Modelo econômico kirchnerista tirou Argentina da crise, mas deve ser renovado
Internacional|Do R7
Natalia Kidd. Buenos Aires, 23 mai (EFE).- A heterodoxia econômica aplicada há uma década pelo falecido ex-presidente Néstor Kirchner fez com que a Argentina crescesse com força após a crise, mas as políticas que iluminaram esse êxito já não surtem efeito e o modelo deve ser renovado, segundo analistas consultados pela Agência Efe. Após o desastre de 2001-2002, a Argentina cresceu nos últimos dez anos a uma taxa média de 7,2% anual graças a medidas aplicadas pelo governo Kirchner, que chegou à presidência no dia 25 de maio de 2003, para incentivar o consumo e reativar a indústria e a atividade agropecuária. "O modelo tem elementos positivos. Com a crise de 2001, onde a Argentina tinha ficado de joelhos, não é pouca coisa voltar em tão pouco tempo", disse à Efe o economista Ramiro Castiñeira, da empresa de consultoria Econométrica. Sem reservas monetárias, dívidas no valor de US$ 180 bilhões, um tecido produtivo destruído, uma taxa de desemprego de 24% e um nível de pobreza que chegou a 57%, Kirchner tomou as rédeas, segundo suas próprias palavras, de um país a caminho do "inferno" para, pelo menos, devolver-lhe ao "purgatório". Hoje o cenário social é muito diferente: o país acumula dez anos consecutivos de crescimento, algo inédito em sua história, a pobreza se reduziu a 5,4% e a taxa de desemprego é de 7,9%. "Um dos aspectos mais notáveis foi o desalavancamento graças à astuta negociação da dívida pública, onde 93% dos credores aceitaram a troca em condições favoráveis para a Argentina", destacou Castiñeira. Para Fausto Spotorno, economista-chefe do Centro de Estudos Econômicos Orlando Ferreres, um dos acertos do modelo em sua primeira etapa foi manter as contas públicas ordenadas, com uma taxa de câmbio alto e superávit fiscal e comercial. Essa política se manteve firme durante a gestão de Kirchner, mas começou a relaxar-se com sua esposa e sucessora, Cristina, eleita em 2007. Após a morte de Kirchner, em outubro de 2010, os problemas fiscais e inflacionários da Argentina aumentaram. A "década vencida", como Cristina Kirchner se refere a esta etapa, não esteve isenta de medidas polêmicas, como a nacionalização dos fundos de previdência (2008) e as expropriações da Aerolíneas Argentinas (2009) e de 51% das ações da espanhola Repsol na petrolífera YPF (2012). Na lista figuram também as restrições comerciais e cambiais e o congelamento de tarifas no setor energético, onde a falta de investimentos é um dos calcanhares de Aquiles da Argentina. Porém, segundo os economistas consultados, um dos grandes erros foi não frear a tempo os estímulos à atividade e abandonar as políticas de poupança fiscal, o que abriu passagem a um cenário de inflação. "Com a economia recuperada, seria necessária uma mudança de modelo, que mantivesse os equilíbrios econômicos, mas sem estimular muito a atividade. Mas continuou-se com a política de estímulo. Isso gerou inflação. E agora estamos com uma economia fria e com inflação", assinalou Spotorno. Para Castiñeira, o "declive" do modelo começou em 2008, pouco depois da posse de Cristina, quando o governo destinou suas reservas a frear o impacto da crise global no país e atenuar as perdas provocadas pela seca no setor da soja, uma das principais fontes de receita do país. "Para não esfriar a economia, em vez de tomar a decisão política de recuperar o superávit fiscal perdido, o governo seguiu aumentando a despesa acima dos recursos e estas variáveis estão de mãos dadas com a inflação, porque se o país se financia emitindo dinheiro, a consequência é a inflação", ressaltou Castiñeira. Segundo o analista, a decisão do governo de não reconhecer a inflação levou a um atraso cambial e a uma fuga de divisas que finalmente derivou nas restrições cambiais vigentes. "Depois de 2008 o modelo começa a se desvirtuar. O erro esteve em não cuidar da galinha dos ovos de ouro, em crer que a emissão pode substituir a poupança. Sem superávit fiscal, o modelo não se sustenta. Os pilares do modelo - taxa de câmbio competitiva, superávit fiscal e externo - colapsaram um após o outro", afirmou. Mesmo assim, o economista esclarece que a Argentina não está à beira de um colapso como o de 2001, mas sim perante o risco de cair em uma recessão se o governo não der um "golpe de governo" e enviar sinais adequados ao setor privado que buscará corrigir o rumo. EFE nk/rsd













