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Novo estudo derruba mito de que todas as estradas levam a Roma

Análise da rede viária do Império Romano mostra que Constantinopla ocupava posição mais central do que a capital romana

Internacional|Jacopo Prisco, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Estudo recente refuta o mito de que todas as estradas romanas levavam a Roma, destacando Constantinopla como um ponto central.
  • A pesquisa utilizou o atlas digital Itiner-e, que mapeia a rede viária romana, revelando que apenas 2,7% das estradas têm localização confirmada.
  • Estradas romanas não eram uniformemente retas; engenheiros adaptavam-se ao terreno, como montanhas e vales.
  • O ditado "todos os caminhos levam a Roma" é medieval e simboliza a centralidade política e econômica de Roma, mas não reflete a realidade das estradas.

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Uma vista geral mostra o Fórum Romano e a área do Parque Arqueológico do Coliseu a partir do Monte Palatino, em Roma, em outubro de 2023.
Pesquisadores analisaram cerca de 300 mil quilômetros de vias do Império Romano Antonio Masiello/Getty Images via CNN Newsource

Uma nova análise da rede viária do Império Romano derrubou o antigo mito de que todas as estradas levam a Roma. O estudo mostra que outras cidades importantes, como Constantinopla, atual Istambul, ocupavam uma posição mais central na rede de transportes.

“Quando observamos todo o transporte terrestre em todo o Império Romano, há uma rota que é a mais central de todas, e ela não passa por Roma”, afirmou Tom Brughmans, professor associado da Escola de Cultura e Sociedade da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e coautor da pesquisa publicada na terça-feira na revista científica Nature Communications.

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Em seu auge, no ano 117 d.C., o Império Romano se estendia da Britânia até a borda do Saara, abrangendo partes da Europa, Ásia e África em uma área de cerca de 5,5 milhões de quilômetros quadrados. Embora Roma fosse o centro político e econômico do império, sua localização geográfica a tornava mais estratégica para o transporte marítimo no Mediterrâneo do que para a malha rodoviária.

“A península Itálica é basicamente uma extensão de terra projetada sobre o Mediterrâneo”, explicou Brughmans. “Por isso, a rota mais central seguia pela costa do Norte da África, depois atravessava o leste da atual Turquia e cidades como Antioquia e Ancara, passando por Constantinopla, antes de seguir ao norte de Roma, por Milão.”

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Em 324 d.C., o imperador Constantino I transferiu a capital do império de Roma para Constantinopla por razões estratégicas e econômicas. A cidade, então chamada Bizâncio, passou a desempenhar um papel de destaque no sistema de estradas, o que ajuda a explicar sua relevância na análise.

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O estudo utilizou como base o Itiner-e, um atlas digital da rede viária romana lançado em 2025 e disponível online.

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Produzido a partir de fontes históricas, relatórios arqueológicos, imagens de satélite e bancos de dados anteriores, o atlas reúne cerca de 300 mil quilômetros de estradas. No entanto, apenas 2,7% desses caminhos têm localização conhecida com total certeza. Cerca de 90% do mapa possui localização aproximada e outros 7% são reconstruções hipotéticas.

Além de analisar fatores como altitude, orientação e inclinação das vias, os pesquisadores também investigaram outras crenças populares sobre as estradas romanas. Eles concluíram que essas vias não eram tão retas quanto se imagina e que, embora algumas rodovias modernas sigam os mesmos trajetos antigos, muitas outras associadas aos romanos não têm origem romana.

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A origem do mito

O ditado “todos os caminhos levam a Roma” surgiu na Idade Média. O primeiro registro escrito da frase data de 1175, quando o poeta francês Alain de Lille escreveu em latim: “Mille viae ducunt homines per saecula Romam”, ou “Mil caminhos conduzem os homens para sempre a Roma”.

Os romanos valorizavam profundamente sua rede viária. Em 20 a.C., o imperador Augusto instalou no Fórum Romano um “marco miliário dourado”, símbolo das principais estradas do império. Muitos estudiosos acreditam que esse monumento ajudou a alimentar o mito. Hoje, porém, a expressão é entendida de forma figurada, significando que existem diferentes caminhos para alcançar um objetivo.

“É um provérbio medieval, não da Antiguidade, e reflete a centralidade simbólica dessa enorme capital de um império continental”, afirmou Brughmans.

Segundo ele, Roma era realmente central devido às rotas marítimas e ao fato de abrigar o governo imperial.

