Um ano do relacionamento Trump/Petro: de ameaças e ódio a uma ligação de telefone e o alívio de tensões
Interações dos presidentes em 2025 consistiram em farpas; após a virada de ano, uma conversa parece ter acalmado os ânimos
Internacional|Uriel Blanco, da CNN Internacional
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Em meio à tempestade política, chegou a calma para a Colômbia… pelo menos por enquanto. Nesta quarta-feira (7), após uma série de declarações entre os presidentes Gustavo Petro e Donald Trump depois do ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela, ambos os mandatários tiveram uma ligação telefônica na qual o tom ameaçador das palavras anteriores pareceu se suavizar.
Trump disse que “aprecia” a chamada que manteve com Petro e convidou o presidente sul-americano para uma reunião na Casa Branca em um “futuro próximo”.
“Foi uma grande honra falar com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que ligou para explicar a situação das drogas e outros desacordos que tivemos. Aprecio sua chamada e tom, e espero encontrá-lo em breve”, escreveu o presidente dos EUA na plataforma Truth Social.
Antes desse momento, Petro e Trump haviam trocado declarações de tom elevado, com ameaças incluídas, que colocaram Colômbia e Estados Unidos em confronto.
Desde janeiro de 2025, mês em que começou o segundo mandato de Trump na Casa Branca, os presidentes dos EUA e da Colômbia iniciaram seus desentendimentos.
Trump iniciou uma campanha contra a imigração ilegal desde seus primeiros dias de governo, e uma das medidas utilizadas em sua estratégia foi a realização de voos de deportação.
Irritado com a forma como os deportados estavam sendo devolvidos com as mãos atadas a bordo de voos militares, Petro devolveu dois desses voos que já estavam no ar e se dirigiam à nação sul-americana, surpreendendo a administração Trump.
Em vários posts no X (antigo Twitter), Petro anunciou que bloqueava os voos militares de deportação dos EUA. Posteriormente, o presidente colombiano publicou uma mensagem ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, advertindo: “Jamais permitirei que tragam colombianos algemados em voos. Marco, se funcionários da Chancelaria permitirem isso, nunca será sob minha direção”.
No entanto, Petro recuou mais tarde naquele dia, depois que a administração Trump ameaçou impor tarifas de até 50% e sanções a funcionários do governo colombiano. A Colômbia anunciou que havia aceitado “todas as condições do presidente Trump”, incluindo a “aceitação sem restrições dos imigrantes não documentados que entraram nos Estados Unidos”.
Embora as coisas tenham se estabilizado naquele momento, a relação entre as duas nações que por muito tempo mantiveram um vínculo sólido — sobretudo em matéria de segurança e defesa — ficou abalada desde então.
Em março de 2025, durante uma reunião em Bogotá, a secretária de Segurança Nacional dos EUA, Kristi Noem, afirmou que Petro havia se referido a membros da organização criminosa venezuelana Tren de Aragua como “seus amigos” e os havia descrito como pessoas mal interpretadas que apenas precisavam de “mais amor e compreensão”. Petro negou ter feito esses comentários e sugeriu que a confusão se deveu a uma má interpretação de suas palavras por seu domínio limitado do inglês.
O episódio gerou novas tensões diplomáticas e refletiu os problemas em que o presidente costuma se envolver por seus pronunciamentos públicos.
O Tren de Aragua, designada pelo governo Trump como organização terrorista, é uma quadrilha criminosa transnacional originada em uma prisão da Venezuela e que lentamente abriu caminho do sul ao norte do continente nos últimos anos. Em 2023, uma investigação da CNN revelou a presença de seus membros nos EUA. A Procuradoria Geral da Venezuela afirmou em janeiro de 2025 ter desmantelado o Tren de Aragua, mas não há registro da prisão de Héctor “Niño” Guerrero, considerado líder da organização e cujo paradeiro segue desconhecido.
Até antes de 2025, EUA e Colômbia mantinham há décadas uma relação de dependência mútua. Por um lado, os EUA são o principal parceiro comercial da Colômbia; por outro, Bogotá é um dos maiores aliados estratégicos de Washington na luta contra drogas e terrorismo.
Não obstante, o governo Trump afirmou em meados de setembro que a Colômbia havia “falhado notavelmente” em suas obrigações para combater o narcotráfico, decidindo descertificar o país sul-americano. Essa descertificação implica uma série de restrições por parte dos EUA, embora as autoridades americanas tenham dito que continuariam fornecendo fundos à Colômbia. A administração Trump atribuiu as falhas diretamente a Petro.
Por sua vez, Petro disse que a Colômbia estava “ajudando” os EUA no combate às drogas e assegurou que o problema do consumo é da sociedade americana, não dos colombianos.
“Os EUA nos descertificaram, depois de dezenas de mortes entre policiais, soldados e civis que tentavam impactar o tráfico de cocaína”, declarou Petro.
Esse novo embate não foi o único de setembro. Seguiu-se outro relacionado ao visto de Petro, tema que já havia sido ponto de discussão meses antes.
