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Presidente sul-africano enfrenta escândalo perto de casa

27 milhões de dolares de dinheiro público foram gastos em reformas de sua casa privada

Internacional|Do R7

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Esse complexo pertence ao homem mais poderoso do país, o presidente Jacob Zuma
Esse complexo pertence ao homem mais poderoso do país, o presidente Jacob Zuma

Num par de colinas neste recanto verdejante da terra Zulu, se opõem dois tradicionais complexos familiares, de propriedade de patriarcas septuagenários. Em um deles ficam as organizadas casas de uma família de classe média, os Sithole: oito construções simples feitas à mão, uma horta e currais para vacas, bodes e galinhas – os frutos de quatro décadas de trabalho duro e uma vida frugal.

Do outro lado do vale, surgiu uma propriedade de magnitude inteiramente distinta. Ela inclui dezenas de habitações bem construídas, um heliporto, uma quadra de tênis e um campo de futebol. Um estádio esportivo e alguns abrigos subterrâneos estão em obras, segundo novos relatos. Estradas novíssimas levam ao complexo, e as paredes marrons de suas cabanas bem acabadas são impecáveis, apesar do cenário bucólico.


Esse complexo pertence ao homem mais poderoso do país, o presidente Jacob Zuma, e hoje é assunto de vários questionamentos sobre como US$ 27 milhões de dinheiro público foram gastos em reformas de sua casa privada, ostensivamente para segurança. Outras dezenas de milhões foram gastos em estradas ao redor do complexo e na aldeia.

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"Ele não construiu nada para nós", disse a matriarca do complexo dos Sithole, Phindile Sithole, lançando um olhar à propriedade de Zuma do outro lado do vale. "Ele construiu apenas para si mesmo."

O escândalo das melhorias na casa particular de Zuma não poderia ter chegado em pior momento para o atacado presidente. A África do Sul está enfrentando talvez sua crise mais grave desde o fim do apartheid, com greves ilegais afetando a indústria de mineração de ouro e platina. No final de outubro, a Gold Fields, um dos maiores produtores de ouro do mundo, demitiu 8.500 trabalhadores que se recusavam a suspender a greve.


Os mineradores estão exigindo grandes aumentos salariais, e a agitação é emblemática do abismo entre os cidadãos mais ricos e os mais pobres da África do Sul – uma lacuna que aumentou continuamente após o fim do apartheid. Surgiu uma profunda percepção, com ou sem fundamento, de que os líderes da luta contra o apartheid (hoje à frente do partido governante, o Congresso Nacional Africano) teriam se beneficiado, enriquecendo a si próprios e deixando os pobres para trás.

De fato, o CNA está celebrando seu centenário neste ano, mas para muitos sul-africanos, o slogan comemorativo da venerável organização – "100 anos de Luta Altruísta" – parece mais o desfecho de uma piada cruel. No Facebook e no Twitter, fotos de um carro esportivo de luxo estampado com a frase fazem sucesso. Zuma também vem classificando os desafios à sua liderança (dentro de seu próprio partido) como potenciais rivais tentando sabotar seus planos para um segundo mandato.


Zuma, que completou 70 anos neste ano, veio de uma pobre família rural Zulu. Ele abandonou a escola bem jovem e dedicou sua vida à luta contra o apartheid. Ele se juntou ao Umkhonto we Sizwe (ou Lança da Nação), o braço armado do CNA, e passou uma década na prisão da Ilha Robben, ao lado de símbolos da luta como Nelson Mandela e Walter Sisulu. Mas, como muitos líderes do CNA desde o fim do apartheid, ele passou a levar uma vida de riquezas – apesar de nunca ter tido um emprego altamente lucrativo.

Zuma declarou que familiares pagaram pela maior parte da construção de seu complexo aqui. Mas dúvidas sobre suas finanças pessoais são levantadas há anos; diversas acusações de corrupção contra ele foram retiradas em 2009, em meio a alegações de má conduta da promotoria.

Falando a um grupo empresarial, Zuma disse que sua família, e não o governo, havia construído

sua propriedade, e que ele não fazia ideia de que tipo de reformas de segurança estavam sendo feitas ou quanto elas custariam.

"Acho que os ministros já ofereceram respostas, e se as pessoas querem se aprofundar no assunto, elas que façam isso", teria dito Zuma segundo a Associação de Imprensa Sul-Africana. "Não quero comentar ou julgar, pois essas questões são geridas pelos ministros e pelo auditor geral. Eles sabem como são feitos os orçamentos, e não tenho como me tornar um especialista nisso."

O Departamento de Obras Públicas, que está conduzindo as reformas, divulgou uma declaração afirmando que as obras eram estritamente relacionadas à segurança de Zuma como chefe de estado, e que o governo havia "tomado um cuidado especial para alocar despesas a entidades privadas e públicas, conforme fosse mais apropriado". A agência não divulgou um valor em dólares, mas meios de comunicação locais citaram documentos do governo mostrando que as reformas custaram US$ 27 milhões, valor que o governo não contestou publicamente.

Palácios grandiosos costumavam ser comuns para líderes africanos, um hábito oriundo dos reis colonizadores da Europa. Mobutu Sese-Seko possuía opulentas mansões espalhadas pelo Zaire, como era conhecido o Congo, e teria insistido para que as pistas construídas ao lado de cada uma fossem longas o suficiente para acomodar o Concorde – caso ele desejasse usar o jato supersônico para uma viagem rápida de compras a Paris ou Bruxelas.

Felix Houphouet-Boigny, cujo punho de ferro com luvas de veludo governou a Costa do Marfim da independência até sua morte, três décadas mais tarde, construiu uma basílica maior do que a de São Pedro, em Roma, em meio à densa selva de sua cidade natal, como um tributo à sua devota mãe.

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Mas a África do Sul, que derrubou o regime branco há menos de duas décadas, deveria ser diferente – e, sob muitos aspectos, é. Seus presidentes sempre desfrutaram das mordomias do poder, mas dentro de certos limites.

Nelson Mandela, o primeiro presidente do país pós-apartheid, possui os gostos refinados e ocasionalmente opulentos de um nobre, o que ele é, pois faz parte da família real de seu clã Xhosa. Após ser libertado da prisão, em 1990, ele não retornou à sua modesta casa no município negro de Soweto, preferindo estabelecer-se em Houghton, um rico subúrbio branco de Johanesburgo.

Mas o amplo complexo em sua aldeia de Cabo Oriental, Qunu, onde hoje ele passa a maior parte de seu tempo, é pequeno se comparado à propriedade de Zuma em Nkandla. O sucessor de Mandela, Thabo Mbeki, tem uma predileção por ternos da Savile Row e uísques caros, mas vive numa casa não especialmente opulenta em Johanesburgo.

Alguns dos vizinhos de Zuma afirmam que ele conquistou o direito de viver com luxo, e demonstram orgulho do sucesso de um filho da terra.

Willow Dayena, um desistente escolar de 27 anos que ganha cerca de US$ 200 por mês como motorista, disse que as conquistas de Zuma transformaram-no num modelo para os jovens e iletrados.

"Eu fui mais longe do que ele na escola, até a nona série", declarou ele, referindo-se à baixa escolaridade de Zuma. "Talvez algum dia eu possa ser presidente."

Ele garantiu que Zuma fez muitas melhorias na vida local, mas foi vago nos detalhes. "Ele trouxe eletricidade", disse. "E banheiros."

Após alguns momentos, Dayena coçou a cabeça.

"Na verdade, não tenho certeza", completou ele. "Acho que foi Mbeki quem nos trouxe os banheiros."

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