Turquia celebra seus 90 anos dividida entre Erdogan e o fundador da República
Internacional|Do R7
Dogan Tiliç. Ancara, 29 out (EFE).- Um túnel sob o Estreito de Bósforo, a primeira comunicação direta por ferrovia entre Europa e Ásia, é a "obra magna" com a qual a Turquia celebra nesta semana seus 90 anos como Estado moderno e laico, um ato ligado diretamente com as primeiras décadas da república. O desejo do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, de modernizar o país por meio de grandes projetos de infraestruturas é para muitos sinal de que pretende se comparar ao fundador da República, Mustafa Kemal Atatürk, algo que nenhum outro político turco se atreveu a tentar até hoje. "Superamos o recorde da história da República: em 79 anos tinham sido construídos 6.100 quilômetros de estradas de via dupla, e nos últimos 11 anos construímos 17.000 quilômetros", assegura Erdogan, no poder desde 2002. O presidente chegou a ridicularizar um dos hinos do início da República, ao afirmar que quem "tricotou um país novo com uma rede de ferrovias" não foram os kemalistas, mas seu próprio partido, o moderado islâmico Justiça e Desenvolvimento (AKP). São frases como estas que enfurecem a oposição secular, que acusa Erdogan de querer diminuir a figura do idolatrado fundador da República e deslocá-lo do pedestal para colocar ele mesmo. Mustafa Kemal (1881-1938), chamado a partir de 1934 de Atatürk (pai dos turcos), foi o primeiro presidente da Turquia após a desintegração do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial. Erdogan nunca se comparou com ele abertamente, algo que equivaleria a um sacrilégio na Turquia, nem o criticou (o que seria um delito penal) e normalmente procura suas referências na história otomana, anterior à fundação do Estado moderno. Há três anos, seguidores do AKP penduraram em Mersin, no sul da Turquia, um enorme cartaz que qualificava Erdogan como "o herói do povo, o segundo Atatürk, embora a própria comitiva do primeiro-ministro tenha se encarregado de retirá-lo. Uma pesquisa feita no ano passado pelo AKP revela que 21,6% dos jovens admiram Erdogan, enquanto apenas 4,1% se pronunciam a favor de Atatürk. Um número "pouco provável" e "absurdo", afirmou Rasit Kaya, professor catedrático de Ciências Políticas na Universidade Técnica do Oriente Médio em Ancara. "Longe de ter algo em comum, os dez anos do governo de Erdogan e seu ideário representam precisamente a reação contra os passos progressistas, a favor de uma nova sociedade, que Atatürk deu ao fundar a república em 1923", destacou Kaya. "Não há similaridades, há contradições entre os papéis de ambos", afirmou o professor em declarações à Agência Efe em Ancara. Os protestos no parque Gezi, que eclodiram em maio como defesa de um espaço verde em Istambul e que voltou a atenção de todo país para a praça, também ressaltaram a incompatibilidade destas duas visões do mundo. O símbolo principal dos manifestantes era a bandeira turca, às vezes decorada com o retrato de Atatürk, com a qual expressavam seu respaldo ao projeto político clássico da Turquia: uma república estritamente laica, com valores baseados no conceito de nação turca e na igualdade entre mulheres e homens. Conceitos muito distintos da visão de Erdogan, que respalda o movimento da Irmandade Muçulmana no Egito e Síria, e qualificava como "nossas mesquitas" os templos de Damasco e Cairo. Erdogan declarou mais de uma vez sua vontade de utilizar o Islã como aglutinador político não só para a Turquia, mas também para conquistar alianças em todo o Oriente Médio. Sua vontade de se tornar defensor internacional do Islã resgata a figura dos sultões otomanos, mas se choca com a visão de Atatürk, que depôs o último sultão e eliminou a religião da Constituição da Turquia. Grande parte dos jovens que protestavam em Gezi temem precisamente que o desejo por islamizar o país, que Erdogan mostra abertamente há anos, jogue fora os 90 anos de esforços para manter separados a política e a religião. Diante disto, Erdogan não seria o segundo Atatürk, mas sua antítese histórica, capaz de pôr fim a uma era iniciada em 1923, concluiu o catedrático Rasit Kaya. EFE ah/jcf-rsd