“A parte equivocada da história é justamente a das estradas”, disse. “Talvez o mito tenha sido reforçado porque havia um sistema de grandes vias utilizado pelos imperadores para administrar províncias e transmitir informações, quase como uma rede de comunicação. Roma era representada como o centro dessa estrutura. O mais impressionante é que esse provérbio continua vivo, embora seja comprovadamente falso.”

Nem todas as estradas eram retas

Os pesquisadores também verificaram se as estradas romanas eram uniformemente retas.

Embora existam exemplos famosos, como a Via Ápia, em Roma, a realidade era mais complexa. Os engenheiros precisavam lidar com montanhas, vales e outras limitações do terreno.

“Se a topografia permitisse construir uma estrada reta, eles a construíam”, disse Brughmans. “Mas, quando o relevo dificultava isso, as estradas acabavam sendo sinuosas.”

Nas planícies da Europa Ocidental e do Norte da África, os romanos realmente construíram vias bastante retas. Ainda assim, mesmo essas não alcançavam o grau de linearidade das estradas modernas devido às limitações tecnológicas da época.

O estudo também encontrou uma persistência surpreendente entre estradas romanas e importantes rodovias atuais.

“É absolutamente extraordinário que uma infraestrutura tão antiga ainda seja visível e continue influenciando a maneira como as pessoas se deslocam atualmente”, afirmou Brughmans.

Um exemplo é a Via Augusta, que percorria cerca de 1.600 quilômetros desde Cádis, no sul da Espanha, até os Pireneus, na França. Em Tarragona, a antiga estrada atravessa o Arco de Berà, um arco triunfal romano, enquanto uma via moderna passa ao lado da construção. Em outros locais, ainda é possível caminhar por trechos preservados, como a própria Via Ápia, que conserva parte das pedras vulcânicas originais assentadas pelos romanos.

Apesar disso, grande parte da antiga rede desapareceu ou foi soterrada ao longo dos séculos. E nem todas as chamadas “estradas romanas” são realmente romanas.

“Em toda a Europa, Norte da África e Oriente Médio existem caminhos chamados Estrada Romana, Römerstraße ou Calzada Romana”, explicou Brughmans. “Mas muitos deles não são romanos de verdade. Isso demonstra o quanto permanece forte a ideia de que os romanos tiveram um enorme impacto sobre a infraestrutura. Muitas vezes, se vemos uma estrada antiga, impressionante e relativamente reta, presumimos que seja romana, quando nem sempre é o caso.”

Comprovação matemática

Para Francesca Fulminante, pesquisadora sênior dos departamentos de Antropologia e Arqueologia da Universidade de Bristol, os resultados são notáveis porque confirmam, por meio de métodos matemáticos, conclusões que antes haviam sido descritas apenas de forma geral.

Ela ressalta que a base de dados não é totalmente precisa em todas as regiões, mas considera que isso não compromete os principais resultados do estudo.

Brughmans também destacou que os romanos não construíram todas as estradas da rede. Muitas delas já existiam antes das conquistas e foram incorporadas ao império, limitando o controle romano sobre a estrutura completa do sistema.

Os pesquisadores pretendem ampliar o modelo futuramente, incluindo conexões fluviais e marítimas.

Para Sarah E. Bond, professora associada de História da Universidade de Iowa, o trabalho fornece dados valiosos para reconstruções futuras do mundo antigo.

“Estradas ajudam a entender não apenas como viajavam mercadores, carroças ou camelos, mas também como circulavam crenças religiosas, ideias filosóficas e até doenças”, afirmou.

Segundo ela, o estudo também ajuda a desmontar mitos históricos.

“Em vez de repetir automaticamente que as estradas romanas eram todas retas, historiadores, arqueólogos e o público agora podem acrescentar uma ressalva”, disse.

“Sim, as estradas romanas costumavam ser retas quando o relevo permitia, mas também eram estruturas adaptadas ao terreno. Os agrimensores romanos respondiam às mudanças de altitude, aos vales fluviais, às montanhas e às características naturais da paisagem.”

Bond acrescentou que essas conclusões só foram possíveis graças a projetos digitais anteriores que mapearam o mundo antigo e abriram caminho para o desenvolvimento do Itiner-e.

“No geral, trata-se de um projeto fantástico, que deve gerar modelos cada vez mais precisos do mundo antigo.”

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