Sofreu um acidente na Índia? Não espere receber ajuda
Internacional|Do R7
Moncho Torres. Nova Délhi, 18 ago (EFE).- A Índia é o país com mais mortes em acidentes de trânsito no mundo e mesmo assim 74% dos habitantes das principais cidades afirmam que nunca ajudariam uma vítima para evitar lidar com a polícia ou participar de um julgamento. É um dado desalentador para um país no qual o precário estado dos veículos, das estradas, e o desrespeito às normas de trânsito aparentemente são regra. Dados do governo indiano mostram que em 2011 morreram 142 mil pessoas em acidentes de trânsito no país, 17 a cada hora. A cena, com frequência, se repete: o infrator foge para evitar ser linchado pela multidão, enquanto as vítimas jazem no asfalto sem receber ajuda - em algumas ocasiões rodeadas por um grupo de observadores curiosos - à espera que chegue uma ambulância ou a polícia. "Ia de moto com o filho de um vizinho quando batemos em um caminhão. O caminhoneiro fugiu e o menino morreu. Os carros passavam, mas ninguém quis nos ajudar", relembra Bhisham Tyagi, que teve uma perna amputada em um centro de reabilitação de Nova Délhi. O primo de Piyush Tewari morreu depois de 47 minutos sem receber nenhum tipo de assistência. Foi o que o impulsionou a fundar em 2008 a organização Save Life, que procura "criar um marco legal" que apoie o "bom samaritano" que decide ajudar. Uma pesquisa divulgada em julho pela organização mostra que 88% dos 1.027 entrevistados nas principais cidades indianas não ajudariam uma vítima para evitar um possível processo judicial. O pânico de julgamento é tal que em grandes metrópoles, como Nova Déli, o percentual de pessoas que afirmam não ajudar vítima nenhuma de um acidente grave chega a 96%. "Quem ajuda tem que dar nome, endereço e telefone (para a polícia). O que faz supor que depois seja chamado a testemunhar e o pressionem", explicou Pravin Jain, um vendedor de 48 anos, em um dos cruzamentos mais movimentados de Nova Déli. Jyati Jain, sua esposa, é da mesma opinião, e explica que "as pessoas não têm tempo para ir à delegacia. Ninguém procura problemas, por isso ignoram os acidentes". Esta postura faz com que, em 80% dos acidentes, o ferido não receba atendimento médico no período de tempo fundamental, conhecido como "hora de ouro", segundo um estudo de 2006 divulgado por uma revista indiana especializada. Um relatório da Comissão de Justiça da Índia vai além e assegura que um atendimento rápido e eficaz poderia evitar a morte de pelo menos 70 mil pessoas, metade dos óbitos causados por acidentes de trânsito nas estradas indianas. Mas, como revela a maior parte dos pesquisados, 77%, aos problemas legais e com a polícia se unem os maus tratos que costumam receber no hospital, muitas vezes acompanhados da obrigação de fazer um pagamento inicial, uma espécie de cheque caução. "No hospital te tratarão mal", sentenciou Abdul Salam, um empregado do Banco Central da Índia, porque ali "vão te fazer chamar a polícia e ela perguntará porque prestou atendimento, como encontrou a pessoa e se é o responsável pelo acidente". "Em vez de agradecer,comportam-se como se fosse um delinquente", confirmou Tewari, da Save Life. Por isso, a organização fez chegar há um ano ao Supremo Tribunal uma série de recomendações para a criação de um marco legal que proteja o "bom samaritano" e, segundo Tewari, a resposta ao pedido deve ser dada nos próximos dias. Até lá o asfalto indiano continuará sendo testemunha de cenas chocantes como a publicada na imprensa do país em abril, quando as câmeras de segurança gravaram a paralisação generalizada diante de um grave acidente. Na filmagem é possível ver um casal em uma moto com um bebê - algo normal na Índia - serem atingidos por um caminhão, que foge. O motorista se levanta e, em vão, implora ajuda aos carros que passam, enquanto sua mulher e seu filho morrem no asfalto. EFE av/cd/rsd