No fim do mês, os EUA anunciaram que revogariam o visto de Petro, após o presidente sul-americano ter chamado publicamente soldados americanos a desobedecerem Trump em frente à sede da ONU em Nova York. Petro estava na cidade para discursar na Assembleia Geral da ONU, onde também chamou Trump de “cúmplice do genocídio” em Gaza.
“Revogaremos o visto de Petro devido às suas ações imprudentes e incendiárias”, declarou o Departamento de Estado dos EUA.
Petro afirmou depois que não precisava do visto para viajar aos EUA por ser cidadão europeu. Em uma mensagem no X, dirigiu-se a Trump: “Sou, além de colombiano que se orgulha de seu país, que ama sua enorme beleza tropical, seu mar, suas montanhas e suas culturas todas, tão belas quanto a natureza, um cidadão europeu. Não preciso do seu visto, mas irei apenas quando for convidado por seu povo”.
Os confrontos não pararam desde então.
Em outubro, Trump intensificou seus ataques contra Petro: chamou-o de “bandido” e o responsabilizou pela produção de drogas ilícitas que chegam aos EUA, em meio à campanha militar lançada em setembro contra supostas embarcações narcotraficantes no Caribe e Pacífico.
Petro respondeu nas redes sociais que se defenderá “das calúnias que me lançaram” com “advogados americanos”.
Apenas dois dias depois desse embate, o Departamento do Tesouro dos EUA anunciou sanções contra Petro “por seu papel no comércio mundial ilícito de drogas”.
“Desde que o presidente Gustavo Petro chegou ao poder, a produção de cocaína na Colômbia disparou até alcançar a taxa mais alta em décadas, inundando os Estados Unidos e envenenando os americanos”, disse o secretário do Tesouro, Scott Bessent, em um comunicado
Petro respondeu rapidamente em uma publicação no X, dizendo que havia contratado um advogado americano e que pretendia lutar contra as sanções.
Mais tarde, Petro afirmou que a produção de cocaína não aumentou durante seu mandato, como dizem os EUA: “Assim, em meu governo não disparou a cocaína, mas, ao contrário, meu governo apreendeu mais cocaína do que em toda a história do mundo”, declarou.
Na lista de pessoas sancionadas pelo Tesouro americano — conhecida na Colômbia como “lista Clinton” — também foram incluídos a esposa de Petro, Verónica Alcocer; seu filho, Nicolás Petro; e o ministro do Interior, Armando Benedetti.
Semanas depois, em novembro, Petro tornou públicas suas contas bancárias em uma tentativa de demonstrar, segundo ele, que não tem vínculos com o narcotráfico.
“Dada a grosseria do presidente Trump de me incluir a mim e a minha família na lista Clinton sem que nenhum seja narco ou tenha relações com narcos, decidi que toda minha vida financeira, longa mas frugal, seja publicada”, escreveu Petro em uma publicação em sua conta no X.
Desde os primeiros dias de dezembro, os embates entre os governos de Trump e Petro só aumentaram.
Após o presidente dos EUA dizer que qualquer país que trafique drogas para os Estados Unidos está “sujeito a ataque”, Petro advertiu que não atacasse a soberania da Colômbia.
Além disso, Petro convidou Trump a visitar a Colômbia para ver de perto a implementação da política do país para interromper o tráfico de drogas.
Dias depois, Trump disse que Petro seria “o próximo”, em alusão à pressão que seu governo estava exercendo no momento contra o agora deposto presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.
Trump descartou falar com Petro neste momento e assegurou que o presidente colombiano havia sido “bastante hostil com os Estados Unidos”.
Petro respondeu e afirmou que Trump desconhece a Colômbia e o que seu país faz para combater o narcotráfico.
“Trump é um homem muito desinformado sobre a Colômbia. É uma pena, porque despreza o país que mais sabe sobre tráfico de cocaína, parece que seus interlocutores o enganam por completo”, declarou o colombiano.
Semanas se passaram e, então, chegou a derrubada de Maduro no sábado (3) depois de um ataque militar americano na Venezuela, durante a madrugada.
Após o ataque, Petro minimizou as consequências da operação, enquanto Trump lançou uma dura advertência ao presidente da Colômbia ao citar a preocupação com o narcotráfico: “Ele tem fábricas onde faz cocaína. Está produzindo cocaína e enviando aos Estados Unidos. Então, precisa cuidar do seu traseiro”.
“A Colômbia também está muito doente, governada por um homem que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos, e isso não vai durar muito”, acrescentou Trump no domingo (4), um dia depois do ataque.
Também no domingo, Petro rejeitou as acusações e afirmou que o castigo dos EUA contra ele “é me tratar falsamente como narcotraficante e dono de fábricas de cocaína”.
O tom de Petro se intensificou e ele chegou a falar em “pegar em armas” se necessário para defender a soberania da Colômbia das ameaças de Trump.
Na terça-feira (6), a ministra das Relações Exteriores da Colômbia, Rosa Yolanda Villavicencio, indicou que se reuniria com um representante dos Estados Unidos para tratar das ameaças de Trump.
Em meio a essa escalada, chegou uma ligação inesperada que se assemelhou a uma trégua diplomática. Trump e Petro conversaram por telefone nesta quarta-feira (7) e, por ora, acalmaram a instabilidade entre Colômbia e Estados Unidos.
Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp








