Venezuela: tom mais rígido do Brasil segue linha de outros países da AL

Brasil seguiu declaração do Grupo de Lima, que disse não reconhecer o resultado das eleições venezuelanas; próximos passos devem ser sanções

Reeleição de Maduro não teve legitimidade reconhecida por Grupo de Lima

Reeleição de Maduro não teve legitimidade reconhecida por Grupo de Lima

REUTERS/Carlos Garcia Rawlins/21.05.2018

O tom rígido adotado pelo Itamaraty ao não reconhecer a legitimidade das eleições ocorridas na Venezuela no domingo (20) é resultado de um ordenamento entre o Brasil e outras nações latino-americanas. É esta a opinião de Guilherme Frizzera, mestre em integração da América Latina pela Universidade de São Paulo e doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.

“A manifestação do Itamaraty era previsível principalmente pelo fato de o Grupo de Lima — que é formado pelo Brasil e mais de dez países das Américas — ter também declarado que não reconhece o resultado das eleições na Venezuela. Se não houvesse esse ordenamento entre os países, provavelmente nossa resposta não teria sido tão dura. Como é um grupo de nações atuando de forma conjunta, a declaração tem peso e significado maiores”, diz o especialista.

O atual presidente venezuelano, Nicolás Maduro, foi reeleito com 67,7% dos votos em pleito realizado no domingo (20), segundo o Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela. O resultado foi questionado pela oposição, que pediu nova votação devido a denúncias de irregularidades.

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores disse lamentar “profundamente que o governo venezuelano não tenha atendido aos repetidos chamados da comunidade internacional pela realização de eleições livres, justas, transparentes e democráticas”. O comunicado do governo do Brasil completa que as condições em que ocorreu a votação na Venezuela — com presos políticos e lideranças oposicionistas inabilitadas — não favorecem a credibilidade dos resultados.

Mudança de tom

José Maria de Souza, doutor em Ciência Política e especialista em América Latina das Faculdades Integradas Rio Branco, de São Paulo, ressalta a mudança de tom e lembra que em outras oportunidades o Brasil não demonstrou um posicionamento tão ríspido.

“Houve votações controversas na América Latina nos últimos 20 anos e muito raramente o Itamaraty deixou de reconhecer os resultados. Mesmo a eleição anterior de Nicolás Maduro na Venezuela foi parte de um processo controverso. À época, Maduro era vice-presidente na chapa de Hugo Chávez, que havia sido eleito mas não tomou posse por estar internado em Cuba”, explica o professor. A oposição venezuelana defendia que, por Chávez não ter sido empossado, Maduro não poderia subir ao cargo. Do outro lado, os chavistas — apoiados por países como o Brasil — diziam que Maduro deveria, sim, assumir o comando do país.

Desdobramentos

Para Frizzera, o mais importante agora é prestar atenção aos desdobramentos da posição assumida por Brasil e pelo Grupo de Lima:

“Até o momento, já houve a convocação dos embaixadores da Venezuela nas respectivas nações para prestarem esclarecimentos. Este costuma ser o primeiro passo quando há relações diplomáticas estremecidas. Depois disso, é possível que as manifestações sejam levadas a organizações internacionais, o que pode resultar em medidas mais duras como sanções econômicas. É esta a tendência”.

Na opinião do especialista, as consequências para o Brasil não devem ser notáveis — já que o país dificilmente deve sofrer sanções econômicas ou diplomáticas em decorrência da manifestação.

No que diz respeito à Venezuela, os efeitos no cenário pós-eleição também não devem ser drásticos, segundo José Maria de Souza: “Mesmo que as entidades internacionais não reconheçam a credibilidade do pleito, isso não afeta a Venezuela porque ela já está isolada. Já existe um discurso contra outros regimes, o país apresenta um descolamento das organizações regionais e internacionais e estamos vendo mais do mesmo”.