Solidariedade e política do 'bom vizinho' garantem ajuda ao Líbano 

Com boa relação com outros países, Líbano depende de ajuda externa para se reerguer. Com as nações fronteiriças, no entanto, relação é mais complexa

Líbano depende de relação com outros países para se reerguer

Líbano depende de relação com outros países para se reerguer

Thibault Camus / Pool via Reuters - 6.8.2020

Antes das sucessivas crises, o Líbano já foi chamado de “oásis” no Oriente Médio e era um dos países árabes que mantinha as melhores relações com países estrangeiros.

O país hoje enfrenta aumento de casos de covid-19, sobrecarga do sistema de saúde, revoltas populares, renúncia de parte do governo e tenta lidar com as consequências de uma explosão no porto de Beirute, um dos principais pontos de importação e exportação da região.

É com essa boa relação com países vizinhos e outros governos que o Líbano tenta não afundar ainda mais agora. A economia do país, que já estava ruim, pode ser ainda mais impactada agora que entregas marítimas estão impossibilitadas. Alimentos, medicamentos e outros itens de necessidade básica serão fornecidos por países aliados, como Brasil e a França, além de uma mobilização geral da União Europeia.

A ajuda do Ocidente é relativamente incomum para um país do Oriente Médio, uma região que enfrenta constantes conflitos e crises econômicas e sociais, mas, como explica o professor de Direito Internacional do Mackenzie, Clayton Vinícius Pegoraro, o que aconteceu no Líbano foi um acidente, “não uma guerra”.

O Líbano sempre adotou uma postura mais neutra dentro do Oriente Médio, sem participar ou declarar apoio aos conflitos locais ou problemas que aconteciam dentro de outro país. O professor explica que, por conta do porto em Beirute, diversos países árabes tinham uma relação de interdependência com o Líbano para a importação e exportação de produtos.

“O Líbano sempre tentou manter a política da boa vizinhança, já que de certa forma os outros países dependem do Líbano”, diz o especialista.

Relação do Líbano com Israel mudou após guerra em 2006

Relação do Líbano com Israel mudou após guerra em 2006

Karamallah Daher/Reuters - 7.8.2020

Diálogo ‘no limite’ com os vizinhos

Mesmo tentando manter um diálogo com os países da região, a relação com os vizinhos Israel e Síria sempre esteve um pouco mais “no limite”, diz Pegoraro. No momento atual, a Síria continua em uma guerra civil, que já dura quase 10 anos, e o Líbano e Israel não estão em bons termos.

“Existem momentos de altos e baixos. A relação [com os vizinhos] não é uma relação tranquila, mas uma relação de tolerância. Em alguns momentos adota um tom mais forte, de ameaças políticas, mas há tempos não se sentem fortes impactos”, diz Pegoraro.

Para o professor de Relações Internacionais da ESPM, Gunther Rudzit, a relação entre Israel e Líbano foi abalada depois da guerra de 2006, quando os dois países entraram em conflito armado por 34 dias.

“As relações com seu vizinho do sul sempre foram bastante positivas, até a guerra de 2006, quando Israel atacou o Líbano dizendo que atacava o Hezbollah, o grupo xiita aliado do Irã. A partir de então, há um afastamento muito grande dos dois governos e um ressentimento muito grande por parte da população libanesa, mesmo aquelas não próximas ao grupo xiita”, diz o professor.

Já com a Síria, o governo libanês voltou a assumir um tom neutro. O país acolheu parte dos refugiados sírios, mas não tomou partido ou participou de alguma forma no conflito civil que acontece no país.

“Tomar partido em uma guerra pode impactar negativamente o país, com o PIB, a economia, a moeda”, explica o professor Pegoraro.