia, se aposentando como sargento-mor. Ele afirma ter visto Suharto uma vez, quando o líder falou ao pessoal da marinha.

"Os tempos de Suharto foram melhores – ele tinha uma estratégia, uma visão e era um homem forte", disse Sukirno, indiretamente criticando o presidente dos últimos mais de 8 anos, Susilo Bambang Yudhoyono, outro general do exército cujos críticos afirmam ser indeciso quando se trata de decisões de políticas duras.

"Temos um longo caminho até a democracia por aqui", Sukirno declarou.

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